A Teresa e a Luísa, que fazem na próxima semana 6 e 3 anos respectivamente, são as minhas sobrinhas mais novas que adoro e abraço sem contenção, que encho de beijos queridos a toda a hora e que me devolvem os mimos com gargalhadas roucas, abraços enroscados no meu pescoço, perguntas divertidas e frases cómicas que guardo com infinito amor.
A Teresa e a Luísa gostam moderadamente de Barbies e até têm uma colecção delas mas pertencem claramente à geração Polly Pocket. Bricam com as Pollys de manhã à noite e para onde quer que vão arrastam consigo dezenas de bonecas minúsculas com caixas cheias de roupas e acessórios microscópicos feitos de borracha. Quem tem filhas ou sobrinhas pequenas sabe bem a tralha de que falo.
A primeira vez que vi uma Polly foi uma surpresa: uma boneca mais pequena que a palma da mão, que se pode vestir, despir, calçar, descalçar, pentear e arranjar de todas as maneiras e feitios. Eu, que pertenço claramente à geração Samantha, uma boneca de pano de longas pernas e cabelos muito compridos que se podiam pentear horas a fio, estranhei a coisa. Curiosa, investiguei minuciosamente os acessórios e as possibilidades, com a secreta certeza de que preferia mil vezes a boneca da minha infância (que era tão grande que começou por ser maior que eu!) e tinha uma personalidade própria pouco dada a transformismos. Não tinha toilletes de festa, não vestia roupas decotadas, não usava micro-saias, não tinha sapatos de salto alto nem bandeletes com brilhantes e nunca lhe conheci nenhum namorado. Era simplesmente uma boneca gira, querida e confortável, tipo almofada, com que podia dormir na cama à noite. Era e foi sempre a boneca dos meus sonhos, aliás.
Sem querer fazer juízos sobre a atitude implícita nas bonecas modernas, que usam e abusam dos vestidos, sapatos, make-up, carteiras, cintos, espelhos e outras futilidades mais ou menos absurdas, dei por mim a olhar para as saias e t-shirts microscópicas com um interesse quase antropológico.
Agora que vi as notícias da Mattel, a anunciar a retirada do mercado de cerca de 18 milhões de brinquedos, entre os quais 22 séries de Polly Pocket por conterem materiais considerados tóxicos ou nocivos, olho para o incrível display de Pollys das minhas sobrinhas e quase tenho pena delas.
A boa notícia é que se tudo correr bem a Mattel (mais a concorrência, claro) vai criar rapidamente novas bonecas, com outros tamanhos e feitios, e o meu irmão mais novo pode voltar a andar descansado pela rua quando leva as filhas pela mão. É que na última vez em que nos cruzámos na Rua Garrett ele, um homem feito de 1m90cm, estava de cócoras no passeio, desesperado, à procura das botas da Polly.