Quinta-feira, 23 de Agosto de 2007
Dans le Noir?
 
Dans le Noir? é o nome de um restaurante muito especial que existe em Paris, onde tudo acontece na mais profunda escuridão. As pessoas que lá vão sabem que é uma experiência radical e, até, inquietante. Vão lá por isso e para isso, aliás. Para experimentar o que é viver durante um par de horas na ausência total de luz.
As trevas foram artificialmente criadas para dar uma ilusão de cegueira e para despertar todos os outros sentidos. A entrada deste restaurante é clara e está naturalmente iluminada mas as pessoas são obrigadas a deixar ali todos os objectos portadores de luz ou brilhos. Telemóveis, relógios, Ipods, tudo fica na recepção até ao fim da refeição.
Os clientes são servidos por cegos e encaminhados por eles para as mesas. A escuridão é gradual, ou seja, não é imediata. Há uma espécie de corredor por onde se avança já na penumbra e só depois se chega a uma sala onde se ouvem vozes mais altas do que o habitual, onde se sente que há gente mas onde não se vê rigorosamente nada nem ninguém.
Os cegos que trabalham no restaurante recebem as pessoas com naturalidade, pegam na mão de um dos que acabaram de chegar, põem-na sobre o seu ombro e aconselham os outros a imitá-los para se dirigirem à sala. E é em fila, de mãos dadas ou pousadas no ombro do que vai à frente, que se chega à mesa.
A primeira ida a este restaurante nunca é fácil porque a cegueira assusta, o escuro faz medo e a ausência de referências visuais provoca uma enorme ansiedade. Chega a ser claustrofóbico e a criar pânico, mesmo. Não sei se há muitas pessoas que repitam a experiência mas a verdade é que este restaurante tem sempre uma lista de espera de pelo menos uma semana. Nunca lá fui e confesso que a tentação não é grande mas tenho amigos que foram e me contaram o que sentiram. De certa forma é fascinante perceber como a cegueira induzida nos pode revelar tanto sobre nós e o mundo à nossa volta.   
Aquilo que porventura é mais marcante para quem vai a este restaurante é ser atendido, conduzido e servido por cegos. Há uma estranheza inicial que decorre da certeza íntima de nunca termos pedido a um cego para nos guiar ou para ser ele a mostrar-nos o caminho. Ali não só precisamos deles como são eles que devolvem a confiança, as certezas e as referências que se perdem por não haver luz.
O facto de não ser possível ver rigorosamente nada obriga a gestos e a expedientes que em circunstâncias normais não seriam usados. Falo do simples acto de pegar no copo de água ou vinho, de beber, de saber onde o pousar e quando deve voltar a ser cheio (usa-se o dedo ligeiramente dentro do copo para verificar o nível do líquido), falo de usar os talheres, cortar os alimentos, usar e voltar a usar o guardanapo, de ir à casa de banho se for preciso, de dar ou não as mãos sobre a mesa, de encontrar outras formas de cumplicidade que não passem pelo olhar, de falar mais ou menos baixo, de sentir a proximidade ou a distância a que estamos de quem nos acompanha mas, também, de quem está ao nosso lado mas não está connosco. Falo da escolha do menu, da confiança em quem serve à mesa, enfim falo disto e de tudo o que acontece habitualmente num restaurante dito normal onde nos vemos e reconhecemos e, por isso, nos esquecemos que há outras realidades radicalmente diferentes da nossa.
 
publicado por Laurinda Alves às 17:39
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