Sexta-feira, 4 de Julho de 2008
Advogados do diabo

Vi há dois dias numa reportagem no Telejornal da RTP dois advogados falarem dos casos que defendem. Das pessoas que defendem, para ser mais exacta.

A tentação é usar a palavra 'criminosos' mas tenho que me conter. Ou, pelo menos, tentar.

 

Há crimes que mexem visceralmente comigo e, julgo, que com a maioria dos mortais.

Violações, pedofilia, todas as formas de tortura e agressão (especialmente quando as vítimas são crianças e velhinhos), roubar os pobres e por aí adiante são coisas que tenho a maior das dificuldades em perdoar e sei que não sou a única a sentir esta repugnância visceral.

 

A reportagem que vi há dois dias era justamente sobre o fim do julgamento do 'caso do padrasto' que agrediu o enteado e o deixou cego, surdo e tetraplégico para sempre.

A criança tem dois anos e foi sucessivamente agredida e seviciada por este homem que agora foi condenado a sete anos de cadeia.

 

A mãe da criança tem vinte anos e também foi condenada por não denunciar o 'companheiro' à polícia. Não ficou provado que ela soubesse dos maus-tratos de que o filho era vítima mas aqui entre nós é impossível que não visse o que certamente estava à vista de todos.

 

O crime é horrendo e as sequelas são graves e irreversíveis. O homem está na cadeia e a mulher já cumpriu pena suspensa e vai voltar a ficar com o filho que agora está entregue aos avós maternos. Os advogados de defesa do padrasto e da mãe fizeram o seu papel e não contesto uma linha de um processo que ainda por cima desconheço no detalhe. Mas confesso o meu choque quando ouvi a advogada da mãe declarar aos jornalistas que ela não sabia que o filho era maltratado.

 

E também fiquei chocada com a entrevista do advogado do padrasto que acha que deve rever a sentença porque lhe parece pesada. Imagino que um e outro estejam a fazer o seu papel de advogados (neste caso e para mim, de advogados desta espécie de encarnação do diabo) mas há uma coisa que lhes ficava melhor do que dar entrevistas à saída do tribunal. Era ficarem calados e não defenderem o indefensável. 

O silêncio é um direito universal e neste caso tinha sido melhor para todos.  

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publicado por Laurinda Alves às 16:00
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As vidas dos outros

 

Homem a descascar mandioca no Jardim Agrícola Tropical, em Sta Maria de Belém.

Uma imagem rara numa cidade como a nossa, captada por um olhar igualmente raro.

Gosto dos homens desta fotografia. Do que está sentado do lado de lá, e se vê apesar da sombra da tela, e do que está do lado de cá, a olhar através do olho da máquina.

 

Este jardim está meio esquecido-meio abandonado. Não sei se a metade do abandono é mais grave do que a metade do esquecimento mas sei que dói ver um jardim assim.

 

O João diz que as árvores mais velhas choram e eu acredito. Mesmo triste, o jardim é lindo e o trabalho que o homem faz sentado é poético. E cinematográfico também.

 

 

publicado por Laurinda Alves às 07:00
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Quinta-feira, 3 de Julho de 2008
Menino do Rio trinta anos depois...

 

 

 

Sabe bem acabar o dia com música. E sabe bem ouvir um som que tem quase trinta anos mas parece de hoje. Hoje sigo embalada por esta onda revivalista dos anos 80...

Obrigada Duarte, muita querido. (os leitores mais puristas que insistem em ler o que nem sempre escrevo que me perdoem agora o feminino impossível da palavra 'muito'. Pode ser? Obrigada também!)

publicado por Laurinda Alves às 20:27
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Aqui dentro há um piano de cauda

 

Atrás desta porta há uma sala e dentro da sala há um piano

de cauda em silêncio, à espera de ser tocado pelos alunos

que hoje estão a fazer os exames finais de 5º Ano de Piano

na Academia dos Amadores de Música, em Lisboa.

 

 

 

Estático e silencioso, este piano assusta quem está cá fora

diluído em nervos antes de tocar as peças que estudou.

 

Fui assistir ao exame da Joana, minha afilhada querida, que

tocou maravilhosamente. Bem sei que não sou nada imparcial

(muito pelo contrário, sou radicalmente parcial!) mas também

sei que há coisas que fazem toda a diferença. 

 

Falo da segurança e da entrega com que se toca piano, falo da

inspiração do momento mas acima de tudo do talento, do dom,

da maneira como a música habita quem aprende piano. E falo,

claro, das horas de estudo e da perseverança que é preciso ter

para abdicar de tanta coisa, numa idade em que apetece muito

mais ir para a praia do que ficar oito horas por dia a tocar.

  

Não me cabe avaliar a audição desta tarde mas se tivesse que

pontuar dava-lhe nota máxima. Foi tudo muito bom e a Joana

nem sequer parecia nervosa. Mas estava, e muito. Bravo!

 

Como não se pode filmar nem fotografar durante as audições,

aqui fica o movimento nervoso dos alunos entre exames...

 

 

publicado por Laurinda Alves às 17:30
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Incompetente para tanto céu

  

 

Depois das entrevistas dos políticos nada melhor do que um

bom livro. Continuo com os Venenos e Remédios do Mia.

Vou poupando a leitura porque o livro é muito bom, as frases 

ficam na cabeça e os diálogos também.

 

Sidónio olha para cima, incompetente para tanto céu. Aquelas

nuvens não são as suas, e mesmo que fossem as de Lisboa,

ele não saberia ler nelas nenhuma previsão meteorológica.

 

Hoje aconteceu-me o mesmo, olhando para o céu de Lisboa,

com as nuvens que são as minhas...

Deixo aqui um diálogo sobre os sonhos, para vivermos o dia

que se segue com mais humor e poesia.

 

- Chovia aquela noite...

- Chovia no sonho?

- Oh, Doutor, o senhor sofre mesmo de poesias: então não chove

nos sonhos?

- Eu, poesias?

- Não é de agora. O senhor já anda poetando há muito tempo. Por

exemplo, quando o senhor me aconselha para eu cortar nas bebidas...

- Acha que isso é poesia?

- Então não é? Cortar-se na bebida? A gente pode cortar nas árvores,

cortar na roupa, cortar sei lá onde, mas diga lá, Doutor, que faca corta

um líquido? Só a faca da poesia.

 

publicado por Laurinda Alves às 00:55
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Quarta-feira, 2 de Julho de 2008
O Pai Natal existe porque Sócrates acredita!

 

Apesar do conforto do canto da casa onde fui ver a entrevista

ao Primeiro-Ministro esta noite, ficou o desconforto de muitas

coisas ditas e omitidas ao longo de uma hora de conversa.

Primeiro as coisas ditas: "não faço cálculos, tenho convicções".

Sócrates diz que não é calculista e não pensa nas eleições do

próximo ano. O Pai Natal existe porque Sócrates acredita, claro.

 

"Grande parte do nosso esforço governativo tem sido olvidado".

Foi tamanho o esforço de eloquência do PM que se 'olvidou' ele

próprio que o verbo português, dos portugueses, é "esquecer". 

O verbo "olvidar" existe mas mais na linha do amigo Zapatero,

a quem nunca ocorreu usar publicamente o verbo "esquecer".

 

Apesar da confiança e do sorriso sempre pronto, para tentar o

contraponto estratégico com o ar grave e solene de Manuela

Ferreira Leite, o Primeiro-Ministro não convenceu a legião de

aflitos e de indignados que engrossam fileiras de norte a sul

do país de que é possível estar optimista.

Não é e todos sabemos, a começar por ele próprio.

 

Finalmente e porque não sou analista política nem especialista

em finanças e contas públicas (nem tenho esta ambição, note-se)

houve uma palavrinha sabiamente evitada ao longo da entrevista. 

Ninguém proferiu a palavra "desemprego" e se formos a ver bem

e se fizermos as contas, esta é uma palavra-chave no futuro próximo.

Daí o desconforto de ver um PM tão sorridente e de ar tão confiante.   

 

publicado por Laurinda Alves às 22:58
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Só tive um susto a sério!

 

 

Finalmente consigo publicar a entrevista do Bento Amaral. Umas vezes o upload dos vídeos é mais demorado que outras...

 

Bento Amaral está em Cascais para disputar o Campeonato do Mundo de vela adaptada e eu aproveito estas duas semanas para estar com ele, para pôr a conversa em dia e para partilhar alguns momentos (e nervos!) nos bastidores de mais um campeonato mundial.

 

As regatas do Challengers começam já na próxima 2ª feira e os barcos em competição são uma absoluta estreia para o Bento, que nunca competiu em barcos de três cascos. A sua classe são os Skud18 e foram estes que o levaram três vezes ao pódio nos últimos anos.

 

Admiro a sua calma, e a assurance com que ele se faz ao mar, sabendo que a sua condição de tetraplégico lhe limita incrivelmente os movimentos. Mais do que ser um campeão do mundo e um atleta olímpico em vésperas de partir para Pequim, Bento é um grande homem!

 

Para quem não sabe, o Bento teve o acidente em 94, casou há um ano com a Carmo, é engenheiro alimentar e é o chefe dos Provadores do Instituto de Vinhos do Douro e do Porto, o lendário IVDP que controla e garante a qualidade destes vinhos que são, como sabemos, uma imagem de marca de Portugal. Tudo o que o Bento faz tem muita pinta! A começar por ele próprio...

 

publicado por Laurinda Alves às 18:34
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Bento Amaral no campeonato do mundo

 

Bento Amaral, 39 anos, ficou tetraplégico aos 25 a fazer uma

carreirinha no mar. Desportista e velejador de toda a vida, não

desistiu. Persistiu, foi até ao fim e venceu em toda a linha!

Campeão do mundo de vela adaptada em 2005, subiu mais

duas vezes ao pódio. Vive no Porto mas esta semana está em

Lisboa a preparar as regatas do campeonato do mundo de

Challenger que começa já na segunda-feira, em Cascais.

Fui ter com ele e gravámos uma conversa que publico aqui

mais logo. Para já deixo duas fotografias e um pequeno filme.

 

 

Eu e o Bento somos amigos há anos e confesso também aqui

a minha admiração por ele. Pela sua alegria, pela sua maneira

de ser, pela profundidade a que vai na vida, pela capacidade de

superação diária, pelo testemunho luminoso que é para todos e

pela sua infinita generosidade. Comove-me sempre e muito.

O filme que se segue mostra o David a explicar ao Bento como

funciona o sistema eléctrico do barco em que ele vai competir.

Impressiona-me sempre imaginar o Bento no mar, sozinho num

barco, a enfrentar ventos e marés e a transcender todas as suas

limitações físicas. Sem medos e com uma coragem invulgar.

 

 

publicado por Laurinda Alves às 00:37
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Terça-feira, 1 de Julho de 2008
Ser padre todos os dias cansa?

 

 

Ser padre todos os dias cansa? Um padre pode abraçar e ser abraçado? E ir à praia, despir a roupa e ficar em fato de banho não lhe traz embaraços perante os amigos? Sublimar os afectos pode dar taras? Estas e outras perguntas não podem ser feitas a qualquer padre.

 

Felizmente Nuno Tovar de Lemos não é um padre qualquer. Engenheiro de formação e padre jesuíta por vocação, tem 47 anos, escreve livros, canta, toca viola, compõe música e escreve as suas próprias letras. Trabalha há anos a fio em centros universitários frequentados diariamente por nuvens de estudantes.

 

Os centros universitários criados pelos jesuítas são verdadeiras 'fábricas' de talentos e animadores de programas sociais, culturais e espirituais. Os padres jesuítas têm uma formação média de 12 anos, com longos períodos de estudo dentro e fora de Portugal, coisa que lhes dá uma preparação invulgar e muito abrangente. Conhecidos dentro da Igreja por terem o dom da comunicação, sabem traduzir a complexidade da realidade bíblica por palavras simples e concretas, muito rentes à realidade do dia-a-dia.

 

Para além de ser um padre inspirado e inspirador com o dom da palavra, Nuno Tovar de Lemos é um grande amigo. Ainda bem que há amigos a quem podemos fazer estas e outras perguntas.

 

publicado por Laurinda Alves às 00:05
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