É segunda-feira do meio de Julho e chove uma chuva triste que molha as ruas e suja os pés. O dia escureceu mal amanheceu e a sombra pesada das nuvens pesa no peito. Não apetece a asfixia daquele céu encoberto e, muito menos, a chuva neste Verão.
A estrada torna-se um risco maior porque não se vê a linha do horizonte e há carros estampados na berma, ainda com o motor ligado.
Ao fim da manhã e de mais de uma centena de quilómetros percorridos mais devagar do que é costume, continua a fazer frio.
Em Leiria esperam por mim na porta central de um centro comercial. Chego à hora combinada e depois das apresentações e cumprimentos vamos uns atrás dos outros, de carro, até à porta da prisão que aparece depois de várias curvas desenhadas na terra ao longo de uma encosta de vinha verde, crescida e bem cuidada.
A entrada para a prisão faz-se através de um pequeno túnel, com portões de ferro dos dois lados e guardas atentos. A certeza, para quem chega, é que existe um mundo antes e um mundo depois daquele túnel e daqueles portões.
Imediatamente a seguir há uma alameda de cedros antigos que permite respirar fundo e entrar verdadeiramente naquele mundo.
O estabelecimento prisional de Leiria é uma das raras prisões que existem na Europa para rapazes muito novos. A maioria tem entre 16 e 21 anos e a ideia de não os misturar com reclusos mais velhos é impedir que a cadeia seja mais uma escola de crime.
Em todo o caso e porque apesar de serem muito novos, alguns já cumprem penas muito pesadas, há quem fique até ao fim e saia quando já tem perto de 30 anos.
Ao todo há ali 300 rapazes. Uns trabalham, outros estudam e alguns não fazem nada porque não é obrigatório trabalhar nem estudar.
Carla Pragosa, uma das psicólogas deste estabelecimento prisional, pediu-me para ir lá uma tarde falar com eles mas para não obrigar ninguém a assistir, abriu inscrições. Inscreveram-se cerca de 50 e encheram completamente a sala onde passámos a tarde.
Não é a primeira vez (nem foi a última, tenho a certeza) que visito presos em prisões.
Já estive em várias e conheço, até, Vale de Judeus, a cadeia de alta segurança onde se cumprem ‘perpétuas’ e as penas mais pesadas de todas. Não posso dizer que estou habituada mas também não posso dizer que é uma novidade passar um dia na prisão.
Sei, no entanto, que é e será sempre uma experiência poderosa e transformadora para mim. Como se fosse um filme filmado em câmara lenta em que a sucessão de cenas, de diálogos e silêncios ficam indelevelmente gravados na memória e no coração.
Os presos ficam sempre muito próximos, numa espécie de círculo à minha volta, para podermos falar uns com os outros e olhar nos olhos. Desta vez a distância era ainda menor e essa proximidade trouxe uma enorme cumplicidade.
Ao princípio não falaram, apenas ouviram. Mais ou menos curiosos, iam olhando de lado e se o meu olhar cruzava o deles, baixavam a cabeça como se fossem tímidos. Depois foram descontraindo e alguns começaram a dizem piadas para o lado. Em pouco tempo todos riam às gargalhadas. Eles e eu.
A conversa prolongou-se muito para além do que era esperado. Olhando para eles e vendo-os tão novos, tão alegres, atentos e divertidos quase me esqueci que usavam todos a mesma farda azul-escuro e estão ali quase todos por terem crescido no lado errado da vida.