À hora a que escrevo a Carmo Rebelo de Andrade está em pleno voo, de volta a Singapura, para retomar a viagem de um ano que decidiu fazer pelo mundo inteiro. Interrompeu a viagem para vir ao casamento de um irmão e passou alguns dias em Lisboa. Foi muito bom vê-la, estar com ela, ouvi-la contar as suas histórias e rir com as suas gargalhadas contagiantes.
A Carmo fala a rir e é impossível manter uma conversa sem interrupções. Ela ri e nós rimos com ela, por tudo e por nada. Há pessoas assim, que têm o dom de iluminar tudo à sua volta. Rara, inspirada, luminosa e alegre, a Carmo tem apenas 22 anos mas uma infinidade de talentos reconhecidos e até premiados. Muitos conhecem-na pela voz rouca, poderosa e incrivelmente musical com que canta fados (quando cá estava cantava regularmente no restaurante Mesa de Frades, em Alfama) e todos reconhecemos nela uma alegria invulgar. Parece um anjo feliz.
Somos amigas apesar dos anos que nos separam e já vivemos juntas tempos marcantes e transformadores. Temos muitos amigos comuns e isso traz uma proximidade e uma cumplicidade ainda maiores. Conhecer a Carmo, ver a maneira como vive a vida e perceber o sentido que dá a tudo o que faz, permite compreender que a idade é verdadeiramente um estado de espírito.
Quando partiu para a sua longa viagem decidiu começar pela Índia e, de forma especial, por Calcutá. Depois de ter participado em várias missões de solidariedade em projectos ligados à sua universidade, a Carmo percebeu que esta viagem só teria sentido se pudesse de alguma forma dar um contributo. Movida pelo mais puro espírito aventureiro mas, também, por um profundo sentido de missão escolheu um percurso que lhe permitisse alternar períodos de serviço com períodos de descoberta e descanso.
Em Calcutá bateu à porta das Irmãs Missionárias da Caridade (mais conhecidas pelas Irmãs da Madre Teresa) e ofereceu-se como voluntária.
- Tinha preparado mentalmente um longo discurso de apresentação e estava nervosa porque mesmo assim não sabia bem o que ia dizer. Cheguei lá e nem tive tempo para explicar nada. Mandaram-me entrar, disseram-me para pousar a mochila e deram-me a escolher a casa para onde queria ir.
Perguntaram-lhe se preferia a casa das crianças, dos doentes, dos deficientes profundos ou dos moribundos.
- Escolhi a dos moribundos.
- Não te faz impressão?
- Nenhuma. Adoro velhinhos, adoro cuidar deles e cantar para eles. Mais do que curar as suas doenças, a ideia ali é devolver-lhes a dignidade e, se possível, a alegria.
Ouço calada, abismada, tudo aquilo que conta e o entusiasmo com que fala. Sei-me absolutamente incapaz de ser voluntária num pavilhão de moribundos e, muito menos numa leprosaria e, por isso, fico ainda mais comovida com a simplicidade, a naturalidade e o entusiasmo com que fala de tudo o que fez em Calcutá.
Acordava às 4h da manhã, apanhava dois autocarros de madrugada e andava quase meia hora a pé para chegar à casa dos moribundos. Passava ali a manhã e, depois, voltava a horas de ainda passar pela casa das crianças e dar algum apoio.
- As crianças para mim são muito mais difíceis. Não param, sobem às árvores o tempo todo mesmo as que só têm 3 anos, caiem das árvores, magoam-se e repetem as mesmas asneiras todos os dias. Muitas vezes tive a tentação de me oferecer para os trabalhos de lavandaria ou de cozinha mas achei que era fazer batota. Depois tive a sorte de passar pela leprosaria e de ir para a casa dos deficientes profundos.
- E foi mais fácil?
- Muito mais fácil. Gostei imenso de lá estar, gostei do silêncio, de poder ajudar cada um a superar-se e a transcender as suas limitações. Foi uma grande lição para mim.
Para mim também.
Agora que a Carmo partiu todos ficámos ainda com mais saudades. Foi bom estar com a Carmo, ouvir estas histórias e todas as suas aventuras, ter tempo para estar com ela e até para dançarmos juntos, entre amigos, pela noite dentro.
Ficou combinado encontrarmo-nos todos em Banguecoque em Fevereiro e sei que ninguém vai falhar. Alguns de nós voltaremos a vê-la antes, em Buenos Aires, lá para Novembro.