Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008
Que selvajaria!

Ontem dei-me conta de um buraco enorme feito no meu carro
onde há vestígios de cor verde que me levam a crer que pode
ter sido provocado por um camião do lixo ou coisa parecida já
que um carro normal não tem capacidade para perfurar desta
maneira tão devastadora o aço. Que selvajaria, meu Deus! E
claro que nem uma nota, nem um contacto, nem um cartão a
pedir desculpas ou a dar uma justificação. Ainda por cima ao
'puxar o filme para trás', dei-me conta de que isto só pode ter
acontecido numa noite da semana passada em que o meu
carro estava bem estacionado mas outro carro, deixado do
outro lado da rua a tapar a esquina, inviabilizava a passagem
do camião do lixo. Se assim foi não deixa de ser extraordinário
que o carro mal estacionado tenha saído incólume e que o
meu tenha ficado neste estado, com o buraco e mais um risco
grosso e fundo ao correr de toda a porta de trás. Que coisa esta!

Domingo, 2 de Novembro de 2008
Um café e um pastel de nata por favor!

Embora não pareça, isto é um café e um pastel de nata! Ou
melhor, isto é uma versão gourmet criativa e sofisticada dos
sabores e texturas existentes num café e num pastel de nata.

E isto é uma sobremesa sumptuosamente preparada durante
horas e horas para chegar a um ponto inesquecível de apuro
de sabores: cheesecake, gelado de bolacha (sim, gelado de
bolacha Maria previamente tratada para que o gelado não saia
com pó de bolacha), uma emulsão doce e subtil e ainda frutos
encarnados (numa calda onde se mistura também o tomate,
imagine-se), tudo coberto de de frutos secos muito crocantes.

Tudo isto e muito mais, numa prova especial de vinhos do
Porto e de sobremesas numa sala da FIL onde corre a feira
dos vinhos. Bento Amaral, engenheiro alimentar e Chefe de
Câmara dos Provadores do Instituto do Vinho do Douro e do
Porto, orientou a prova de vinhos que acompanhavam a prova
de sobremesas feitas pelo Chef Ljubomir Stanisic, uma lenda
viva, responsável pelo restaurante 100 Maneiras, em Cascais.

Adorei esta prova de vinhos do Porto e sobremesas mas o
que mais me fascinou foi a eloquência do Bento Amaral, de
quem sou amiga e admiradora, por ser das pessoas mais
completas que conheço e por ser um testemunho de coragem
e superação permanente. Tetraplégico há 13 anos é, como se
sabe, ex-campeão do mundo de vela adaptada. Ontem o Bento
estava noutro dos seus elementos - diria que a água e o vinho
são os seus elementos 'naturais'. A água do mar, quero dizer -
e fez uma apresentação extraordinariamente viva, colorida e
substantiva. Aqui o Bento está a olhar para a Carmo, sua mulher,
com indisfarçável ternura enquanto ela ajuda o Chef nas sobremesas.
Adoro-os aos dois e acho um privilégio sem tamanho sermos amigos!
Sábado, 1 de Novembro de 2008
O pequeno livro de um grande homem

(crónica escrita para o Público de sexta-feira, dia 31 de Outubro)
Tenho na minha secretária um livrinho estreito e comprido, de apenas 70 páginas, que passou quase despercebido enquanto esteve enfiado numa das pilhas que se multiplicam sobre a madeira clara e ampla onde há de tudo, desde o colossal Paraíso Perdido de John Milton ao último micro-conto escrito por Juan Manuel de Prada, passando pelas Opiniões Fortes de Nabokov, pelos Scritti Sull’Arte de Rothko, uma de várias biografias de Yourcenar, os Retratos e Auto-Retratos de Vasco Pulido Valente, revistas de culto, colecções de contos, livros mais ou menos avulsos, muita poesia e um cúmulo de papelada chata sempre em atraso.

Olho para o pequeno livro, entalado entre Brodsky e Beckett, tiro-o da pilha e abro-o ao acaso. É uma colectânea de crónicas escritas no ano de 1990 por Alberto Vaz da Silva, com fotografias de Jorge Molder. As crónicas, publicadas no jornal Semanário, têm um título exclamativo e são eloquentes do espanto-à-flor-da-pele de Alberto, coisa que sempre me fascinou nele. “Ah!” era o título das páginas efémeras do jornal e é agora o nome do livro cujo destino é permanecer, mesmo quando teima discretamente em sumir-se entre as lombadas dos fortes e poderosos da escrita.
Li este livro quando me foi oferecido pelo próprio Alberto e lembro-me de o ter lido sempre com um sentimento especial. Qualquer coisa de indizível mas que aqui e ali se traduziu num sorriso pelo reconhecimento íntimo de uma figura; numa pausa provocada pela curiosa abstracção de quem (d)escrevia ou pela precisão de uma elaboração mais incisiva e interpeladora. Hoje voltei ao livro e tive a mesma sensação. Começa por haver uma página lisa e limpa onde se lê, em letra impressa, a palavra “Dedicatória”. Gosto desta ideia de abrir uma página especial para dedicar o livro, sem ter que disputar depois os espaços em branco entre títulos e sub-títulos.
Esta página, onde Alberto escreve à mão aquilo que quer dizer a quem oferece o seu livro ou onde uns assinam para dedicar a outros, é apenas um detalhe eloquente da sensibilidade e delicadeza de alma de Alberto Vaz da Silva, que é um homem grande no sentido literal mas também no sentido mais profundo do termo.

Conheci o Alberto há 25 anos numa casa muito bonita que tem numa pequena aldeia no alto de um monte debruçado sobre campos lavrados, com mar ao fundo. Helena e Alberto sempre revelaram o melhor de si mesmo nas casas que habitaram e esta era invulgarmente bonita. Acima de tudo, muito vivida e bem vivida. Ali chegavam e partiam filhos, netos, amigos e amigos dos amigos, e para todos eles havia um gesto acolhedor, um lugar próprio, um pequeno nada que fazia toda a diferença. Em dias frios, de vento salgado, a casa estava sempre quente e a cheirar a forno. Nos dias quentes as janelas ficavam abertas dia e noite e havia pátios e terraços para ficar a ver as estrelas e a ouvir os barulhos do mundo.
Nessa casa havia e há um pequeno mirante onde Alberto passava longas horas a olhar para o céu com o seu eterno espanto de rapaz que não se cansa de perguntar e voltar a perguntar.
Os anos passaram e mesmo quando estivemos mais ausentes sabíamos que estávamos presentes. Aconteceram coisas muito boas e muito más, ganhos fantásticos e perdas dolorosas que partilhámos por pertencermos a um núcleo alargado de pessoas que se querem bem e gostam muito. Fomos cruzando caminhos e actualizando estórias, às vezes em festas ou casamentos de amigos, outras vezes em lanches que também eram tertúlias no jardim de Lisboa, outras ainda em conversas breves nos encontros de rua ao acaso.
Alberto Vaz da Silva foi advogado uma vida inteira sabendo de coração que o seu maior dom é o da decifração cósmica, esse desvendar consciente dos sinais do universo, essa interpretação maravilhosa dos mistérios da vida. Fascinado pela Astrologia e pela Grafologia (escritas com maiúsculas, note-se) correu mundo, conheceu gente, explorou bibliotecas e chegou muito longe. Sabe coisas que mais ninguém sabe e fala de traços e pontos com uma assurance e uma luz admiráveis.
Encanta-me esta sua ciência e apaixona-me o seu entusiasmo e, por isso, nunca me canso de o ouvir falar. Inscrevi-me num dos seus cursos de grafologia para saber mais sobre esta linguagem íntima que nos revela e surpreende. Fiquei a saber muito pouco mas a culpa não é do Alberto, é minha porque fiz apenas o primeiro módulo. A Grafologia é de tal maneira densa e complexa que são precisos anos de estudo aturado para começar a entrar na lógica e desenho das letras escritas por mãos que pousam no papel e deixam marcas indeléveis da personalidade.
Alberto tem uma voz forte e um discurso vibrante sempre que fala destas e outras matérias que nos transcendem. É impossível não ficar suspenso das suas palavras, dos seus raciocínios, da sua arquitectura mental e afectiva tão extraordinária como sedutora.
Hoje lembrei-me dele por causa do livrinho pousado sobre a secretária. Ia escrever sobre outras coisas mas ele prendeu-me a atenção e obrigou-me a mudar de ideias. E de rumo.
É incrível como um pequeno objecto, tão fino e discreto pode impor a sua presença desta maneira. Escondido entre obras volumosas, hoje gritou e eu ouvi. Não sei explicar estas coisas mas o Alberto sabe de certeza. E se, por acaso, não souber explicar pelo menos sabe compreender.
E termino a minha deriva com uma citação do livro, da primeira crónica em que Alberto se pergunta o que aconteceria aos homens se estabelecessem e mantivessem contacto com uma inteligência extraterrestre, e onde se interroga sobre quais as melhores pessoas e os saberes mais elevados que os terrestres poderiam levar consigo numa embaixada que pudesse dar aos outros uma imagem da Terra?
“Seria preciso meter à pressa num saco velho as guerras e os genocídios, a política mais primitiva, a palidez da imprensa, o mais ou menos vergonhoso abuso generalizado do poder sob a forma de dinheiro. Reunir-se-iam certamente os estandartes Galileu; Newton e Einstein, Leonardo, Miguel Ângelo, Homero, Shakespeare, uma selecção dos poucos vestígios autênticos da Antiguidade, talvez Empédocles, livros sagrados, Mozart e alguns mestres, sábios, santos e homens pacíficos do Oriente. Se fosse hoje, Gandhi, João XXIII e Gorbachev. Umas quantas formigas, marsuínos, frésias. E os cumes dos Himalaias.”
Uma imagem transformadora

A imagem forte destas mãos dadas não me sai da cabeça.
Adormeci e acordei a pensar neste gesto que marcou um
verdadeiro encontro entre dois homens que nunca se viram
mas se reconheceram como amigos 'antigos' só de olharem
um para o outro. Ambos estão doentes, ambos sabem o que
é atravessar o sofrimento e procurar dentro de si e à sua volta
forças e sentido para a vida. Conheço-os aos dois e também
eu tenho com eles uma amizade profunda feita de verdade e
cumplicidade pelo tempo vivido à cabeceira. Ontem estes dois
homens conheceram-se na Unidade de Cuidados Paliativos
onde um está internado e o outro já esteve. Há momentos em
que nos sentimos radicalmente felizes e gratos por tudo e tanto
que recebemos da vida. Ontem vivi um momento assim. Obrigada.
Agradeço ao Bruno e ao Arlindo a força incrível que têm e nos dão.
O amor é uma força contagiante e muito transformadora. Luminosa.