Quinta-feira, 16 de Agosto de 2007
Viagens de sofá
 
 
Quase tão bom como viajar é ler ou ouvir os relatos de outros viajantes. Para ser sincera, no meu caso a palavra ‘quase’ chega a ser leviana. Na verdade, nada nem ninguém me substitui uma viagem mas, enfim, concedo que também é bom ver o mundo pelos olhos dos que amamos.
Passei um dia inteiro desta semana a ver mil e uma fotografias de uma viagem extraordinária feita pela Índia e Nepal durante um mês. Sentados no sofá fomos vendo maravilhas, registando impressões, observando detalhes incríveis em lugares remotos e ouvindo frases avulsas sobre gente desconhecida. Pessoas que provavelmente nenhum de nós conhecerá nem os viajantes voltarão a ver.
Nunca fui à Índia nem conheço nada naquela latitude mas reconheço que é uma viagem que se torna cada vez mais urgente. Ver as cores e falar dos cheiros parece banal e soa a frase feita mas as imagens e, acima de tudo, a voz e o entusiasmo com que nos é revelado o dia a dia desta viagem são únicos e contagiantes. Apetece partir hoje e percorrer os mesmos caminhos, descer os mesmos ghats para mergulhar nos lagos sagrados e guardar o mesmo silêncio ritual do pôr-do-sol no grande templo de pedra branca.
Comove sempre a emoção dos que regressam de grandes viagens e percebe-se a abstracção em que ficam por estarem ainda divididos entre mundos, sem conseguirem aterrar completamente aqui.
Reparo nos ângulos das fotografias e vou percebendo o que mais seduziu quem fotografou. Por vezes são as caras, os sorrisos cúmplices e os olhos muito próximos, outras vezes são os horizontes amplos, os montes distantes, as cidades ao fundo. Vejo a cidade azul de Jodhpur muito perto e muito longe, fotografada com paixão e surpresa. É uma cidade romântica onde apetece caminhar devagar.
Nas imagens desta longa viagem há lagos imensos e lagos pequenos, ilhas com templos majestosos erguidos em estreitas faixas de terra, cúpulas fantásticas que se desenham no horizonte líquido, túmulos de princesas, casas de marajás, palácios de reis e fontes de pedra encarnada onde as crianças brincam despidas. Há flores de lótus abertas e por abrir à superfície dos lagos, folhas verdes de plantas gigantes, carros cheios de gente por toda a parte, caos e desordem nas cidades, miséria e alegria em cada esquina, vacas, flores de jasmim, especiarias coloridas e perfumadas, mulheres de saris vistosos e elegantes, homens descalços de mãos dadas com outros homens num gesto antigo de amizade sem equívocos. Em resumo, há o que há em todas as fotografias que vemos destas paragens mas há mais: há o olhar de alguém que verdadeiramente amamos e conhecemos e, por nos mostrar outras caras e outros mundos, nos revela também com mais profundidade e amor o seu mundo interior.  
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publicado por Laurinda Alves às 17:36
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