Nestes dias de sol o entardecer é um momento sagrado em
que o horizonte se incendeia e tudo parece arder entre o céu
e a terra. Fico calada, voltada para este poente, e só consigo
falar quando já não há luz ao fundo. Gosto do silêncio destes
momentos e faço deles a minha oração de gratidão por tudo
e tanto que me é dado viver. Pela proximidade dos que amo,
pela saúde que temos, pelos laços que nos unem, por não
ter perdido nestes últimos tempos mais ninguém importante,
por continuar inteira na vida apesar de tantas perdas lá atrás,
tantos fracassos, tantas crises, tantas coisas tão difíceis que
foram acontecendo. Amanhã é Natal e tenho a imensa sorte
de o poder viver em família, com alegria e saúde. Se insisto
na saúde é justamente por ter à minha volta e no 'meu' serviço
de Cuidados Paliativos tanta gente em sofrimento. Mesmo que
a dor física esteja controlada, existe sofrimento emocional e dor
moral provocada pelas circunstâncias da doença. É difícil estar
no hospital em qualquer altura mas especialmente se é Natal...
Deixo aqui o meu postal de Natal e os votos mais que sinceros
de Festas o mais felizes possível para os que por aqui passam.
Moro perto do rio e ouço as gaivotas todos os dias. Antes de
morar nesta casa não tinha este som tão presente e quando
mudámos lembro-me de ficar horas a fio de janelas abertas
a vê-las voar rente aos telhados, a ir e voltar, a pousarem no
alto das janelas mais altas, de varandas de ferro forjado por
mãos antigas. Uma beleza, este movimento perpétuo e este
som de asas a bater e a cortar o vento, misturado pelos gritos
de reconhecimento com que elas 'falam' umas com as outras.
Ontem à tarde passei no Cais das Colunas e reparei na nuvem
de gaivotas que voavam muito baixo, como que a picar o rio e as
pedras onde acabam por pousar por alguns segundos. Parei para
ver e filmar um breve fragmento desta dança acelerada, desta espécie
de mímica de um bando de pássaros agitados que parecem frenéticos.
Agradeço os comentários ao post anterior e agradeço particularmente a citação do 1º dia do ano. Retomo a frase inicial dos parágrafos que citei para sublinhar que "cada um vê aquilo que espera". E não há volta a dar.
Este é o título do novo livro de Vasco Pinto de Magalhães, editado pela Tenacitas. Ainda não o tenho porque foi lançado esta semana mas o título acompanha-me desde que o próprio pe Vasco me falou deste seu novo livro. É mais uma colecção de pensamentos para ler ao longo do ano. 365 pensamentos construtivos, 365 ideias para pormos a vida em perspectiva e para percebermos por onde entra o ânimo e o desânimo. Como ainda não tenho o novo livro, deixo aqui hoje um dos pensamentos do livro 'antigo', que está sempre esgotado nas livrarias mas também vale a pena encomendar para ter à cabeceira.
Cada um vê aquilo que espera. Parece estranha esta afirmação. Vemos o que esperamos! É assim. Se o que espero são desgraças, só vejo desgraças e tudo me parece já mal. Mas se o que espero (e sei que vem) é o Bem, tudo já são sinais desse bem. É isso que me purifica o olhar e me liberta de fantasmas. Quem sabe que o Bem vem, já vê o bem a vir. Vê com bons olhos, mesmo no meio do nevoeiro. (in Não Há Soluções, Há Caminhos, ed. Tenacitas)
A três dias do Natal a luz de Lisboa é incrivelmente azul-clara,
transparente. Adoro esta cidade e adoro estes dias de luz em
que podemos almoçar junto ao rio, em restaurantes de vidro,
a dar para a ponte e o Cristo-Rei de braços abertos para nós.
Hoje foi o primeiro dia de Lisboa para grandes amigos que
moram longe há um ano. Voltaram a esta cidade neste dia
de cinema depois de 3 meses chatos de chuva incessante.
Que bom terem voltado! E que bom podermos estar juntos.
Mais uma manhã luminosa de sol, céu azul e rio cintilante.
É impossível ficar em casa com dias assim. Fomos andar
de bicicleta pela beira-rio, pelo Chiado e pela Baixa, onde
nesta altura do ano há imensa gente e muita animação...
Os Jogos da Santa Casa da Misericórdia promovem acções
de rua com banda de música, malabaristas, personagens de
filme e homens em andas altas, a pé e em bicicletas gigantes.
É giro andar por ali de bicicleta e acompanhar esta parada que
parece meio-circo, meio-filme. Havia um rato gigante que fingia
engolir espadas e matar pessoas. Enquanto eu filmava o desfile
dos homens de andas altíssimas aos saltos, ele sentou-se atrás
na minha bicicleta com a sua espada para me 'atacar' e a fotografia
do instante divertido é a que se segue. É sempre cómico o improviso...
Quem não assistiu a nada disto foi o Stitch, o salsicha que foi
connosco pela sua pata até ao Terreiro do Paço mas depois
teve que ficar atado a uma barraca de farturas porque está a
ficar velho demais para aguentar tantas andanças e não só.
No meio das ruas da Baixa e de tanto movimento podia ser
atropelado e por isso ficou ali atado a uma corda. Coitado...
Faz um bocado de pena deixá-lo para trás mas também tem
graça ver o ar digno com que se despede, de nariz ao alto e
sem dar parte de fraco. Foi só meia-hora e agora já passou.
São duas e meia da manhã, está um frio de rachar e vim a
correr para casa porque não aguentei mais o vento gelado
da noite. Eu vim embora mas eles ficaram todos.Valentes!
Eles todos são três em cadeiras de rodas, mais o staff de uma
campanha organizada pela Associação Salvador, de prevenção
de acidentes rodoviários. A ideia de ir pela noite dar testemunho
a quem sai para bares e discotecas onde muitas vezes se bebe
demais foi do Salvador, que sabe por experiência própria o valor
dos conselhos que dá aos outros. Ficou tetraplégico por causa
de um acidente de mota numa noite de saídas e copos, e nunca
se esquece de nos lembrar que estas coisas não acontecem só
aos outros. Ontem e hoje, ele e o Carlos e o Helder andaram de
bar em bar pelo Bairro Alto a dar balões com mensagens úteis.
A campanha é original, inédita e radical. Nunca ninguém se
tinha lembrado de uma iniciativa destas e, daí, o interesse
das televisões em acompanhar três amigos em cadeira de
rodas que ficaram assim depois de terem tido acidentes de
carro ou mota. O testemunho de cada um vale por mil e mil
palavras que se possam dizer ou escrever. Mais: o facto de
darem do seu tempo aos outros e de andarem ao frio pela
noite de Lisboa a passar mensagens construtivas, sem ter
a tentação de moralizar, mas apenas com o objectivo de dar
bons conselhos que funcionam como alerta, é extraordinário.
Estes são alguns dos amigos e voluntários que andam com
eles pela noite. Gravei pequenas entrevistas com o Salvador,
o Helder e o Carlos que amanhã publico aqui ao princípio da
tarde pois o upload demora sempre mais do que eu gostaria.
As mensagens escritas nos cartões e autocolantes dos balões
são muito claras e objectivas: "Faz as figuras que quiseres mas
não pegues no carro se tiveres bebido; gasta dinheiro em Táxis;
fica em casa de uma amiga; faz a festa toda mas não pegues no
carro". Muito boa a ideia e muito corajosa a abordagem. Parabéns!
Nota final: como as entrevistas ficaram muito escuras deixo aqui apenas
a do Helder. Com imensa pena porque cada um deles dizia coisas muito
importantes e complementares. Na minha máquina as caras viam-se bem
mas depois do upload e de importar para aqui os filmes, a coisa ficou pior.
A Mena, sobre quem escrevi uma crónica há duas semanas,
recebeu ontem o melhor presente de Natal que alguma vez
teve. Estavamos em casa quando uma das suas irmãs tocou
à porta para a Mena descer. Ela desceu e voltou pouco depois
com um embrulho debaixo do braço que abriu mal chegou.
O presente era o retrato do pai dela, fotografado no dia do seu
casamento. Chamava-se Francisco e faria 100 anos este ano.
Comoveu-me vê-la tão comovida com o presente. Percebo-a e
sei a falta que lhe fazem os pais. Pedi-lhe autorização para fazer
estas fotos para o blog e ela disse que sim, que era um orgulho
mostrar a fotografia do seu querido Pai. Aqui ficam: ela com ele.
Ontem foi um dia radicalmente marcante para os melómanos em geral e para os amantes de piano em particular. E para os fãs de Alfred Brendel, que o ouvem com fervor e devoção por conhecerem a pureza da sua interpretação dos grandes Mestres da composição. Ontem Brendel despediu-se para sempre do público num concerto em Viena, onde as pessoas o aplaudiram de pé durante 20 minutos seguidos. Hoje deixo aqui um dos vídeos de Brendel que podemos ir buscar ao YouTube. Gosto muito desta peça de Schubert e gosto muito de ouvir Alfred Brendel tocá-la.

(Imagem de uma campanha recente feita no Brasil
. MUITO OBRIGADA A TODOS PE...
. CURSOS DE COMUNICAÇÃO NO ...
. Curso de Comunicação adia...
. Se tiver quorum ainda dou...
. O BENTO E A CARMO HOJE EM...
. HOJE NO PORTO: SOBREVIVER...
. MÃES QUE NÃO CHEGAM A VER...
. Alegria!