Sempre que ando de avião acontece-me fechar os olhos não
para dormir porque raramente consigo fazê-lo, mas para uma
espécie de revisão de vida vivida, de frases que ficaram a fazer
eco, de gestos plasmados na memória, de olhares trocados,
enfim de momentos que ficaram gravados e têm que ser bem
processados para serem arquivados. Ontem dei comigo lá em
cima a lembrar-me de uma expressão usada por alguém neste
congresso de Pamplona: "às vezes temos que falar com a sogra
como se a nora estivesse presente". A frase deve ser um ditado
popular em Espanha e é muito eloquente e certeira quando se
trata de dizer certas coisas a certas pessoas. Quem a disse foi
um especialista em comunicação, num contexto de conversas
delicadas, mas pode ser aplicada ao dia-a-dia no sentido em
que nos pode ajudar a afinar o tom e a conter a agressividade
pensar que estamos a falar com alguém de quem não gostamos,
na presença de alguém de quem gostamos. E mais, de alguém
que gosta de quem não gostamos! Passem todas as redundâncias
a metáfora teve impacto no momento em que foi usada mas depois
também ficou a fazer eco em mim. Vou ver se me lembro dela mais
vezes. Especialmente quando não gostar muito de alguma pessoa
mas tiver que me relacionar ou comunicar com ela. Acho que vale a
pena ter em conta a frase por uma questão de eficácia e humanidade.
Maria, diz ao Luizinho que hoje nos cruzámos no céu e que
eu ia naquele avião que passou pelo vosso quando havia
nuvens às cores. E diz-lhe que tenho saudades dele e que
vou arranjar mais livros de dinossauros para lhe oferecer.
No fim deste encontro de Pamplona, sobre o qual hei-de ir escrevendo com tempo e à medida em que for interiorizando tudo o que foi dito e partilhado nestes dias por dezenas de médicos, profissionais de saúde e de comunicação, pedi ao director da Unidade de Cuidados Paliativos da Clínica Universitária de Navarra que me dissesse porque é que se dedica a este tipo de cuidados. E ele respondeu num tom muito dele, sempre a sorrir, que é justamente porque lhe permite fazer exactamente o que sempre quis: ser médico e estar ao lado dos doentes que sofrem para lhes poder aliviar as dores físicas e emocionais. Carlos Centeno sublinha que é muito importante estar próximo dos doentes e explica que essa proximidade tem a ver com a sua ciência médica mas também com a sua disponibilidade pessoal para estar fisicamente perto. Quem o conhece bem sabe que Carlos Centeno é um daqueles médicos que todos queríamos ter à cabeceira nas alturas de maior fragilidade.
E agora fecho o meu pequeno escritório improvisado aqui em Pamplona, onde disputei o computador a dezenas de hóspedes do hotel, mas onde consegui estar tempo suficiente para publicar algumas linhas e imagens no blog e, ainda, para manter a escrita em dia e os mails mais ou menos em ordem.
Antes de desligar o computador e de me despedir da cidade que conheci em pleno Outono, com sol e céu azul muito limpo (vidé entrevista de Carlos Centeno, feita no Campus universitário), deixo a imagem de uma das pausa para o café. Estar com todos nestes dias foi um luxo, dada qualidade humana e a excelência profissional de cada um. Confesso que esperava muito mas não esperava tanto. Comoveram-me as narrativas dos médicos e as histórias de vida que contaram. A partilha foi de tal maneira intensa entre profissionais de saúde e de comunicação, que uns e outros vamos de Pamplona de coração cheio e cabeça a transbordar de ideias e projectos. Muito bom. Obrigada a todos. Aos que vou rever em Lisboa, até breve!
Este grafitti que cobre uma das paredes de um longo corredor
da Clínica Universitária de Navarra é muito mais do que uma
ideia feliz para quebrar o ar asséptico de um hospital onde os
doentes estão confrontados com a sua fragilidade e os limites
da sua vida. Muitos dos que aqui chegam vêm com diagnósticos
pesados que os obrigam a tratamentos dolorosos e angustiantes.
O traço aparentemente confuso ou meio-esquizóide de um
grafitti que nunca se sabe se parece um sonho ou um se é
um delírio, também serve a metáfora usada por um médico
especializado em Paliativos quando dizia que vivemos num
delírio de imortalidade, numa crença irrealista de que vamos
viver para sempre só porque a Medicina é uma ciência que
faz progressos notáveis. Ora esta perspectiva de uma prática
clínica quase exclusivamente apostada em curar os doentes
cria falsas expectativas e conduz à ilusão de que os médicos
são todo-poderosos e curam todas as doenças. É um erro.
A grande questão que hoje se debate entre a classe médica
e os profissionais de saúde é saber como cuidar e acompanhar
os doentes que não se curam, que podem viver longos anos com
doenças graves e progressivas, com sofrimentos vários e muito
prolongados. E é esta questão delicada mas muito urgente que
está sobre a mesa deste encontro de médicos de Paliativos aqui
na Universidade de Navarra, um dos grandes centros de referência
em matéria de investigação, acompanhamento e tratamento clínico.
Uma das minhas crónicas de hoje no jornal Público é sobre esta breve conversa entre Nicolai Lugansky, pianista russo, e o meu filho. Escrevi sobre este momento por ter sido uma experiência marcante para nós e por revelar a sensibilidade humana de um dos maiores pianistas da actualidade. No fim de um concerto absolutamente maravilhoso, em que voltou três vezes ao palco para tocar mais três peças sublimes, Nicolai Lugansky estava exausto mas, mesmo assim, recebeu meia dúzia de admiradores que queriam muito conhecê-lo. Tivemos a sorte de estar entre este grupo de privilegiados e mais, o meu filho que tem uma verdadeira devoção por Rachmaninoff e pela maneira como Lugansky toca toda a sua obra, teve o supremo prazer de não só lhe apertar a mão como poder ficar à conversa por breves minutos. Apesar de estar visivelmente cansado, Nicolai Lugansky manteve a mesma elegância que revelou quando estava ao piano, e falou sem pressas enquanto ia bebendo uma cerveja retemperadora. Na altura perguntei se podia filmar e ele disse que sim com um sorriso muito acolhedor e simpático. Demorei algum tempo a ter coragem para perguntar ao Martim se podia pôr aqui o vídeo porque o conheço bem e sei que tem pudor em se mostrar, mas convenci-o (julgo eu) com o argumento de que ele se vê pouco e, para mim, era importante revelar esta atitude de Nicolai Lugansky que apesar de ser uma lenda viva e um dos melhores pianistas do mundo, tem tempo para estar com os que querem estar com ele. Aqui fica o vídeo e esta petite histoire num dia em que em Portugal me dedico ao que ouvi de Lugansky enquanto em Espanha me dedico a ouvir alguns dos melhores especialistas do mundo em Cuidados Paliativos. Tudo neste post é uma breve conversa entre parêntesis, portanto.
Chegámos a Pamplona ainda com a luz da tarde, depois de
uma viagem muito rápida e confortável. Tínhamos combinado
com a equipa de Cuidados Paliativos ir ter à Clínica e fomos.
Esta é a sala de espera da Unidade de Cuidados Paliativos
da Clínica Universitária de Navarra onde tantos portugueses
vêm fazer diagnósticos e tratamentos. O congresso começa
amanhã e, por isso, hoje tivemos a tarde para conhecer tudo.
Enquanto Carlos Centeno, médico coordenador da Unidade
fazia o último giro pelo piso onde estão internados os seus
doentes, a Isabel trocou ideias e experiências com Marian
Portela, médica especialista neste tipo de cuidados.
Quando terminou a visita aos doentes, Carlos Centeno que
é uma das grandes referências internacionais em CP, voltou
à sala para receber Isabel e fazer o último briefing do dia com
a equipa. Ao seu lado está Ana de Santiago, também médica.
Estou à espera do táxi, a caminho do aeroporto para Pamplona onde vou ficar até domingo. Vou com a Isabel Galriça Neto, médica especialista em Cuidados Paliativos e directora da Unidade CP do Hospital da Luz, onde faço voluntariado às terças. Vamos participar num encontro internacional de especialistas nesta matérias. Quero dizer eu vou assistir e ouvir, só a Isabel é que vai participar. Acho um privilégio sem tamanho poder estar tão próxima dela, ter acesso a estes encontros e poder aprender cada vez mais sobre uma matéria tão especializada como transformadora da Medicina. E adoro esta certeza de estar do lado das equipas que estão apostadas na qualidade de vida dos doentes. Viva a medicina humanizada e humanizante e quem a apoiar! Não sei quando volto a dar notícias mas se ficar muito ausente do blog já sabem que é por boas razões.
À chegada, uma toalha de linho imaculadamente branca e
impecavelmente engomada a cobrir a mesa para um jantar
especial. Depois de um ano de ausência os amigos voltam
a Lisboa por breves dias e marcam a sua passagem com
um encontro à volta de duas mesas onde as conversas se
combinam e descombinam com uma alegria contagiante e
uma intimidade cúmplice só possível entre os que se amam.
À partida, a toalha branca manchada de vinho (dizem que é
alegria e traz felicidade, não é?!), os copos meio-vazios e os
guardanapos pousados de lado a marcar o fim do jantar mas
não o fim das conversas que duraram longas horas e serão
sempre intermináveis. Os amigos que estão de passagem
voltaram de Singapura e estão a caminho de Paris e embora
seja uma pena que não permaneçam connosco, ficam muito
mais perto e assim todos temos a ilusão de que já cá estão.
Estava a trabalhar no computador quando a Mena me veio
chamar para ver o céu deste fim de tarde. A Mena trabalha
cá em casa há 17 anos e é como se fossemos família. Eu
e o meu filho temos a noção do privilégio que é viver com a
Mena sempre tão presente e tão atenta aos detalhes. É tão
bom existirem pessoas queridas e sensíveis como a Mena!
Não fui convidada para este casamento mas estive lá. Eu
e todos os que passeávamos pelos jardins do Palácio de
Cristal, no Porto, neste domingo. Os noivos atravessaram
uma pequena ponte para fazer fotografias debaixo de uma
árvore secular. O fotógrafo deles fotografou-os. Eu também.
Achei graça ao filme destes noivos e achei curioso que mais
abaixo houvesse um poste com tabuletas a indicar caminhos
inspiradores. Jardim dos Sentimentos pareceu-me adequado.
Tudo isto e muito mais numa manhã de sonho, com sol e
luz sobre o azul do Douro, num domingo tranquilo passado
com amigos de quem gosto muito e com quem estou pouco.
O Porto visto do miradouro destes jardins é lindo de morrer.
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