Ofereceram-me as flores na véspera de um dia importante
porque sabem que adoro flores frescas. Estão na jarra há
duas semanas e continuam bonitas,coisa inédita nos dias
que correm em que tudo é tão efémero e quase nada dura.
Hoje há tanta luz em casa que até as flores parecem novas
e frescas, mesmo estando a ficar velhas. Nestes dias azuis
de céu limpo e rio parado é um luxo ficar de janelas abertas
sobre os telhados da cidade. Adoro a transparência da luz
de Lisboa. E adoro viver de janelas escancaradas a ouvir
as vozes descombinadas e os barulhos da rua. Ao longe há
sirenes e navios pesados mas nestes dias tudo fica tão leve..
Ontem houve uma ceia de despedida do João Benis, um amigo
português de origem grega, que vai fazer uma grande viagem na
próxima semana. Depois volta mas daqui a uns meses vai estar
sempre a partir e a chegar. O Benis é um amigo muito querido e
muito concorrido, por assim dizer. Vive de portas abertas e a casa
dele é uma espécie de albergue espanhol. Ou era, para ser mais
exacta, pois ontem foi o último dia nesta casa boémia, com sofá
a meio das escadas, azulejos setecentistas, estrutura pombalina
decadente, madeiras antigas e gastas, laje de pedra na entrada,
um grande estilo e uma alma de palácio,como diz o próprio Benis.
A história da família do João Benis é fascinante e apetece
ouvir demoradamente as coisas que conta sobre o avô e
a avó. O avô era grego e foi o 1º comandante de Onassis,
coisa que o obrigou a viajar pelo mundo inteiro. Ter o posto
mais elevado e comandar a imensa frota do armador grego
foi uma fasquia alta, certamente merecida mas seguramente
exigente. O neto fala do avô com indisfarçável orgulho mas o
que mais contagia é a alegria de Benis quando conta as voltas
ao mundo pelo mar, pois toda a família herdou esta costela de
marinheiro. A avó era portuguesa, enfermeira, e conheceu o avô
no hospital quando ele teve que ser evacuado do navio por estar
profundamente doente. Foi ela a primeira pessoa que ele viu ao
abrir os olhos depois de uma sucessão de dias febris e agitados.
O avô lia as mãos e gostava destas coisas que tinha aprendido na
Índia e leu nas mãos daquela enfermeira que iam casar e ter 3 filhos.
E casaram e tiveram os três filhos que as linhas anunciavam e foram
muito felizes durante mais de 60 anos. A avó morreu e um mês depois
o avó, que já estava doente, também morreu. Dizem que foi por amor.
Estas e outras histórias foram a substância do serão de ontem, em que
o Benis tocou viola e cantou e todos os amigos presentes o ouviram ou
acompanharam. E a Maria também, apaixonada como no primeiro dia...
O sofá do Benis é uma instalação para as fotografias à entrada e à saída.
Tenho verdadeira devoção por verdadeiros escritores e gosto
de ver as mãos deles, mesmo sabendo que nem sempre as
gastam na escrita manual. Não sei se V.S.Naipaul escreve à
mão ou apenas no computador mas também não me importa.
Hoje fui ouvir o Nobel da Literatura à Gulbenkian ao fim do dia.
V.S.Naipaul é muito melhor a escrever do que a falar para uma
plateia. Trouxe tudo escrito e foi pena porque enquanto leu não
conversou connosco. A leitura de um papel, por mais criativo que
seja o que está escrito nesse papel, torna-se sempre monótona.
No fim houve autógrafos e claro que fotografei a sua letra porque
me fascina a grafologia e tenho o vício de reparar nas caligrafias.
No fim de tudo pedi a V.S. Naipaul para me dizer como se
apresentaria e o que diria sobre si próprio se fosse viajar
para outro planeta. Disse que nunca tinha pensado nisso
e que agora também não lhe apetecia pensar no assunto.
Ainda assim, fez um pequeno esforço mas acabou por ser
inconclusivo. Riu e foi simpático mas manteve a sua atitude
meio-desconstrutiva com que, aliás, falou durante a tarde.
Percebo que não lhe apeteça o exercício de falar sobre a sua pessoa
mas ele também percebeu o prazer que me deu gravar um fragmento
de conversa com um escritor que admiro. Ficámos quites, portanto. Boa!
Encontrei este vídeo no YouTube quando estava à procura de uma versão da música Arms of an Angel de que gosto muito e é cantada a duas vozes. Não encontrei o que queria porque só encontrei a Sarah McLaughin a solo e a Kelly Clarkson a duas vozes, mas sem ser com o Joe Sample (de quem gosto particularmente) mas 'tropecei' neste tributo aos soldados americanos mortos no Iraque. Embora seja um vídeo 'antigo' não resisto a publicá-lo aqui pois a questão infelizmente permanece actual e a visão das botas dos soldados mortos tem um impacto muito forte no sentido em que nos torna ainda mais conscientes da realidade atroz das guerras. Há imagens que marcam e nos transformam profundamente. Assim como existe um museu onde estão amontoados os sapatos dos judeus mortos pelos nazis, também a exposição das botas dos soldados americanos mortos na guerra nos interpela e obriga a pensar. Aqui ficam, com as fotografias das caras e os nomes de cada um.
Embora não tenha encontrado a versão da música que queria e é cantada por Randy Crawford e Joe Sample, duas vozes apaixonantes que adoro, deixo aqui duas outras músicas deles, uma com uma breve entrada falada de Joe Sample que dá para perceber a sua vibração e a sua alma. Digo eu, que não sou nada imparcial porque sou completamente fã de um e outro. Muito bons a cantar, a tocar e a falar como se pode ouvir neste segundo vídeo que aqui fica. Mas há mais, muito mais com eles e sobre eles no Youtube e tudo vale a pena!
A Byblos, a maior livraria do país, fechou ontem e a notícia é triste
e inquietante. Sempre que uma empresa é obrigada a fechar as
portas e a despedir uma equipa inteira fica a angústia de saber
qual o futuro das pessoas despedidas, e a certeza de perceber
ainda com mais evidência as fragilidades em tempo de crise. É
uma pena que a Byblos tenha acabado por todas as razões mas
acima de tudo por representar o fim de um grande sonho. Alguns
poderão dizer que era um sonho desmedido mas eu sou das que
acreditam que é possível sonhar alto e, por isso mesmo, custa-me
o fim deste projecto e imagino que Américo Areal, o administrador,
e a sua equipa estejam profundamente desconsolados com o fecho.

Imagens como esta não se vão repetir no espaço da livraria Byblos
que, para mim, era um espaço único, muito bem organizado e cheio
de inovações tecnológicas que resultavam muito práticas e eficazes.
Passei muitas horas na Byblos com o meu filho, numa das secções
preferidas de partituras e música clássica, e também participei em
muitas apresentações de livros com autores, seguidas de debates
animados e alegres em que a proximidade entre escritores e leitores
era total. Gostava dessa intimidade e dessa cumplicidade entre uns
e outros e sei que a relação fácil e próxima era uma aposta da Byblos.
Tenho pena sincera que a livraria tenha fechado e deixo aqui um post
solidário com a equipa Byblos que apesar deste triste desfecho teve o
condão de realizar alguns sonhos que a todos pareciam impossíveis.
João Nuno Pinto, realizador de cinema e um dos fundadores
da Garage, produtora de filmes e publicidade, dá instruções
a um grupo de chineses que fazem um casting para actores
do seu próximo filme. Passei a tarde na Garage, coisa que
adoro porque é um dos sítios mais fantásticos de Lisboa e
um dos melhores 'escritórios' que conheço no mundo inteiro
(digo-o sem exagero nenhum, note-se!) e na onda criativa que
se vive permanentemente numa produtora onde todos têm um
ar descontraído e cúmplice mesmo quando trabalham sob
pressão e com deadlines apertados, é fascinante acabar o dia
a atravessar esta paisagem improvisada na copa da Garage.
Aqui João Nuno explica aos actores que têm de reagir ao som
estrondoso de um trovão e depois sair de cena. Eles ouvem-no
com atenção e ensaiam uma e outra vez os passos e os gestos.
Gravei pequenos fragmentos destas filmagens em que a deixa
era fazer uma pergunta a um 'Sr. Vítor' sobre qual a comida que
prefere: chinesa ou japonesa? O 'Sr.Vítor' esta tarde era a própria
assistente do realizador, que respondia em brasileiro ao português
forçado ( e esforçado ) dos actores chineses que tentavam a todo o
custo pronunciar os 'rr' mas nem sempre conseguiam. Muito divertido.
A propósito de coisa nenhuma, apenas pelo gosto da leitura epopeica e pelo prazer da degustação literária deixo aqui alguns versos do canto IX da Ilíada de Homero, com a narrativa quente e tentadora de um banquete em que Aquiles conversa com os gregos.

Esta é a Jo, minha amiga, a ler um livro nas férias com
as três bolas de cores pousadas sobre a mesa, numa
pausa das suas tentativas incessantes para conseguir
o malabarismo aparentemente fácil e quase banal de
rodar as três bolas pelo ar, mantendo apenas uma nas
mãos. Hoje lembrei-me desta fotografia (da Jo, que mora
em Londres, lembro-me muitas vezes!) por sentir que ando
quase sempre a tentar equilibrar muitas coisas ao mesmo
tempo. Como não sou a única e todos somos obrigados a
exercícios diários de malabarismo, aproveito para sublinhar
aqui a importância de parar de vez em quando e fazer pausas!

Os Observadores Internacionais que acompanharam as eleições
legislativas da Guiné neste fim-de-semana foram unânimes em
declarar que se tratou e um processo transparente, livre e justo.
Enquanto os guineenses e nós, no resto do mundo, aguardamos
os resultados definitivos deste escrutínio, deixo aqui as fotografias
de João Francisco Moura, meu grande amigo e um dos Observadores
que seguiram as eleições no terreno. Estas e outras imagens muito belas
e eloquentes da dignidade, garra e raça dos guineenses estão no seu site
no Flickr, que adoro e visito diariamente. Hoje comecei por ter saudades de
Londres e agora dou comigo a ter saudades da Guiné, país que conheci há
vinte anos e me deixou memórias indeléveis. A minha vénia a este povo lutador!




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