Dizem os entendidos que não é preciso perceber de pintura para nos deixarmos tocar pela pintura de Van Gogh. Eu diria ainda mais do que os entendidos: não é preciso perceber de pintura para nos deixarmos tocar por este e por tantos outros pintores, ponto.
Os quadros que Van Gogh pintou nos últimos dois meses de vida, antes de se ter suicidado, estão agora expostos em Madrid no Museu Thyssen-Bornemisza.
Van Gogh lutou anos a fio contra a loucura e mudou-se para Auvers depois de ter estado internado num manicómio em Paris. Auvers fica apenas a 30kms e Van Gogh precisava da quietude da província, do silêncio das casas velhas ou abandonadas, do amarelo dos campos, do azul do céu e do verde das espigas verdes. Chegou a Auvers no dia 20 de Maio de 1890, depois de ter visto pela primeira e única vez em Paris o conjunto de toda a sua obra, recolhida e organizada pelo irmão Théo. Matou-se no dia 29 de Julho, com um tiro no peito que o deixou horas em agonia nos mesmos campos de trigo que ele próprio pintou obsessiva e apaixonadamente nos últimos tempos de vida. Tinha 37 anos e agora impressiona ver a derradeira obra de um grande pintor que morreu tão novo.
As Últimas Paisagens vão estar no Thyssen até Setembro e vale a pena ir vê-las e observar no silêncio possível de uma exposição tão concorrida que os bilhetes indicam as horas a que podemos entrar e devemos sair, a luz extraordinária que Van Gogh descobriu à sua volta quando dentro de si só havia escuridão e sombras. Arrebatado e arrebatador, Van Gogh usava tanta quantidade de tinta que alguns quadros podem ver-se também de lado, numa perspectiva pouco habitual mas igualmente reveladora. As Últimas Paisagens de Van Gogh são ao mesmo tempo sublimes e trágicas. Impressionante impressionismo.