Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008
O meu postal de Bom Natal deste ano

 

Nestes dias de sol o entardecer é um momento sagrado em

que o horizonte se incendeia e tudo parece arder entre o céu

e a terra. Fico calada, voltada para este poente, e só consigo

falar quando já não há luz ao fundo. Gosto do silêncio destes

momentos e faço deles a minha oração de gratidão por tudo

e tanto que me é dado viver. Pela proximidade dos que amo,

pela saúde que temos, pelos laços que nos unem, por não

ter perdido nestes últimos tempos mais ninguém importante,

por continuar inteira na vida apesar de tantas perdas lá atrás,

tantos fracassos, tantas crises, tantas coisas tão difíceis que

foram acontecendo. Amanhã é Natal e tenho a imensa sorte

de o poder viver em família, com alegria e saúde. Se insisto

na saúde é justamente por ter à minha volta e no 'meu' serviço

de Cuidados Paliativos tanta gente em sofrimento. Mesmo que

a dor física esteja controlada, existe sofrimento emocional e dor

moral provocada pelas circunstâncias da doença. É difícil estar

no hospital em qualquer altura mas especialmente se é Natal...

Deixo aqui o meu postal de Natal e os votos mais que sinceros

de Festas o mais felizes possível para os que por aqui passam.

 

publicado por Laurinda Alves às 18:30
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O voo dos pássaros sobre o rio

 

Moro perto do rio e ouço as gaivotas todos os dias. Antes de

morar nesta casa não tinha este som tão presente e quando

mudámos lembro-me de ficar horas a fio de janelas abertas

a vê-las voar rente aos telhados, a ir e voltar, a pousarem no

alto das janelas mais altas, de varandas de ferro forjado por

mãos antigas. Uma beleza, este movimento perpétuo e este

som de asas a bater e a cortar o vento, misturado pelos gritos

de reconhecimento com que elas 'falam' umas com as outras.

Ontem à tarde passei no Cais das Colunas e reparei na nuvem

de gaivotas que voavam muito baixo, como que a picar o rio e as 

pedras  onde acabam por pousar por alguns segundos. Parei para

ver e filmar um breve fragmento desta dança acelerada, desta espécie

de mímica de um bando de pássaros agitados que parecem frenéticos.

 

publicado por Laurinda Alves às 10:26
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Cada um vê aquilo que espera

Agradeço os comentários ao post anterior e agradeço particularmente a citação do 1º dia do ano. Retomo a frase inicial dos parágrafos que citei para sublinhar que "cada um vê aquilo que espera". E não há volta a dar.

publicado por Laurinda Alves às 02:41
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Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008
Onde há crise, há esperança!

Este é o título do novo livro de Vasco Pinto de Magalhães, editado pela Tenacitas. Ainda não o tenho porque foi lançado esta semana mas o título acompanha-me desde que o próprio pe Vasco me falou deste seu novo livro. É mais uma colecção de pensamentos para ler ao longo do ano. 365 pensamentos construtivos, 365 ideias para pormos a vida em perspectiva e para percebermos por onde entra o ânimo e o desânimo. Como ainda não tenho o novo livro, deixo aqui hoje um dos pensamentos do livro 'antigo', que está sempre esgotado nas livrarias mas também vale a pena encomendar para ter à cabeceira.

 

Cada um vê aquilo que espera. Parece estranha esta afirmação. Vemos o que esperamos! É assim. Se o que espero são desgraças, só vejo desgraças e tudo me parece já mal. Mas se o que espero (e sei que vem) é o Bem, tudo já são sinais desse bem. É isso que me purifica o olhar e me liberta de fantasmas. Quem sabe que o Bem vem, já vê o bem a vir. Vê com bons olhos, mesmo no meio do nevoeiro. (in Não Há Soluções, Há Caminhos, ed. Tenacitas)

publicado por Laurinda Alves às 10:08
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Domingo, 21 de Dezembro de 2008
Horizonte líquido azul-Natal

 

A três dias do Natal a luz de Lisboa é incrivelmente azul-clara,

transparente. Adoro esta cidade e adoro estes dias de luz em

que podemos almoçar junto ao rio, em restaurantes de vidro,

a dar para a ponte e o Cristo-Rei de braços abertos para nós.

 

 

Hoje foi o primeiro dia de Lisboa para grandes amigos que

moram longe há um ano. Voltaram a esta cidade neste dia

de cinema depois de 3 meses chatos de chuva incessante.

Que bom terem voltado! E que bom podermos estar juntos.

 

publicado por Laurinda Alves às 17:30
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Mais um destes dias de maravilha!

 

Mais uma manhã luminosa de sol, céu azul e rio cintilante.

É impossível ficar em casa com dias assim. Fomos andar

de bicicleta pela beira-rio, pelo Chiado e pela Baixa, onde

nesta altura do ano há imensa gente e muita animação...

 

 

Os Jogos da Santa Casa da Misericórdia promovem acções

de rua com banda de música, malabaristas, personagens de

filme e homens em andas altas, a pé e em bicicletas gigantes.

 

 

É giro andar por ali de bicicleta e acompanhar esta parada que

parece meio-circo, meio-filme. Havia um rato gigante que fingia

engolir espadas e matar pessoas. Enquanto eu filmava o desfile

dos homens de andas altíssimas aos saltos, ele sentou-se atrás

na minha bicicleta com a sua espada para me 'atacar' e a fotografia

do instante divertido é a que se segue. É sempre cómico o improviso...

 

 

Quem não assistiu a nada disto foi o Stitch, o salsicha que foi

connosco pela sua pata até ao Terreiro do Paço mas depois

teve que ficar atado a uma barraca de farturas porque está a

ficar velho demais para aguentar tantas andanças e não só.

No meio das ruas da Baixa e de tanto movimento podia ser

atropelado e por isso ficou ali atado a uma corda. Coitado...

 

 

Faz um bocado de pena deixá-lo para trás mas também tem

graça ver o ar digno com que se despede, de nariz ao alto e

sem dar parte de fraco. Foi só meia-hora e agora já passou.

 

publicado por Laurinda Alves às 13:11
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Faz as figuras que quiseres mas...

 

São duas e meia da manhã, está um frio de rachar e vim a

correr para casa porque não aguentei mais o vento gelado

da noite. Eu vim embora mas eles ficaram todos.Valentes!

 

 

Eles todos são três em cadeiras de rodas, mais o staff de uma

campanha organizada pela Associação Salvador, de prevenção

de acidentes rodoviários. A ideia de ir pela noite dar testemunho

a quem sai para bares e discotecas onde muitas vezes se bebe

demais foi do Salvador, que sabe por experiência própria o valor

dos conselhos que dá aos outros. Ficou tetraplégico por causa

de um acidente de mota numa noite de saídas e copos, e nunca

se esquece de nos lembrar que estas coisas não acontecem só

aos outros. Ontem e hoje, ele e o Carlos e o Helder andaram de

bar em bar pelo Bairro Alto a dar balões com mensagens úteis.

 

 

A campanha é original, inédita e radical. Nunca ninguém se

tinha lembrado de uma iniciativa destas e, daí, o interesse

das televisões em acompanhar três amigos em cadeira de

rodas que ficaram assim depois de terem tido acidentes de

carro ou mota. O testemunho de cada um vale por mil e mil

palavras que se possam dizer ou escrever. Mais: o facto de

darem do seu tempo aos outros e de andarem ao frio pela

noite de Lisboa a passar mensagens construtivas, sem ter

a tentação de moralizar, mas apenas com o objectivo de dar

bons conselhos que funcionam como alerta, é extraordinário.

 

 

Estes são alguns dos amigos e voluntários que andam com

eles pela noite. Gravei pequenas entrevistas com o Salvador,

o Helder e o Carlos que amanhã publico aqui ao princípio da

tarde pois o upload demora sempre mais do que eu gostaria.

As mensagens escritas nos cartões e autocolantes dos balões

são muito claras e objectivas: "Faz as figuras que quiseres mas

não pegues no carro se tiveres bebido; gasta dinheiro em Táxis;

fica em casa de uma amiga; faz a festa toda mas não pegues no

carro". Muito boa a ideia e muito corajosa a abordagem. Parabéns!

 

 

Nota final: como as entrevistas ficaram muito escuras deixo aqui apenas

a do Helder. Com imensa pena porque cada um deles dizia coisas muito

importantes e complementares. Na minha máquina as caras viam-se bem

mas depois do upload e de importar para aqui os filmes, a coisa ficou pior. 

publicado por Laurinda Alves às 02:43
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Sábado, 20 de Dezembro de 2008
O melhor presente de Natal de sempre!

 

A Mena, sobre quem escrevi uma crónica há duas semanas,

recebeu ontem o melhor presente de Natal que alguma vez

teve. Estavamos em casa quando uma das suas irmãs tocou

à porta para a Mena descer. Ela desceu e voltou pouco depois

com um embrulho debaixo do braço que abriu mal chegou.

O presente era o retrato do pai dela, fotografado no dia do seu

casamento. Chamava-se Francisco e faria 100 anos este ano.

Comoveu-me vê-la tão comovida com o presente. Percebo-a e

sei a falta que lhe fazem os pais. Pedi-lhe autorização para fazer

estas fotos para o blog e ela disse que sim, que era um orgulho

mostrar a fotografia do seu querido Pai. Aqui ficam: ela com ele.

 

publicado por Laurinda Alves às 15:55
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Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008
Brendel deu ontem o último concerto da sua vida

 

Ontem foi um dia radicalmente marcante para os melómanos em geral e para os amantes de piano em particular. E para os fãs de Alfred Brendel, que o ouvem com fervor e devoção por conhecerem a pureza da sua interpretação dos grandes Mestres da composição. Ontem Brendel despediu-se para sempre do público num concerto em Viena, onde as pessoas o aplaudiram de pé durante 20 minutos seguidos. Hoje deixo aqui um dos vídeos de Brendel que podemos ir buscar ao YouTube. Gosto muito desta peça de Schubert e gosto muito de ouvir Alfred Brendel tocá-la.

publicado por Laurinda Alves às 18:32
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Os pedófilos 'amigos' das crianças

(Imagem de uma campanha recente feita no Brasil

 
Há nomes que vale a pena fixar e o de João Sarmento Pereira é um deles. Neste caso pelas piores razões. Ouvi este nome no Telejornal no princípio da semana, no mesmo dia em que foram presos em Espanha 121 suspeitos de envolvimento numa das maiores redes de pornografia infantil.
 
A rede é um terrível polvo de mil tentáculos que espalha o mal pelo mundo e a própria polícia espanhola revelou que o material apreendido continha fotos e vídeos arrepiantes feitos com bebés e crianças muito pequenas.
 
A sequência de notícias relativas a abusos de menores neste dia começou com a divulgação das prisões feitas pelas autoridades espanholas e seguiu para o caso português de João Sarmento Pereira, de 21 anos, acusado de 6 crimes de abuso sexual a menores e condenado a dois anos e meio de cadeia, a quem foi concedida a liberdade a troco de tratamento psiquiátrico.
 
Por razões que ultrapassam o entendimento do comum dos mortais, este abusador de crianças retomou a sua vida normal e cumpre agora uma pena suspensa com toda a liberdade e apenas a obrigação de ir a umas consultas no psiquiatra. Acho extraordinário que assim seja e acho muito grave que este homem possa continuar a exercer a sua profissão de professor primário.
 
Para percebermos o que está em causa e avaliarmos a extensão deste fenómeno de benevolência judicial vale a pena voltar aos factos e apresentar o professor. A acreditar no que vi e ouvi na televisão e não vi desmentido depois em lado nenhum, este rapaz começou aos 18 anos a estagiar num colégio em Carcavelos onde tinha um contacto diário muito próximo com as crianças. Um contacto muito íntimo, para sermos mais exactos.
 
O rapaz ajudava as crianças a vestirem-se e despirem-se para as aulas de ginástica e fazia-se valer da sua supremacia física para abusar das crianças e as assustar ao ponto de elas não serem capazes de contar em casa o que lhes acontecia na escola. Tanto quanto percebi houve abusos mais graves e menos graves mas eu, que não sou juiz mas sou mãe, considero tão grave a ‘manipulação dos genitais’ de uma criança como a violação ou ‘tentativa de penetração’.
 
Admito que os que julgam precisem de evidências físicas de violação para condenar mas sei (todos sabemos!) que não é preciso haver consumação da violação para deixar marcas indeléveis numa criança e traumatizá-la para sempre. E este é o ponto sobre o qual assenta a minha argumentação sobre um caso que me parece eloquente de uma brandura excessiva e de uma leviandade intolerável.
 
Falo da brandura dos juízes e da leviandade de quem permite que este homem mantenha a sua carteira profissional de professor primário, podendo exercer a profissão num meio em que a proximidade física de crianças pequenas pode potenciar situações de abuso como as que ficaram provadas no passado recente.
 
Compreendo as mães e pais das crianças abusadas que foram ouvidas pelo jornalista e apareceram na televisão em contra-luz para não se ver a cara. Estou solidária com a sua indignação e a sua dor porque não se trata de uma vingança mas sim da mais elementar justiça. Como é que um rapaz que fez o que fez aos seus filhos pode estar em liberdade e continuar a ser professor primário?
 
Será que os juízes e os especialistas que os aconselham não sabem que o pior pedófilo é sempre o ‘maior amigo das crianças’? É sempre o que parece bom, que se faz amigo, que se torna confiável e depois usa todo este capital de simpatia e proximidade para actuar com frieza, premeditação e perversidade.
 
Ou será que os juízes acreditam sinceramente que o rapaz está profundamente arrependido e não vai repetir? Há estudos científicos que provam que esta compulsão para o abuso sexual de menores pode durar uma vida inteira e mesmo que neste caso haja um forte arrependimento é inquietante saber que alguém condenado por seis crimes de abuso sexual anda por aí à solta e mais tarde ou mais cedo vai voltar à escola e ao contacto com as crianças que, por definição, são o seu alvo preferencial e as potenciais vítimas.
 
Quem nos garante que este homem fica curado com um tratamento psiquiátrico? E quem se responsabiliza pelo seu acompanhamento, pela sua evolução mental e moral, e se responsabiliza por ele no futuro? É essencial fazer as perguntas porque alguém tem que ter as respostas para o deixar em liberdade permitindo-lhe continuar a ser professor primário.
 
Se insisto em deixar escrito o nome deste homem não é para o voltar a condenar pois não me compete a mim fazê-lo, mas para que mais pais e directores de escolas saibam com o que contam se lhes bater à porta um homem que sendo professor traz consigo outras credenciais.
 
Como cidadã e como mãe tenho o dever e o direito de sublinhar as minhas reservas quanto a casos destes, em que aparentemente não houve reparação dos danos nem sequer a obrigatoriedade de prestar serviço cívico na comunidade para dar de volta parte daquilo que roubou.
 
Na impossibilidade de devolver a integridade física, moral e emocional às crianças que abusou e de reparar o sofrimento que lhes provocou a elas e às suas famílias, devia existir a obrigação de cumprir uma pena cívica que o reabilitasse a ele e, ao mesmo tempo, nos desse a nós a certeza de que este homem está apostado em regenerar e em conquistar a confiança que neste momento ninguém pode ter nele até conseguir provar o contrário.
 
Repugnam-me os pedófilos e tarados cuja compulsão é repetir o crime de abuso sexual a menores. Nesta lógica confesso que defendo a castração química para alguns dos condenados por este tipo de crime. Mais do que uma medida de protecção para os nossos filhos e ainda mais do que um castigo aos abusadores é um favor que lhes fazemos pois é raro o que não volta ao local do crime mais do que uma vez.
 
Há quem ache uma medida excessiva mas assumo que, para mim, seria a medida certa. Não percebo porque é que havemos de continuar a acreditar mais na voz de um criminoso do que nas das suas vítimas. 
 
     
publicado por Laurinda Alves às 18:15
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