deixo aqui hoje o que escrevi para o Público de ontem e veio na sequência da minha ida à cadeis de Tires na segunda-feira passada. Bom sábado!
O lado de lá e o lado de cá das grades
Vou e volto aos estabelecimentos prisionais com alguma regularidade. Convidam-me a estar e a falar com reclusos e reclusas e acho um privilégio sem tamanho poder passar tardes e manhãs com eles em conversas demoradas sobre tudo e nada. Conheço quase todas as cadeias deste país e guardo de cada uma delas a memória de um espaço onde a liberdade física está muito condicionada mas também a certeza de que apesar das grades, dos muros altos, dos portões de ferro e do tamanho das celas, há por ali muita gente com muita liberdade interior.
Surpreendem-me as perguntas que me fazem quando tocam matérias mais sensíveis e profundas porque revelam a sensibilidade e a profundidade de quem pergunta. Lembro-me de ter estado em Vale de Judeus, a cadeia onde as penas são mais pesadas (há ali condenações perpétuas) com uma roda de reclusos à minha volta, numa proximidade perturbadora mas não inquietante. Havia guardas na sala, como é evidente, e senti-me naturalmente protegida mas na verdade aquilo que me tranquilizou foi a simplicidade com que homens mais velhos e mais novos falavam sobre o sentido da vida.
Estes homens cumprem penas de mais de vinte anos e alguns, insisto, jamais voltarão a sair dali e a ver o mundo, mas uns e outros falavam com essa tal liberdade interior que interpela e obriga a pensar.
Nem todos falaram. Houve os que se mantiveram calados do princípio ao fim, sentados nas últimas filas de cadeiras. Alguns tinham a cara fechada e o olhar duro mas estavam ali a ouvir e ninguém os obrigava a estar. Também o silêncio deles me marcou e por incrível que pareça, não esqueci as suas caras nem o seu olhar.
Nunca pergunto a um recluso porque é que está na cadeia. Não me passa pela cabeça fazê-lo porque não me cabe a mim julgar e, muito menos, condenar. Os que ali vão parar já foram julgados e condenados e já estão a cumprir a sua pena. Melhor ou pior, já estão a dar passos no sentido de recuperar parte daquilo que todos perdemos por cada crime que cometeram. Jamais conseguirão devolver a vida aos que mataram e talvez não consigam reparar nunca os danos dos que roubaram ou ofenderam, mas quem sabe se não vão a tempo de resgatar a sua própria vida e de recomeçar mais à frente. Mesmo em Vale de Judeus, de onde muitos não voltarão a sair, é possível recomeçar. É extraordinariamente duro e difícil, admito, mas não é impossível.
Percebi ali e noutras cadeias, em conversas que jamais esquecerei, que não há mérito nenhum em ter nascido deste lado da vida. Do lado dos que não matam, não traficam, não escravizam nem roubam, quero dizer. Há apenas sorte e um cúmulo de oportunidades. Do outro lado, pelo contrário, há uma sucessão de azares e um crescendo de revoltas. É quase sempre assim e salvo excepções mais ou menos raras, mais ou menos patológicas, fere quem está ferido, magoa quem foi magoado, rouba e mata quem sente que a vida também lhe foi roubada.
As mulheres de Tires
Vem tudo isto a propósito da minha ida a Tires esta semana. Tratava-se de celebrar o Dia da Mulher na cadeia e fui a pedido de um conjunto de professoras e reclusas que frequentam o Curso de Eventos neste Estabelecimento Prisional. Estava um dia de céu azul, limpo, e sol luminoso, um destes dias que anunciam a Primavera e apetece viver intensamente.
Passei o primeiro portão de ferro da entrada e fui pelo caminho de asfalto até ao pavilhão do fundo acompanhada pelas professoras que me iam mostrando os lugares e explicando a natureza e função de cada pavilhão. À minha direita a célebre creche-escola para os filhos das reclusas (neste momento é frequentado por 22 crianças), à minha esquerda a casa das que vivem num regime semi-aberto, mais à frente a casa onde se juntam as famílias de mulheres que se cruzam na prisão a cumprir penas ao mesmo tempo (desta vez conheci uma mãe e uma filha mas há sempre por ali mães, filhas, avós, netas, primas, tias e mulheres ligadas por laços de família), do outro lado um edifício antigo que já não me lembro para que serve nem quem acolhe e ao fundo, muito ao fundo, um pavilhão onde há homens que cumprem penas específicas que agora também não recordo porque no momento aquilo que mais prendeu a minha atenção foi a creche-escola e a tal casa das mulheres que vivem em família.
Absorvi as explicações que me iam dando à medida que íamos caminhando em frente debaixo daquele sol luminoso, sempre com as interrogações de fundo que tenho nas alturas em que estou do lado de lá das grades. Ouvi em silêncio e com a naturalidade possível o que me contavam sobre as reclusas mas o eco que estas conversas têm em mim enche-me fatalmente de tristeza e de pensamentos impossíveis de gerir no momento.
Para não entrar na sala de lágrimas nos olhos invento perguntas banais e mantenho a conversa a um nível aceitável. Acontece-me o mesmo quando visito centros de acolhimento de crianças maltratadas e também me acontece chorar por dentro quando saio da Unidade de Cuidados Paliativos onde faço voluntariado, e onde o sofrimento dos doentes e das suas famílias me interpela e toca em fibras mais sensíveis.
Na sala havia uma roda enorme de cadeiras dispostas em três ou quatro filas e uma mesa de frente para elas com uma cadeira onde eu deveria ficar sentada. As reclusas entram depois de mim e ficam de pé. Sentamo-nos todas mas, logo a seguir eu levanto-me porque gosto de ver os olhos das pessoas com quem falo. E peço-lhes que se apresentem, que digam o nome e a idade e se têm filhos. E elas dizem e eu fixo-as uma por uma e guardo o nome de cada uma. Depois, falamos sobre mil e um temas, elas fazem perguntas e eu respondo. Rimos de coisa nenhuma mas também somos capazes de ficar em silêncio porque alguém disse alguma coisa que nos faz pensar ou ficar a remoer.
Acabamos sempre aos abraços e esta certeza de nos podermos abraçar e de nos podermos tratar pelo nome próprio enche-nos de outras certezas.
Maria Irene
No meio do grupo de reclusas de Tires havia uma que já tinha conhecido em Leiria, numa outra visita recente. Há cerca de um ano fui lá para um encontro semelhante ao desta semana e a conversa foi igualmente calorosa e marcante. Maria Irene ou apenas Irene para quem a conhece bem, estava lá e foi das que mais falou. Gosta de escrever e de ler e, na altura, falámos de livros, leituras e escritas.
O grupo de Leiria era um grupo de ‘preventivas’ e, por isso, ao fim de algum tempo cada uma destas mulheres é julgada e mandada em liberdade ou condenada e enviada para outro estabelecimento prisional. Irene veio parar a Tires e eu não estava à espera de a encontrar mas quando nos vimos foi um verdadeiro reencontro. Uma surpresa feliz se é que assim posso falar, dada a infelicidade das circunstâncias que a fazem estar ali.
Demos um longo abraço e pusemos a conversa em dia. Perguntei-lhe pelas outras reclusas, pela Delmina, pela outra Laurinda, pelas irmãs de etnia cigana, por todas as que estiveram presentes na tarde de chuva diluviana em Leiria. E ela respondeu e esclareceu que uma estava ali outra acolá e disse-me inclusivamente que a carta da Delmina que eu recebi depois da minha visita, tinha sido escrita pela sua própria mão, pois a Delmina tem dificuldades em escrever.
No fim da tarde de conversa em Tires, Irene ofereceu-me um presente. Um texto escrito ali por ela e lido em alto perante a plateia de mulheres com quem passei a tarde. O texto comoveu-me e o gesto também. Irene leu devagar, com voz alegre e sincera mas também comovida. Agradeci sem palavras porque as palavras de Irene calaram muito fundo.
“Muito obrigada por nos ter trazido histórias de vida, de luta e de coragem e, com muito carinho, nos fazer sentir que somos Mulheres privadas de liberdade, mas com dignidade, valores e ambições. Deixou-nos a todas uma lufada de ar fresco, um recarregar de baterias para seguirmos em frente e…mostrarmos à sociedade que somos mulheres dignas e de coragem.” Obrigada, eu, Irene!
De Marcolino a 15 de Março de 2009 às 02:02
Olá, Laurinda!
Obrigada, eu, Laurinta!
Marcolino
De vera a 15 de Março de 2009 às 14:49
Li o seu post e acho que não é bem como escreve. Quem mata, assalta, rouba, burla, e está preso, pode ter tido uma vida difícil mas há outros que também a tiveram e não fazem isso. A teoria da vitimização de quem está preso é injusta para as suas vítimas. É certo que os maiores criminosos nunca sãp apanhados e a nossa justiça não funciona (de todo) mas não exageremos.
Ontem a minha filha foi ameaçada com arma branca ao pescoço para lhe roubarem o telemóvel e eu gostaria muitíssimo que quem o fez fosse preso. Mas não vai ser e, se o for, liberta-no logo a seguir por causa dos seus imensos direitos. De certeza que o ladrão tem uma vida triste, mas outros a têm e não fazem o mesmo, e enquanto se lhes desculpar o que fazem por serem "seres muito dignos" não vamos mudar nada.
Digno é quem não usa o próximo em seu proveito apesar das dificuldades que atravessa. Quem está ferido e magoado não tem necessariamente que fazer o mesmo. Muitos não o fazem. Esses é que merecem a nossa admiração.
De De Passagem a 15 de Março de 2009 às 23:50
Do lado de lá da Barricada dos Socialmente Incorrectos existem Códigos de Honra tão fortes quanto os daqueles do lado de cá da Barricada dos socialmente Correctos.
De Augusto Küttner de Magalhães a 16 de Março de 2009 às 12:06
Acho adequada esta intervenção. Há uns anos, talvez 15 ou mais anos, agrediram o meu filho - um grupo de 4 - num autocarro e nada aconteceu!! E nessa altura também foi depois assaltado!!! Penso que o que está a faltar e muito, é mais proximidade e - desculpem - empenho das POLICIAS! Não necessriamente para prender, mas para evitar e se há uns 2 , 3 anos , achava que a Policia pouco podia fazer, hoje acho que pode e mais, se estiver nos locais, se não passar tão rapidamente de viatura, mas parar aqui e ali, estar mais empenhada !!! evitar, precaver! Estar !!!Estar mais!!! Ali!!!
De Lina Matos a 17 de Março de 2009 às 11:16
Desculpem lá por eu vir intervir na vossa reacção à crónica da Laurinda mas parece-me que a estão a analisar em planos diferentes. Eu fui visitadora e por isso vivi "no terreno" essa realidade. É um facto que quem está preso não é por se ter comportado bem, claro! Mas cada uma das reclusas é um ser humano igual a nós com todos os mundos interiores que nos habitam. Eu pensava sempre que também temos as nossas prisões, por medos, por feridas, por melindres. Cá fora gostamos de ser aceites na nossa totalidade. Era o que eu fazia quando estava com elas. Chorava com as que tinham feito os crimes mais graves (homicídio) pois era nessas que eu via a debilidade que as tinha levado a esses actos
De vera a 18 de Março de 2009 às 17:37
Os seres humanos são iguais a nós quando nos respeitam da maneira que gostam de ser respeitados. A humanidade distingue-se exactamente por isso: pelo respeito ao próximo, pelo reconhecimento dos erros. Se insistem na vitimização nunca reconhecem a responsabilidade pelo que fazem, e nunca passam ao arrependimento e eventual mudança de comportamento. Os mundos que habitam quem rouba uma adolescente com uma faca encostada ao pescoço não são mais respeitosos do que o mundo de quem foi agredido assim e depois não dorme dias seguidos...São um bocadinho menos.
De Lina Matos a 19 de Março de 2009 às 07:52
Desculpe Vera, eu insistir. Porque compreendo perfeitamente a sua posição e estou em concordância consigo, continuo a dar o meu testemunho e a lançar mais duas questões.
As pessoas que nos faltam ao respeito "encostando-nos facas ao pescoço" e que nunca reconhecem esses erros têm mundos mais pequenos? Essas nunca irão presas e não é a sabermos perdoá-las que lhes damos possibilidades de se tornarem "grandes"?
Comentar post