Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008
O tempo, esse supremo luxo moderno

Pediram-me que escrevesse sobre luxos modernos para a edição especial da revista Pública que saiu no domingo passado. Depois de pensar no desafio decidi escrever sobre o tempo que é, para mim, o maior de todos os luxos. Deixo aqui a sucessão de pequenos textos que sairam na revista há dois dias. São histórias verdadeiras.

 

 

O TEMPO E OUTROS LUXOS QUE O DINHEIRO NÃO COMPRA
 
- Penso em ti uma vez por dia: de manhã à noite!
Ri com os olhos, inclina a cabeça ligeiramente para o lado, abre os braços e estica-os muito para a abraçar com mais força. Diz-lhe esta e outras coisas sem hesitar. Tem ar de rapaz e gestos de homem feliz.
- Há anos que eu tinha saudades tuas!
Ela ouve-o e ri com ele. Deixa-se abraçar e levar. Caminham devagar e de vez em quando param na rua para se abraçar. Voltam a andar e mais adiante tornam a parar. Ele segura-a pelos ombros e levanta-lhe o cabelo com as mãos para lhe dar um beijo no pescoço. E mais um abraço demorado.
Vão pelo passeio, alheios a quem se cruza com eles. O tempo ficou lá atrás, parado, suspenso, num compasso impossível de medir. Nunca saberão ao certo que horas eram naquela tarde mas talvez fixem a data porque há dias importantes que apetece reviver. Desaparecem na esquina ao fundo e não os voltamos a ver.
                
                                                           
                                                                      *
 
- Que horas são?
- Passa das duas da tarde.
- Onde é que estou?
- No hospital.
- Desde quando?
- Há quase um mês.
O silêncio pesa no quarto. Ele fecha os olhos devagar e faz um esforço mas não consegue lembrar-se dos dias. Um mês inteiro?
- Quando chegou dizia coisas incompreensíveis, delirava. Deu-me a mão e perguntou o meu nome. Falava uma língua estranha.
- Não me lembro de nada. Não me lembro do tempo. Como se chama?
- Olívia. Em que país nasceu?
- Na Grécia, em Ia.
- O seu navio ficou em mau estado mas não afundou. Salvaram-nos a tempo, a si e ao barco. Há quantos meses estava no mar?
- Não sei, não me lembro. Deixe-me ver as suas mãos.
A enfermeira estendeu a mão direita e ele segurou-a com solenidade. Olhou para as linhas em silêncio, alisando a pele com cerimónia e devoção.
- Ensinaram-me a ler as mãos na Índia mas agora estou cansado demais, não consigo distinguir as linhas mais fundas. Os meus olhos estão pesados.
Calou-se e ficou de olhar fixo no vazio branco da parede em frente. Ela retirou a mão, compôs a manga junto ao pulso e olhou através da janela. Ficou à espera que ele dissesse alguma coisa mas ele adormeceu outra vez. Quando acordou tinham passado mais dois dias. Ela permanecia à cabeceira e ele voltou a perguntar pelas horas. E pelos meses.
O hospital foi o tempo sem tempo que lhes mudou a vida para sempre. Nas linhas da mão da enfermeira Olívia afinal estava escrito que iam casar e ter três filhos. Casaram, os três filhos nasceram na Grécia, mais tarde vieram todos de barco para Portugal e muitos anos depois ela morreu com o marido velhinho à cabeceira. Sessenta anos foi o tempo que durou o casamento. A enfermeira Olívia morreu e um mês depois morreu o marido. Dizem que foi por amor.
 
(nota: esta história é a mesma que eu comecei por contar aqui há umas semanas)  
                                                                     
                                                                  *
 
Filho de pai e mãe médicos, quando era criança usava a casinha das bonecas do colégio para dar consultas e explicar aos amigos porque é que o chi-chi é amarelo. Também sabia dar injecções e falar sobre doenças. Os colegas da aula ouviam-no com atenção e decoravam as palavras que usava com grande eloquência. Achavam sinceramente que se calhar ele também era médico. Isto, apesar de ainda nem ter seis anos. Nestas idades acreditamos sinceramente em muitas coisas e até no Pai Natal.
Um dia perguntaram-lhe o que queria ser quando fosse grande e ele respondeu muito alto e muito depressa:
- Cientista genético, para clonar a minha avó!
A avó sorriu quando lhe contaram a ambição deste neto. Tem outros, que ainda não descobriram o que querem ser quando forem grandes, mas tal como o primo-médico também sabem que o tempo que passam juntos é o melhor tempo do mundo.
 
                                                                  
                                                                    *
 
- Nasci numa ilha, num país periférico, e queria muito ter uma experiência metropolitana. Precisava de conhecer a metrópole, de a viver e sentir, para ter bom material para a minha escrita. Queria ser escritor e ter uma personalidade e uma vivência adequadas. Para mim todos os grandes escritores tinham personalidades de escritor. Pensava em Somerset Maugham ou em Aldous Huxley e achava que nunca na minha vida ia conseguir ter uma personalidade como a deles. E histórias para contar como eles tinham.
O escritor fala dos seus 16 anos, de um tempo de ambição e dúvida, de certezas e perplexidades, de medos e sonhos sem fronteiras. Agora tem 76 e a vida que viveu e tudo o que escreveu fala por si. Tanto, que ele poupa nas palavras ditas. É escasso na retórica e, por isso, pouco discursivo. Prefere ler do que falar. E escrever, claro.
Talvez V.S. Naipaul seja como Nabokov quando dizia “fui sempre um orador desgraçado. O meu vocabulário habita nas profundezas do meu espírito e precisa do papel para se soltar e ascender à zona física. A eloquência espontânea sempre me pareceu um milagre”. Talvez. Não sei, não lhe perguntei. Limitei-me a ouvi-lo falar, ou melhor a ouvi-lo ler o que contava sobre a sua adolescência e os anos que antecederam a sua grande viagem para a Metrópole. De Trinidad para Londres.
Na metrópole V.S. Naipaul descobriu pessoas e histórias e cartografou a alma humana. As vidas dos estranhos interessaram-lhe tanto que passou a sua própria vida a biografá-los. Afinal não era como aqueles grandes escritores de grandes romances e tremendas ficções que admirava na juventude. Era diferente, tinha fascínio por outras coisas e desenhou uma geografia própria. Demorou décadas a apurar o estilo e a emendar a mão mas valeu a pena a demanda por essa complexa substância metropolitana. Ganhar prémios e muito dinheiro foi importante para ele? Foi. Ou talvez não, não tem bem a certeza. A memória sim, é importante para ele. E as vidas dos outros e as camadas de tempo sobre o tempo.
         
                                                               
                                                                    *
 
- Chegámos a Moçambique em vésperas de Natal, as noites são muito quentes e os dias ardentes. No chão das ruas há uma poeira bíblica e dos poucos metros de asfalto que sobram nas estradas desprendem-se ondas de calor que fazem mexer o horizonte ao longe. O ar perdeu a transparência e sente-se um sufoco permanente. Vivemos de madrugada e depois recolhemo-nos e esperamos pelo entardecer. Os dias são compridos e muito preenchidos porque falta quase tudo neste lugar. Quando estamos em casa ligamos a ventoinha preguiçosa de pás enormes que demora a arrancar e roda muito devagar, fazendo ranger a madeira do tecto. Parece um interminável lamento, um queixume antigo, mas já estamos habituados. Aqui em Matacuane, na Beira, a nossa casa fica mesmo em frente da Igreja Paroquial e está colada a uma das ruas mais movimentadas da cidade. Somos vizinhos do “corredor” que é realmente um corredor estreito por onde se estendem incontáveis bares onde os moçambicanos acabam os seus dias. E as suas noites. Nós adormecemos embalados pelo som dos carros e camiões que passam por baixo da nossa janela e, sem querer, acabamos por tomar parte nas conversas dos homens e mulheres que se juntam nos bares até ser madrugada. Viemos em missão e vamos ficar um ou dois anos, depende. Temos tempo. No domingo passado uma senhora na missa veio ter connosco e fez-nos uma pergunta maravilhosamente simples:
- Ainda têm sonhos de lá ou já sonham com as coisas de cá?

 

P.S.: A fotografia do mar neste enquadramento simbólico do tempo é da Mariana Sabido. 

 

publicado por Laurinda Alves às 08:55
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Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008
Muito obrigada a todos!

 

Antes que o 'meu' dia acabe deixo aqui mais duas imagens

particularmente queridas para agradecer a todos (e a cada

um!) as mensagens que me escreveram. Muito obrigada.

Adorei ter tantas visitas e coments neste dia feliz!

 

 

Foi a Mariana Sabido que fotografou os abraços e beijinhos

da Catarina e da Luizinha. As imagens da intimidade entre tia

e sobrinha que vivem abaçadas e se adoram, são adoráveis!

 

publicado por Laurinda Alves às 22:50
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Hoje faço 47 anos e estou muito feliz!

 

Hoje é o meu dia de anos e comecei a celebrá-lo à meia-noite

com amigos queridos do meu círculo mais íntimo. Adoro fazer

anos e não me ralo nada com a idade. Muito pelo contrário!...

 

 

Estas fotografias foram tiradas no dia em que fizemos uma

sessão com a Mariana Sabido e como hoje recebi os albuns

de família não resisto a publicar aqui quatro imagens que me

enchem de gratidão por tanto amor, tanta tanta alegria e tanta

cumplicidade que existe nesta família. Obrigada Mãe pela luz

incrível com que ilumina as nossas vidas. Obrigada Pai pelo

exemplo de generosidade e pela grandeza do seu coração.

 

  

 

Aos 47 anos, com tanta vida vivida e tanto caminho andado

é impossível não reconhecer o cúmulo de felicidade que é

ter os pais vivos e de saúde, os irmãos idem, as cunhadas

e sobrinhos também. Que maravilha. Gostava de merecer!

 

 

O melhor presente de anos que recebi hoje? Uma bicicleta

espectacular, toda preta, linda. Era tudo o que eu queria mas

nem sonhava que a ia ter. Amei a surpresa e a maneira como

ela apareceu cá em casa. Obrigada J. pelo gesto de amor.

 

publicado por Laurinda Alves às 03:26
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