Sexta-feira, 22 de Agosto de 2008
Acordar e adormecer na Berlenga

 

 

Retomo esta imagem do farol da Berlenga para publicar aqui

as crónicas que escrevi para o jornal Público esta sexta-feira.

 

 

Uma vida tranquila
 
Acordar e adormecer na Berlenga era um sonho antigo. Esta semana passei alguns dias na pequena ilha e o sonho tornou-se realidade. Acordar e adormecer numa casa que parece um barco ancorado no triângulo das rochas altas e escarpadas cheias de cavernas escavadas pelo mar e afiadas nas pontas do seu vértice pelos ventos de há 300 milhões de anos é uma experiência única e um privilégio raro.
 
“Ilhas como a Berlenga são os últimos paraísos que nos restam num mundo construído à medida dos políticos, dos industriais e dos especuladores imobiliários” escreveu Santos Júnior, professor da Universidade do Porto, no prefácio de um estudo aprofundado sobre as ilhas feito por Fernández de la Cigoña.
O professor português tinha razão mas o investigador galego também, quando declarou que “ir às Berlengas era mesmamente como estar em casa”. Foi isso mesmo que senti.
 
À vista desarmada a Berlenga é uma ilha deserta, muito pequena, que se percorre a pé ou por mar num par de horas e, para muitos, esta circunstância é desanimadora. Para mim não. Estar num lugar onde nada acontece, onde o tempo passa devagar, onde há vento e silêncio e onde as conversas gravitam à volta de pequenos-grandes nadas é um luxo. As horas deixam de importar e as rotinas também. Ali, se quisermos, não chegam as inquietações nem as aflições do mundo. Não há televisão nem rádio ou jornais, e o barco nem todos os dias atraca no cais porque o mar é perigoso e as ondas vencem tudo o que se lhes opõe. Apetece demorar naquela ilha, ficar horas esquecidas a observar o mar e descobrir a geografia daquele lugar.
 
A casa é branca, caiada, e foi erguida na encosta da ilha no início dos anos 40, quando Andrade e Silva, comandante do porto de Peniche se apaixonou pela ilha deserta e começou a passar férias na Berlenga. Graças a Andrade e Silva existe desde então um pequeno bairro com três filas de casas de um só andar, metodicamente ordenadas e construídas para albergar os homens que até aí se aventuravam neste mar adverso e tantas vezes cruel.
Ao todo existem ali 20 casas, quase todas de pescadores que antes habitavam as covas escuras, geladas e sinistras das rochas como faziam os homens primitivos.
 
Do terraço da casa onde a família do comandante continua a viver todos os Verões com a mesma intensidade e paixão vê-se o mar inteiro, as outras ilhas ao fundo, as rochas mais próximas e a praia cá em baixo.
A vida nesta casa é muito tranquila e tudo acontece num ritmo natural, sem pressas nem sobressaltos. Quando o sol já vai alto todos descem para o mar e vamos a remos ou a motor pelas ondas e carreiros onde existem grutas que apetece explorar.
 
Durante horas a fio ficamos por ali e somos embalados pelas vozes e pelo rumor da água. Parados ou a andar, vamos descobrindo caminhos e procurando entradas que tenham saída. Há sítios onde só se pode chegar com a maré baixa, há grutas amplas com grandes cúpulas e colunas de luz ao alto mas também há carreiros estreitos e profundos que conduzem a cavernas escuras, tétricas, onde o barulho do mar se torna ameaçador. Estes carreiros percorrem as entranhas da ilha e provocam um misto de susto e fascínio ao qual é impossível escapar.
 
 
As rochas imponentes com os seus baixos mergulhados na água, as correntes fortes e a violência das ondas em dias de ‘fola’ tornam esta e as outras ilhas mais próximas muito perigosas, mas para quem as conhece como às palmas das suas mãos, tudo se torna infinitamente mais transparente. Vou com confiança porque sei que vou com gente que conhece cada aresta, cada cicatriz na rocha, cada buraco e cada gruta. Vou sem medo, portanto.
 
Apesar da confiança sinto um profundo respeito por aquele mar e percebo de onde vêm os nomes macabros do impressionante Ilhote Maldito e do carreiro com o mesmo nome. Há demasiados náufragos no fundo destas águas e houve demasiadas tragédias nestas ilhas. Dizem os pescadores mais antigos que “quem queira saber de medos, aventure-se por estas águas” e eu percebo ali a extensão do que dizem estes velhos sábios.   

 

 

 

A Gruta do Medo

 
Entre as furnas gigantes onde o vento sopra com tanta força que enche o ar de sons prolongados, graves e intensos, repetidos como ecos de trovão, existem pedras grandiosas permanentemente expostas ao vaivém das ondas, onde vão ficando gravados desenhos de séculos e plasmados milénios de erosão.
 
No meio desta geografia abrupta e hostil das ilhas existem lugares de sonho, grutas que parecem templos, com salas iluminadas de baixo como se o chão fosse todo de vidro e a luz entrasse pelo fundo do mar. Deslizar entre as rochas e descer por caminhos de pedra molhada e escorregadia por corredores onde nenhuma luz entra não é para todos.
 
Ser pescador nas Berlengas implica um risco permanente e uma audácia heróica mas ser explorador de grutas também requer coragem. É preciso confiar muito e seguir passo a passo todos os passos de quem vai à nossa frente. Achei que não era capaz. Nunca fui muito corajosa em lugares sombrios e sempre tive medo de grutas escuras rodeadas de mar.
 
Estava a pensar desistir quando me desafiaram a continuar. Éramos onze em fila num corredor sem luz absolutamente nenhuma e era precisa tanta coragem para voltar atrás como para seguir em frente. Segui com eles, aflita com os meus medos. Talvez eles também tivessem os seus, não sei, não perguntei. No fim de um corredor escorregadio, frio e sinuoso, percorrido na escuridão total, ao som das vozes de comando dos que vão à frente, havia finalmente uma luz ao fundo.
 
Uma luz maravilhosamente transparente, verde e azul, que nos fez respirar outra vez mas não me livrou do pavor de ter que me atirar antes para um poço negro e fundo sem saber exactamente para onde me estava a atirar. Demorei a apanhar balanço mas quando finalmente saltei da rocha para a água funda senti um imenso alívio e nadei até chegar à transparência do mar. Vencer os medos na Gruta do Medo foi uma conquista enorme. Não sei se algum dia lá conseguirei voltar mas sei que um dia voltarei a esta ilha onde o tempo é de eternidade. 
 
       
publicado por Laurinda Alves às 20:53
link do post | comentar | ver comentários (6) | favorito
Matteo e o seu disco voador

 

Hoje subo para Moledo para os últimos dias de férias deste Verão incrívelmente luminoso, alegre e bem vivido. Vou de boleia com amigos muito queridos e esperam-me lá outros tão queridos como os que me levam.

 

Sei que estes dias vão ser 'a cereja em cima do bolo' e agora que falo em cerejas, dou comigo a sorrir para o écran por me lembrar que foram justamente as cerejas que nos tornaram tão amigos. Falo de umas cerejas especiais, que não se comem e apenas servem para enfeitar.

 

É uma história bonita e original que hei-de contar um dia. Hoje estou de partida e tenho pressa de chegar. Deixo aqui já com alguma nostalgia o filme dos malabarismos que o Matteo fazia na praia ao fim de cada dia.

 

Ah! E viva o Nelson Évora que nos fez chorar quando ele próprio chorou e nos comoveu pelo mérito, pela medalha, pela bandeira ao alto, pelo hino nacional em sentido e pelo silêncio profundo. Obrigada pela parte que me toca. Grande pinta, grande orgulho. Bravo!

 

 

publicado por Laurinda Alves às 08:00
link do post | comentar | ver comentários (6) | favorito
Quinta-feira, 21 de Agosto de 2008
A vida destas miúdas na ilha da Berlenga

 

 

A Joana e a Maria são as miúdas de quem tenho saudades. A Joana tem 13 anos e a Maria 16 e passam férias na pequena ilha da Berlenga desde que nasceram. Vivem ali uma vida muito simples mas muito preenchida, sempre cheia de aventuras e descobertas.

 

Os seus dias são passados no mar, a fazer mergulho, a explorar as grutas, a pescar grandes peixes ou a subir às rochas altas e escarpadas de onde dão saltos para a água. Ao fim do dia tomam banho no cais, onde apuram com invulgar elegância o estilo dos seus mergulhos de cabeça. Depois sobem ao ponto mais alto da ilha onde milhares de pássaros voam muito baixo e muito devagar e ficam ali entre eles ao pôr-do-sol. Voltam para casa à hora do vento, pelos trilhos desenhados com pedras que conhecem como as palmas das suas mãos. Sabem tudo sobre a ilha e contam histórias vividas agora e na infância com detalhes fascinantes que prendem a atenção e fazem sonhar. 

 

Tirando isto que acabo de contar, não acontece mais nada na ilha. Ou melhor isto que acabo de contar prova-me que acontece tudo naquela ilha. O essencial, quero dizer. Percebo a Maria quando diz que, por ela, vivia todo o ano na Berlenga.

 

 

publicado por Laurinda Alves às 13:13
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
Hoje tenho saudades destas miúdas

 

Agora que a ilha e o farol ficaram para trás, no mar distante;

agora que a casa é uma imagem real de pedra e cal gravada

para sempre na minha memória; agora que as duas irmãs já

dormem depois de terem subido ao cimo das rochas para ver

o pôr-do-sol e espantar os pássaros de braços abertos; agora

que estou outra vez deste lado do mar e sei que é para ficar,

sinto a falta daquele lugar e tenho saudades destas miúdas.

 

 

Apesar da distância hoje ainda adormeço e acordo na ilha.

 

publicado por Laurinda Alves às 02:18
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito
Quarta-feira, 20 de Agosto de 2008
O tempo também é o que fazemos com ele

 

Um dia hei-de escrever sobre a fabulosa casa da ilha e as

pessoas que a habitam mas não agora. Há uma intimidade

sagrada que deve ficar para sempre guardada. Mas também

há gestos e momentos que merecem ser revelados e por isso

sei que amanhã ou depois, com tempo, esta e a outra casa,

estes e os outros amigos, vão aparecer nas minhas linhas.

Para já deixo aqui plasmadas no silêncio do écran outras vidas. 

 

 

A vespa concentrada debruçada sobre a sua flor; os avanços

e recuos estratégicos da formiga que ensaia os passos para

transportar o bago de arroz; a gaivota que mede o horizonte antes

de levantar voo são um filme diário que nos escapa facilmente.

E é também este movimento formidável, este filme de todos os

dias, nesta escala individual que me ocupa e prende nesta ilha.

  

 

publicado por Laurinda Alves às 10:08
link do post | comentar | ver comentários (8) | favorito
Terça-feira, 19 de Agosto de 2008
O mar nas rochas de outras falésias

 

Adoro estar aqui numa casa cheia de amigos, rodeada de mar.

E adoro o movimento perpétuo das ondas a bater nas rochas.

A vida numa ilha também é isto: tempo para observar o mar.

 

 

publicado por Laurinda Alves às 10:48
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
Segunda-feira, 18 de Agosto de 2008
O barco e a gaivota a caminho da ilha

 

Hoje atravesso o mar para chegar a uma casa de sonho numa

ilha pequena, onde estão outros amigos que amo e com quem

vou ficar nos próximos dias. Continuo de férias, portanto.

Espero merecer tudo e tanto...

 

publicado por Laurinda Alves às 11:30
link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito
Domingo, 17 de Agosto de 2008
O último banho na tarde do último dia

 

Dia de ir embora, que pena. Este mar, estas pedras e esta

luz vão comigo. Connosco.

 

publicado por Laurinda Alves às 15:00
link do post | comentar | ver comentários (5) | favorito
Crónicas do Público ontem

 
Antes de publicar aqui as minhas crónicas do Público de ontem não posso deixar de concordar com o comentário ao post anterior, em que um leitor desconhecido se mostra indignado com a maneira abrupta como ontem cortaram o microfone aos Groundation. Tem toda a razão, não se faz.
 
A música dos festivais
 
A música deste Verão tem sido uma festa permanente e num par de meses estiveram em Portugal dezenas de bandas, cantores e compositores extraordinários. De Leonard Cohen a Kusturica, de Diana Krahl à Goldfrap, dos Kings of Convenience aos Chemical Brothers, de Lizz Wright à Bjork, o cartaz é variado e ambicioso. Os concertos do Jazz Fest foram muito bons, os do Sudoeste também (alguns foram mesmo inesquecíveis) e o Surf Fest, que começou ontem em Sagres com Massive Attack, entre outros, e acaba esta noite em grande com Groundation e Kusturica, também fica para a história.
 
É bom atravessar o Verão com a certeza de que os programadores musicais não perdem a oportunidade de pôr o nosso país na agenda das grandes bandas do momento e de alguns dos maiores cantores e compositores de sempre. Trazer a Portugal os bons, os muito bons e alguns dos melhores entre os melhores é uma enorme conquista. Levá-los para lugares tão remotos como a Zambujeira do Mar e a Praia do Tonel é admirável. Por tudo, mas também pela logística impressionante que envolve a organização de um festival de música.
 
No Sudoeste, por exemplo, as bandas actuaram às horas previstas mas todos os músicos exigiram dormir em Lisboa, coisa que implicou um esquema de carrinhas e motoristas permanentemente disponíveis para os levar e trazer. A exigência parece razoável dada a inexistência de hotéis suficientes (e suficientemente bons) para albergar em pleno Agosto as dezenas de músicos e as centenas de técnicos que fizeram do Festival do Sudoeste deste ano mais um sucesso. Mas assim como as camas são escassas, também as carrinhas e respectivos motoristas são um bem que não abunda por aquelas paragens no pico da saison e esta realidade teve contornos cómicos. Não trágicos, felizmente.
 
Luís Montez, o homem da Música no Coração e um dos grandes organizadores dos maiores festivais de música, contou-me alguns detalhes no backstage enquanto as bandas actuavam e é fascinante perceber tudo o que acontece do outro lado dos palcos. E é um privilégio único acompanhar alguns artistas na entrada e saída dos concertos e poder assistir por breves momentos à sua performance em cima do mesmo palco onde estão a tocar e a cantar. Nós na sombra, claro, eles na luz.
 
A proximidade dos músicos, a sua energia contagiante e a intimidade daquelas vozes tão conhecidas que nessa noite cantam só para nós tem um efeito poderoso, quase mágico.
A incrível mistura de sons mil vezes ampliados com luzes que varrem a terra e iluminam o céu mais a imensa plateia que dança, canta, aplaude e pede mais é uma imagem poderosa que fica para sempre. Especialmente quando os músicos são muito bons, quando nós sabemos as letras de cor e quando conhecemos bem os seus ritmos. Ouvir os Massive Attack na praia com a lua quase cheia foi um arraso. Esperar por Kusturica nesta mesma praia, esta noite, já com a lua inteira é cinema.
 
 
 
 
 
 
A vida, segundo Seu Jorge
 
O facto de ter estado muito perto de alguns dos músicos destes festivais recordou-me o encontro recente com alguém que admiro profundamente e com quem passei uma tarde inteira à conversa. Falo de Seu Jorge, cantor e compositor brasileiro, que entrevistei no seu próprio estúdio, na sua casa de São Paulo.
 
Conheci Seu Jorge em Lisboa, nos bastidores do Coliseu, no fim do concerto que deu quando esteve a última vez em Portugal. O espectáculo foi memorável e Seu Jorge foi obrigado a voltar uma e outra vez ao palco. Ele e os seus músicos incendiaram o Coliseu e fizeram a plateia desabar em palmas entre cada actuação. No fim, a assistência recusou-se a abandonar a sala e foi a muito custo que o espectáculo terminou.
 
Os rapazes que acompanham Seu Jorge em palco não são apenas músicos. Também dançam e representam, num misto de encenação teatral e musical que tem ar de improviso do momento, quase brincadeira de sótão e, por isso mesmo, se torna ainda mais contagiante. Muitos destes rapazes moram na favela onde Seu Jorge tem uma escola de música e percebe-se no swing com que dançam e tocam todo o trabalho que o cantor tem feito com eles. As suas origens permanecem intactas e também por aí se mede o alcance da obra de Seu Jorge. Não se trata de fabricar stars nem de desenraizar ou criar ilusões mas sim de ajudar a crescer, de centrar, orientar e dar um sentido à vida de tantos como ele que não tiveram nada na infância nem na adolescência.
 
Seu Jorge assume a sua condição de favelado com uma dignidade impressionante. O tema da pobreza extrema é-lhe muito caro e nunca evita falar dos tempos em que não havia rigorosamente nada em sua casa. Nada para comer e nada a esperar.
“ Houve tempos em que éramos tão pobres que já ninguém nos fiava comida sequer. Foi terrível. A minha mãe viveu esta miséria toda com os filhos e nunca perdeu a sua bondade. Sempre nos ensinou os valores certos.”
 
Ouço-o falar da infância, das dificuldades, da falta que lhe fazia um lápis, um caderno e um livro para ir à escola e fico em silêncio.
“Era difícil estudar porque eu tinha que estar sempre a espreitar no caderno e nos livros dos colegas.”
 
E sonhos? Mesmo antes de lhe fazer a pergunta ele conta com ar sonhador:
“O meu maior sonho sempre foi dar uma vida digna à minha mãe. Comprar-lhe uma casa, agradecer tudo o que fez por mim e por nós. Foi muito dura toda a sua vida. Depois o meu outro sonho de menino foi ser músico e agora, que sou pai, é dar um futuro bom às minhas filhas.”
 
A mãe vive há anos na casa que o filho lhe comprou no Rio de Janeiro, a cidade onde sempre moraram; a música é a vida de Seu Jorge e as suas filhas têm uma vida boa e muito feliz. Seu Jorge fala devagar, conta as coisas fáceis e difíceis com a mesma naturalidade e fala de tudo aquilo que faz com alegria e emoção. Às vezes pára de falar e o silêncio é leve e musical porque ele retoma a conversa com um ou dois versos de uma canção que anda há muitos anos no seu coração.
 
“Qual foi a primeira música que me chegou aos ouvidos? Tem graça a pergunta. Deixe-me pensar…foi Fly Robin Fly, eu era criança e aquele som, aquelas cordas ficaram no meu ouvido. Fiquei anos procurando essa música porque em casa eu não tinha rádio nem condições para saber quem a tocava. Mas nunca mais saiu do meu ouvido, até que um dia eu descobri.”
 
Luz, a filha mais nova de Seu Jorge chega nesse momento a casa e ouve-se a porta abrir e ela a pousar a mochila no chão. Luz corre à procura o pai no estúdio de gravação. Ele suspende a conversa, abre os braços para ela e abraça-a com força. Ela ri e conta-lhe as coisas da escola que queria muito contar. Ele ouve com atenção e faz perguntas como se fosse também uma criança. Ela responde e ficam os dois naquele idílio durante longos minutos.
 
Depois Luz percebe que o pai está a trabalhar e aninha-se no seu colo muito quieta e calada, como se quisesse ouvir e perceber tudo o que ele diz. E Seu Jorge pega no violão, aconchega a filha nos joelhos e canta com ela. Para ela. Comove ouvi-los cantar. Ela com uma vozinha infantil e o seu cabelo afro (“é lindo, você não acha?!” pergunta-me com um sorriso rasgado de orgulho) e ele com voz grave, rouca, profunda e bem colocada.
Vê-los aos dois naquela intimidade de pai e filha a cantar um para o outro, enche de ternura e emoção. Se agora fechar os olhos ainda os vejo e os ouço cantar com a mesma pureza do momento.
 
“Sabe o que é que eu gosto?” pergunta-me Seu Jorge. “Disto. De cantar, de ser pai das minhas filhas, de viver esta vida nova depois de ter vivido a antiga”.
A vida antiga acabou pouco depois da morte do irmão, numa chacina de favela. No dia em que mataram o irmão, Seu Jorge sentiu pela primeira vez necessidade de vingança. Saiu de casa trespassado de dor e de raiva. Teve a sorte de ninguém se atravessar no seu caminho e de ter entrado num café da favela onde alguém cantava e tocava violão. A voz desse homem diluiu quase toda a sua dor, fez diferença no seu dia e mudou o rumo da sua história.
 
A vida não voltou a ser o que era mas foram precisos anos para chegar onde chegou. Hoje Seu Jorge é um cantor idolatrado, um compositor célebre, um intervencionista apaixonado, um actor de culto, um homem tranquilo, um cidadão consciente e, acima de tudo, um pai realizado. Faz muitas coisas ao mesmo tempo, divide-se entre o cinema e a música, é actor mas também compositor de ‘trilhas sonoras’, tem uma escola, dá espectáculos e faz concertos pelo mundo inteiro mas nunca fica demasiado tempo longe de casa. Muito seguro no palco, sabe que tem uma voz poderosa e transformadora mas lembra-se muitas vezes dos seus tempos de adolescente.
 
“Fui muito tímido, sabe?! Mas depois percebi que quem não se comunica se trumbica que é o mesmo que dizer que quem não fala das suas coisas e dos seus problemas, perde a oportunidade de os resolver. Se eu não falar nada, os outros não me podem ajudar em nada e eu fico para trás. Aprendi com a vida que não podemos deixar de falar, de comunicar, de pedir ajuda e de ajudar.”
E é porventura isto que Seu Jorge faz melhor. Comunicar ideias, transmitir valores, criar laços, construir pontes e realizar sonhos. Cantar a vida, quero dizer.      
   
publicado por Laurinda Alves às 00:25
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito
Sábado, 16 de Agosto de 2008
Ontem o Kusturica foi bom demais

 

A fotografia não é minha nem é do concerto de ontem mas as minhas ficaram péssimas porque o concerto foi bom demais e esqueci-me da máquina no bolso.

Só no fim é que me lembrei mas já era tarde demais. Antes da banda de Kusturica houve mais dois concertos espectaculares: Gonzalez (o novo Cat Stevens) e Groundation. Muito bons.

publicado por Laurinda Alves às 22:04
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
.pesquisar
 
.tags

. todas as tags

.posts recentes

. MUITO OBRIGADA A TODOS PE...

. CURSOS DE COMUNICAÇÃO NO ...

. Curso de Comunicação adia...

. Se tiver quorum ainda dou...

. O BENTO E A CARMO HOJE EM...

. HOJE NO PORTO: SOBREVIVER...

. MÃES QUE NÃO CHEGAM A VER...

. Esta miúda vai longe!

. Alegria!

. Ladrões e cavalheiros

.arquivos
.mais sobre mim
.subscrever feeds