Sábado, 25 de Abril de 2009
A minha última crónica no jornal Público

 

Não gosto particularmente de despedidas mas concedo que,

por vezes, são inevitáveis. Foi o caso, hoje. Despeço-me do

jornal Público com esta última página de crónicas. As Coisas

da Vida acabam por aqui e não volto na próxima sexta-feira nem

nas semanas seguintes. Não volto a escrever no jornal e tenho

pena, claro, mas a escolha não foi minha. Escrevo no Público, o

‘meu’ jornal, há mais de uma década. Comecei aos domingos,

na revista Pública, depois fiz a XIS e agora escrevia as Coisas da

Vida há dois anos. É muito tempo, foi muita vida vivida e partilhada,

e é muito caminho percorrido com o Público. Na semana passada

recebi um sms do José Manuel Fernandes a perguntar quando

podíamos falar. Estava fora de Lisboa e liguei-lhe de volta. Percebi

que havia um embaraço do outro lado da linha e que o que ele tinha

para me anunciar não era fácil de dizer nem de ouvir. Ele insistia em

falarmos pessoalmente mas eu estava sem tempo e com uma agenda

milimetricamente preenchida. A conversa ficaria fatalmente adiada para

demasiado tarde e, por isso, pedi-lhe que me dissesse por telefone. A

muito custo, ele disse. A notícia era a minha dispensa como colunista

do Público já a partir do fim do mês. A razão, disse ele, é a contenção de

custos. Acredito. Não faço ideia se há outros argumentos nem sei se vai

haver mais despedimentos a curto ou médio prazo no Público. Espero

sinceramente que não. Sei que é difícil estar no papel de quem dispensa

colaboradores, de quem faz contas, de quem gere critérios editoriais e de

quem concerta estratégias e políticas. As conversas finais exigem coragem

e, até certo ponto, houve coragem dos dois lados. Depois a vida seguiu, houve

um telefonema muito rápido e algumas perguntas que ficaram sem resposta.

Mais nada. Assim sendo, aqui fica a minha última crónica do Público com

um agradecimento sincero a todos os que fizeram equipa comigo ao longo

destes anos todos. Muito obrigada.

 
As crónicas que gostaria de escrever no jornal
 
A partir de hoje, e nos próximos tempos, as crónicas semanais que
gostaria de escrever no jornal serão publicadas no meu blog, onde
a equipa da Maria João Nogueira, do Sapo.pt, já está a redesenhar
um espaço onde caibam estes textos que escrevo semana após
semana, mês após mês, há anos a fio. A escrita diária num blog é
radicalmente diferente da escrita semanal num jornal e não é apenas
por uma ser mais telegráfica ou a outra mais detalhada. Ambas podem
ser profundas e elaboradas, mesmo quando parecem repentistas ou
mais imediatas. Gosto desta complementaridade da escrita e, por isso
mesmo, vou manter as crónicas semanais no meu blog à sextas. Assim
nem eu perco o ritmo, nem os que me acompanham à semana perdem
o contacto. Boa para mim e para os que gostam de me ler, portanto!
 
Estas e outras Coisas da Vida
 
Curiosamente a semana começou com o lançamento de Coisas da Vida,
o meu novo livro de crónicas com textos do Público e fragmentos do blog,
e acaba agora com o fim desta página. Acho graça à amplitude de estados
de alma que uma coisa e outra provocam em mim e à minha volta. E acho
extraordinária a maneira como a vida se tece. Por um lado, alguém insiste
em perpetuar as Coisas da Vida quando decide publicar mais uma colecção
de crónicas que se destinavam a ser efémeras. Por outro, alguém é obrigado
a suspender a elaboração dessas mesmas crónicas e a dar-lhes um fim
definitivo. Ram Charan, o guru dos maiores CEO de algumas das maiores
empresas do mundo, esteve em Lisboa recentemente e falou da possibilidade
redentora que a estratégia ‘killing projects’ encerra. Tenho a certeza de que está
certo e que, às vezes, é preciso matar coisas antigas para nascerem coisas novas.   
 
publicado por Laurinda Alves às 01:00
link do post | comentar | favorito
32 comentários:
De Marcolino Duarte Osorio a 25 de Abril de 2009 às 02:43
Olá, Laurinda!

Sou um velhote de 67 anos que também já soube a dor, até às lágrimas, de um despedimento colectivo em 1987, precisamente no dia em que completava 45 anos de idade. Minha filhota mais novita tinha ainda 4 anitos de idade.

Tive que reiniciar a minha vida do zero absoluto!

Ninguém me queria para trabalhar, porque já havia passado a fasquia dos 30 anos de idade.

Deitei mãos à obra. Estabeleci-me por conta própria. Havia que sustentar o meu agregado familiar e dar formação académica às minhas duas filhas.

Lutei, lutei e lutei, com ganas de lhes dar um Curso Superior porque era isso mesmo que elas me haviam pedido.

Ambas estão formadas, e a exercer enquanto podem...

É uma questão de se acreditar para ir em frente. Estou ciente de que a nossa Laurinda, acredita em si mesma, para cortar mais esta Meta Volante da sua Vida!

Fôrça, Amiga e Companheira de Jornadas Dificeis, tenho a plena certeza de que vai vencer!
De Luísa a 25 de Abril de 2009 às 02:58
Boa noite,
Tenho pena de que essa situação tenha acontecido. Fica a certeza (consoladora) de que continuarei a lê-la aqui, com aliás já fazia. Coragem e mantenha esse seu espírito positivo e de luta
De isabel mota a 25 de Abril de 2009 às 07:16
Querida Laurinda

Sempre que se fecha uma porta abre-se uma janela... Acredito, profundamente, nisso.... há mesmo ciclos que temos que encerrar...
Pessoalmente, vou "gostar" de te ver seguir para o Parlamento Europeu.... pela frescura, pela alegria e pelo dever que te encherão as malas...
No entanto... FAZES CÁ TANTA FALTA!!!!

Seguir o Público é bom e continuarei a fazê-lo, nem sempre diariamente, também devido a opções monetárias... mas seguir-te aqui é um ritual diário e é muito, muito melhor.

Talvez possas passar no meu blog http :/ gato-pintado.blogspot.com
ontem deixei lá um filme do youtube (que não sei trazer para aqui) que sei irias adorar ver.
Se puderes espreita o último post que é só mesmo uma música que eu adorei.


Um grande, grande beijinho cheio de força! Bom 25 de Abril de 2009 para todos!
isabel mota
De Cristina a 25 de Abril de 2009 às 07:25
Laurinda, girl
Estou triste por ti ou talvez não.
Onde vais guardar agora tantas memórias e recordaçóes? Espero que tenhas um grande baú...
Ou então estás mesmo em tempo de mudança e um jornal será "pequeno" demais para ti, já pensaste?
Sei que publicar palavras e ideias em paginas lidas por milhares de olhos não deixa de ser uma grande arma para fazer "mexer as coisas" e acordar os adormecidos deste país de que queremos sempre continuar a gostar, não é?
Porem, por outro lado, quero acreditar firmemente que há por aí um plano mais alto para ti, quem sabe.Não vês como tudo está a mudar a uma velocidade estonteante, a sociedade, as pessoas, as doenças, o clima, a tecnologia, as instituições.
Limpamos o velho - às vezes com tantas coisas boas que não podemos evitar chorar - mas criamos de novo.Melhor. Ou pelo menos quero acreditar que sim.
Have faith!!
Bj GRANDE
Cristina
Ps - ...estou eu a ensinar a missa ao padre...Ora, ora, devo ser tonta.
De Zilda Cardoso a 25 de Abril de 2009 às 08:32
Se bem que o s/blogue tenha quase 300.ooo visitas em 2 anos... não chega. É sempre de acesso limitado em comparação com o jornal. Não posso compreender como desaparece a Xis em pleno sucesso e agora a página de crónicas da mesma forma. Para mim, é inteiramente incompreensível. Não conheço os critérios e a razão apresentada é demasiado vulgar e não aceitável. Os admiradores da Laurinda e s/inúmeros leitores querem uma explicação plausível. Compreende-se que deve acabar o que é antigo para dar lugar a algo novo. Mas o que lhe foi oferecido de novo? Que outra oportunidade lhe foi dada? Há muitas perguntas sem resposta. Só espero que os responsáveis por outros meios de comunicação social se dêem conta de que há disponível uma voz nova e valiosa de alguém que pensa e pode dizer coisas diferentes e levar-nos a pensar diferentemente nos outros, na sua existência (deles) e nas suas qualidades e necessidades. Precisamos muito de pessoas assim: rostos mais humanos, pensamentos mais solidários..
Um abraço de muito carinho.
De Margaridaa a 25 de Abril de 2009 às 09:26
Ainda bem, Laurinda, que vamos poder continuar a ler as tuas crónicas que eu muito, muito aprecio.O teu olhar positivo sobre o mundo e sobre aquilo que te rodeia é um bem para todos. Gosto que existas.Gosto que escrevas.
De joaquim a 17 de Fevereiro de 2010 às 18:10
gostei muito, obrigada dr: laurida alves
De concha a 25 de Abril de 2009 às 09:45
Olá Laurinda!
Quero deixar aqui o testemunho de continua admiração pela dignidade com que enfrenta o menos bom que a vida traz .Pela minha parte um Obrigada pela preocupação de continuar a publicar aqui as suas crónicas.
Um abraço fortíssimo na certeza que quando anoitece num local ,há outros locais onde o sol brilha intensamente .
Excelente fim de semana
De Augusto Küttner de Magalhães a 25 de Abril de 2009 às 09:49
Como já referi, não poucas vezes, ainda hoje penso existir uma lacuna com o fim da XIS. Quanto ao fim das Cronicas da Laurinda no Púbico, já não penso de igual forma. Acho que a XIS pela sua qualidade, pelos temas que cada semana trazia era muito interessante e ficou um “espaço vazio”. As Crónicas de 6ª feira serão aqui perfeitamene substituídas, teremos aqui todos. espaço para as ler, teremos aqui oportunidade não só às 6ªs feiras, como todos os dias de ler o qe a Laurinda escreve, pelo que “no problem”. Continuo a pensar, até prova em contráro que o Público é o melhor jornal diário que temos, como o Expresso o melhor semanário, mas ambos cometem erros, são feitos por humanos...basta isso..têm interessses por trás? Claro que têm, mas Expresso e Públio apesar de tudo, havendo Pinto Basemão e Belmiro de Aevedo na retaguarda, não estão ideologicamente dependentes dos mesmos. Pelo que há que acreditar “ainda” nestes dois periodicos..sempre com hipoteses – esperemos que não - de umdia, deixarem de ser o que são. O que neste panorama actual seria mau. Por outro lado está aí a sair um novo jornal. Se me permitem ainda não entendi hoje e agora, onde se vi situar. Quem souber, que possa ilucidar. E com isto tudo, quero dizer que a Laurinda vai por certo ainda melhorar esta sua Casa, e enquanto achar opprtuno deixar-nos-á entrar, comentntar e aprender!
De Cristina a 26 de Abril de 2009 às 06:33
Olá Auguto
Muito obrigada pelo seu olá do outro dia. Ando por aqui de novo (sempre fui andando, ainda que sem comentar nada), estou bem fisicamente ainda que tenha que fazer mais umas RM's; há que investigar 1 nódulo na gandula supra-renal ao qual não estou a dar muita importância.
Às vezes cansa ser virada e revirada por dentro e fora infindavelmente ao longo de 15 anos e desligo enquanto alguns grupos/interesses vão jogando com a nossa saúde.
Já ouvi dizer que a cura para o cancro foi há muito tempo descoberta e não posso deixar de reflectir que a hipótese náo é de todo irreal.
Todavia há realmente tantos interesses escondidos e disfarçados que, às vezes, vamos servindo de pequeninas cobaias, consciente ou inconscientemente, e vamos deixando o barco ir sendo tocado para a frente apenas por hábito.
Talvez outro tipo de interesses mais altos (?) e menos claros se movimentem em lugares que não queremos saber.Talvez não.
A verdade é que alguma dessas influências deixou a Laurinda fora do Público.
Sem razão.Que razão plausível haverá para dispensar uma profissional deste calibre?
E…não é justo.
Obgda uma vez mais.
Força, Laurinda!
Crsitina

De Augusto Küttner de Magalhães a 26 de Abril de 2009 às 22:37
Cristina

Apesar de não a sentir “ainda” muito feliz, vejo que continua viva a lutar pela vida! Não deixe de o fazer. Sei que há momentos, em que tudo parece muito complicado, muito doloroso! Mas se ainda tem a vontade de com tanta lucidez – em causa própria – escrever o que aqui escreveu, é por que estes 15 anos de Voltas e Reviravoltas têm resultados. Quando refere, experiências, medicamentos, cobaias, claro que escreve muito bem. Por que razão? Em parte por que a industria da saúde dá muito, muito dinheiro....mas por vezes resulta! E algo que já todos entendemos é que um qualquer medicamento faz bem, mas também faz mal, e se fizer mais bem que mal – vale ser tomado. Penso que vale estarmos vivos sempre se tivermos alguma qualidade de vida, alguns intersses na e pela vida. Achava estranho a Cristina, ter deixado de aparecer – se não escrever!!!!! – aqui no blog da Laurinda, Felicito-a por aparecer, por escrever, por defender causas!!!

Um grande abraço do

Augusto
De Sandra a 25 de Abril de 2009 às 10:00

Querida Laurinda,

Devo dizer que fiquei chocada com a sua saída do Público. É jornalista profissional, tem toda uma vivência que inspira milhares de portugueses, é um exemplo de dignidade de militância cívica activa , e porque a História do Jornal Público nunca se poderá fazer sem a Laurinda. Havia todos os motivos para ficar. Pelo que percebi, nem proposta de renegociação houve. E eu, pessoalmente, tenho alguma dificuldade em acreditar na justificação que lhe deram.
Laurinda, foi um ciclo que terminou. E a Laurinda sempre esteve muito bem.
Agora a hora é outra :) com novos desafios.

Quero dedicar-lhe um poema de Sophia. É merecido.

"Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não."

Fique bem :)




De Moura Aveirense a 25 de Abril de 2009 às 11:07
É pena que o jornal vá eliminando as coisas boas que tem... fiquei estarrecida quando eliminaram a Xis e o Mil Folhas (um excelente caderno cultural), duas coisas que me faziam comprar o jornal religiosamente todas as semanas. Pelos vistos, as coisas boas vão, as más vão ficando...

Comentar post

.pesquisar
 
.tags

. todas as tags

.posts recentes

. MUITO OBRIGADA A TODOS PE...

. CURSOS DE COMUNICAÇÃO NO ...

. Curso de Comunicação adia...

. Se tiver quorum ainda dou...

. O BENTO E A CARMO HOJE EM...

. HOJE NO PORTO: SOBREVIVER...

. MÃES QUE NÃO CHEGAM A VER...

. Esta miúda vai longe!

. Alegria!

. Ladrões e cavalheiros

.arquivos
.mais sobre mim
.subscrever feeds