Quarta-feira, 9 de Julho de 2008
Os preconceitos, segundo Ricardo Pereira

 

 

Ricardo Pereira, actor, numa entrevista acima de tudo sincera. Ricardo acabou de fazer de namorado-apaixonado de uma rapariga muito gorda, que é rejeitado socialmente pelos pares e amigos por isso mesmo: por se ter apaixonado pela Gorda.

 

A peça esteve em cena no teatro Villaret e foi um sucesso de bilheteira. Mais do que ter esgotado quase todas as noites, deixou as sucessivas plateias a pensar nos estigmas, nos preconceitos, naqueles que são socialmente excluídos por serem de alguma forma diferentes.

 

A Gorda obrigou o próprio Ricardo a confrontar-se com os seus próprios preconceitos e é com sinceridade que o actor assume os seus limites.

Ricardo Pereira está de partida para o Brasil onde vai morar e trabalhar no próximo ano. Aos 28 anos tem uma carreira notável e uma projecção admirável num país onde há milhares de bons actores. Vai-lhe fazer bem voltar ao Brasil, onde já fez cinema e agora vai gravar a sua quarta novela, mas também vai fazer falta ao público português. 

 

 

publicado por Laurinda Alves às 01:03
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Terça-feira, 8 de Julho de 2008
As boas e as más acções

A minha mãe tem frases que me ajudam incrivelmente a viver. Uma delas é sobre dar tempo ao tempo e aplico-a muitas vezes, até porque a espera a mim deixa-me muitas vezes impaciente. Lembro-me de um verão termos atravessado de carro a serra algarvia com a minha mãe no banco de trás, com uma perna e um braço engessados, num desconforto total.

 

Ao fim de longas horas de viagem e de sucessivos enganos numa estrada mal sinalizada (como são quase todas as estradas portuguesas) e muito enjoada pelo facto de ir atrás numa posição impossível pela assimetria dos gessos (partiu o braço esquerdo e a perna direita) a minha mãe declarou com aquele sorriso desarmante, que nunca se desfaz, que não fazia mal estarmos a demorar tanto porque era 'Deus e a vida a darem tempo para que as coisas certas acontecessem, na hora certa'. A frase ficou a fazer eco até hoje.

 

Outra frase que me acompanha tem a ver com as boas e as más acções. A minha mãe diz sempre: as 'más acções ficam com quem as pratica e as boas também!'.

Lembrei-me desta frase hoje por ter dado boleia a duas senhoras perdidas a caminho da RTP, onde eu própria estou agora porque vim participar no debate sobre crianças e jovens em risco no programa Sociedade Civil, e uma delas ter contado (também a rir) que acabara de dar uma gorgeta ao taxista de 5 euros porque se enganou na nota.

 

O taxista recebeu a nota de dez para pagar 4.90 e como a senhora disse para ficar com o troco, julgando que lhe estava a dar uma nota de cinco, ele fez de conta que não percebeu e guardou uma gorgeta maior do que a corrida. A senhora distraída e bem disposta, apesar de ter acabado de ficar defraudada por um taxista que a deixou na rua errada e lhe levou cinco euros indevidos, apenas comentou: 'já lhe paguei o almoço, espero que tire bom proveito!'

 

Como diz a minha mãe, as más acções ficam com quem as pratica. As boas também.

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publicado por Laurinda Alves às 13:33
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Ainda os cantoneiros desta noite

 

À luz do dia mas ainda sobre os cantoneiros que limpam as ruas da cidade

durante a noite, queria acrescentar só mais uma coisa ao meu imenso e

sincero obrigado e esta legião de homens que limpam o que todos sujamos.

 

Muitas vezes acontece-me chegar a repartições públicas, a guichets onde trabalham

funcionários cujas funções são justamente atender o público, e encontrar pessoas

antipáticas e pouco disponíveis para o serviço para o qual são pagas.

 

Sublinho este facto para que outro fique ainda mais sublinhado: falo da simpatia

e da cordialidade que estes homens revelam, mesmo trabalhando em horas que

não apetece, com lixos e cheiros nauseabundos que se colam à pele.

 

Ou seja se há alguém que podia andar mal-disposto com os outros eram estes 

funcionários e não os tais a quem nunca ninguém fez mal, nem sujou nada que

eles tivessem que ir a seguir limpar.

 

publicado por Laurinda Alves às 08:46
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Tiro o chapéu aos homens das limpezas!

 

 

Cheguei a casa tarde, noite cerrada, à hora a que os homens das limpezas recolhem o lixo e lavam as ruas da cidade. Cruzo-me com eles muitas vezes, nunca são os mesmos e são todos simpáticos.

 

Muito educados, gentis e tolerantes, surpreendem-me sempre. Muitas vezes sou obrigada a avançar lentamente atrás deles pela rua acima e tenho tempo para observar as suas rotinas. Detenho-me nos seus gestos e na maneira como lidam com as pessoas que vêm da noite ou passam distraídas nas ruas, sem reparar que eles fazem o trabalho que ninguém quer fazer.

 

Enquanto vou no conforto do meu carro, a ouvir a minha música ou a falar com quem quero e gosto, eles viajam pendurados em camiões com cheiros nauseabundos e passam horas a fio a mexer no lixo e a recolher coisas inenarráveis deixadas pelas pessoas nos passeios e nos caixotes. 

 

Hoje cruzei-me à entrada da minha rua com Nuno Martins, 43 anos, casado, um filho de 16 anos (a idade do meu filho), que é cantoneiro de limpezas da Câmara Municipal de Lisboa. Nuno trabalha invariavelmente de noite e lava as ruas que ficam sujas pelo movimento habitual das pessoas e carros mas também lava muitas porcarias abomináveis. Nojentas, mesmo.
 
Falo dos donos de cães que os levam a passear e não apanham o cocó que eles fazem nos passeios, mas também falo de mil e uma coisas mais ou menos inconcebíveis que as pessoas escandalosamente deitam para a rua, em plena cidade.
 
Não resisti a sair do carro e a pedir-lhe uma breve entrevista para o blog. Hesitei se o havia de fazer por pudor em devassar a sua privacidade, mas depois decidi avançar porque vivo eternamente agradecida a este e outros homens que desconheço, e todas as noites tornam esta cidade um lugar possível para morar.
 
De facto não há trabalhos mais ou menos dignos. O que há é pessoas que dão dignidade a tudo o que fazem. Nuno Martins respondeu às minhas perguntas hesitantes sem deixar de fazer o que estava a fazer e mais uma vez leio neste gesto um escrúpulo e um profissionalismo invulgares. Ou seja para além da dignidade que dão ao que fazem, não brincam em serviço!
 
P.S.: ao fazer o upload da entrevista verifiquei que o filme ficou ainda mais escuro do que já estava no original. É pena porque o sorriso e os gestos de Nuno também eram eloquentes. Fica mais resguardada a sua privacidade, afinal. 
 
publicado por Laurinda Alves às 01:37
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Segunda-feira, 7 de Julho de 2008
A boa notícia do dia!

Dia vivido a mil, sem parar, com tudo milimetricamente gerido e as coisas literalmente 'cosidas' umas nas outras. Sem respirar, quase.

 

Voltei agora mas vou já sair outra vez. É segunda-feira, estou cansada e a precisar de férias mas o meu dia ainda só vai a meio. Ainda falta a outra metade! As reuniões do fim da tarde vão entrar pela noite dentro e, como eu, há milhares nesta cidade. E no país e no mundo!

 

Não me queixo. Apenas enuncio factos que são comuns a todos nós, os que atravessamos a vida na vertigem diária que se resume em 3 palavras: casa-trabalho-casa.

 

A boa notícia do dia? Chegar ao blog, constatar que alguém, por alguma razão, decidiu pô-lo hoje em destaque no Sapo e, por isso, ter a feliz surpresa de ter tido até agora quase duas mil visitas. Espectacular! Adoro estes picos de visitas e fico entre o radiante e o nervosa porque olho para o blog e apetece-me logo pôr nas páginas de entrada o que acho melhor.

 

É como quando recebemos alguém em casa pela primeira vez: queremos que esteja tudo em ordem e o mais bonito possível. Flores frescas nas jarras, a luz certa, a música ideal, etc, etc.

 

Como estou a mil e hoje nem sequer escrevi nada de especial para o blog, vou fazer o que se faz em casa quando recebemos visitas especiais: vou pôr à vista o que gosto mais do que aqui tenho. Vou re-publicar três entrevistas recentes que adorei fazer a três pessoas que adorei conhecer. Boa?! Obrigada pela visita e voltem sempre!   

 

 

 

 

 

 

publicado por Laurinda Alves às 18:05
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Acordar para a realidade

 

É bom adormecer e acordar, um dia atrás do outro, com a certeza de que este pesadelo acabou e o sonho de tantos, há tantos anos, se tornou realidade.

Falta libertar os outros 700 reféns!

 

publicado por Laurinda Alves às 01:20
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Domingo, 6 de Julho de 2008
O lugar do silêncio e outras coisas

 

 

Isto era um antigo posto de electricidade numa quinta a sul

de Lisboa. Era muito mais do que uma caixa metálica sem

graça, era um verdadeiro obstáculo na paisagem porque 

além de estar desactivado e ser feio, ocupava espaço visual. 

Nesta quinta, perto de Palmela, fazem-se retiros de silêncio

e existem capelas grandes e pequenas mas não havia uma

ermida. Até ao dia em que as Irmãs Escravas, que lá moram,

decidiram pedir a um arquitecto que transformasse o posto

eléctrico num espaço de oração e silêncio.

O arquitecto pintou a estrutura metálica de cinzento, limpou o

terreno em volta, delimitou um patamar de entrada que cobriu 

de pedrinhas brancas e reconstruiu o interior do antigo posto.     

Manteve todas as árvores que já havia e o reflexo das mais

próximas vê-se agora no vidro da porta de entrada.  

 

 

 

Esta porta tem um som e um ritmo próprios quando se abre

e fecha. Faz uma espécie de vento surdo que não chega a

perturbar quem está lá dentro a rezar.

Um som e um movimento lento que não resisto a mostrar.

 

 

Sou 'impressionista', gosto de fragmentos, olhares, gestos

e coisas avulsas que me tocam e é por isso que passo

a vida a gravar 'impressões'. Estive em Palmela com amigos

este fim-de-semana. O silêncio foi demorado e rezado, claro.

Nesta ermida a luz vem de cima e ilumina um espaço branco,

de ângulos rectos e gosto depurado.

A estética também importa quando se trata de fazer silêncio. 

  

 

Para além do vidro da porta de entrada e da clarabóia no 

tecto existe uma pequena janela quadrada, rente ao chão,

por onde se vê como cresceram as guias de vinha virgem

que o arquitecto se lembrou de mandar plantar há um par

de anos, para cobrir o posto eléctrico e transformar um sítio

banal espaço muito especial. Um verdadeiro lugar sagrado.

 

 

O nome do arquitecto inspirado? Bernardo Pizarro Miranda.

 

publicado por Laurinda Alves às 20:44
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Tea time hoje e sempre!

fotografia de João Francisco Moura, in Flickr

 

Gosto de chá mesmo nos dias de calor. Lembro-me do chá de menta

do deserto, que tomei nas sombras ardentes dos muros decadentes.

 

Gosto de chá sempre e também gosto do sabor da água quente.

Mesmo quando não ferveu com ervas perfumadas e sabiamente cortadas.

 

Gosto do chá fresco dos domingos, tomado na varanda com os amigos. 

E gosto de acordar de manhã com a certeza deste chá do fim da tarde... 

publicado por Laurinda Alves às 10:00
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Sábado, 5 de Julho de 2008
Não te esqueças do que ias dizer-me

 fotografia de João Francisco Moura in Flickr

 

Mais um fim-de-semana de sol e tempo para estar com tempo.

Vou-me apagar durante o dia todo e volto amanhã.

Deixo aqui umas frases escritas por Rui Chafes

no seu livro O Silêncio De...

 

 

Não te esqueças do que ias dizer-me...

Todos somos exemplos uns para os outros,

não é verdade? Dessa forma construímos o

nosso caminho.

Na noite passada tentei encontrar-te nos

meus sonhos, mas não estavas lá.

publicado por Laurinda Alves às 09:00
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Sexta-feira, 4 de Julho de 2008
Crónica do Público de hoje

 

 (Textos publicados no jornal Público de hoje)
 
Vimos uma catedral!
 
Entram e saem da praia por caminhos diferentes das pessoas que vão e pousam na areia. Vestem-se onde os outros se despem e enfiam fatos grossos, insuportavelmente quentes, no pico do calor. Não usam pranchas porque naquela praia nem sequer há ondas.
Levam barbatanas e óculos com tubo de respirar. Só. Não precisam de mais nada para mergulhar.
 
Afastam-se no mar em direcção às rochas altas e demoram a chegar ao sítio das grutas que conhecem e exploram ano após ano. Mal começa o Verão, começa a inquietação para ir àquela praia e para conferir as horas das marés. Certas grutas só têm acesso com certas marés mas eles sabem isso há muito tempo. Cresceram a observar os peixes dentro de água, a mergulhar com eles no mar gelado, azul-imenso, que se fosse quente seria como o mar da Grécia. Conhecem a rocha escarpada e quase todos os perigos que afundam nas águas aparentemente tranquilas, de ondas mansas.
 
Vão a pé pelas pedras redondas e depois nadam sem se cansarem, até desaparecerem no horizonte líquido. Antes de irem dizem sempre a direcção que tomam e as horas a que voltam. Tem que ser porque apesar de tudo correm riscos. A serra é muito bela mas também muito enganadora e naquele mar calmo que cerca as rochas e inunda as grutas já ficou gente.
 
Quando são horas eles voltam à praia e contam o que viram. São rapazes crescidos, de ombros largos e voz grossa mas falam das suas descobertas como se ainda fossem crianças.
- Vimos uma catedral!
E explicam com detalhes fabulosos como era a gruta. E eu mergulho com eles nas águas geladas e sigo-os mar adentro até chegarmos às rochas. E vejo tudo o que eles viram enquanto estiveram naquele mundo submerso, onde as pedras brilham e os peixes deslizam rente aos ombros. Vejo perfeitamente as colunas de luz de que me falam, as cúpulas desenhadas no alto, os claustros esculpidos na rocha, os corredores estreitos, as passagens escuras e a claridade súbita, o verde e o roxo das algas, o azul transparente a toda a volta, os caranguejos desconfiados, os peixes sentinela, as portas abertas e as portas fechadas, as salas do meio, os degraus que sobem e os buracos escuros que ficam sempre por explorar. Ouço-os falar e fecho os olhos para ver melhor o que me estão a contar. 
 
Um silêncio de maravilha

 

 
Abro os olhos quando suspendem a conversa para voltarem ao mar e vejo-os todos muito crescidos a rir e a mergulhar. Things Change. David Mamet tem razão, as coisas mudam. Mesmo quando parecem as mesmas.
 
Volto a fechar os olhos porque há demasiada luz no ar. Fico quieta, esquecida de todos, até sentir o vento fresco que desce da serra atrás da praia. Sei que a seguir ao primeiro sopro do vento da tarde a sombra cai muito rápida e corre a areia ao comprido, numa linha que se junta ao mar. Num instante deixa de haver sol e é este arrepio de frio que me diz que são horas de voltar. Voltamos.
 
O caminho da serra cheira a esteva com sal, mais aquele indizível perfume mineral do musgo que cresce nos penedos altos. Vamos por montes e vales até à curva da estrada onde a falésia inteira se inclina sobre o mar grego. Paramos e cumprimos ali uma espécie de ritual. Um silêncio sagrado de espanto e maravilha naquele lugar de culto improvisado.
 
Depois da curva vem o vale onde arde o entardecer e brilha a poeira. Suspensa no ar, parece uma coisa bíblica. Uma poeira antiga, dum tempo imemorial que nunca chega a assentar nem se sabe explicar. Passamos devagar para não perturbar a quietude do vale nem despertar os deuses que guardam aquele lugar.
 
O convento
 
A meio da encosta verde, de frente para o mar azul, o convento parece ainda mais branco. O contraste imaculado da cal das paredes no verde sobre o azul líquido torna tudo ainda mais belo. O céu cobre as cores de uma transparência luminosa e as coisas ficam muito definidas.
 
A geometria dos telhados, os ângulos das paredes e o cimo dos muros têm agora os contornos desenhados pela sombra repentina que desceu do alto da serra. Ao entardecer o convento revela o silêncio grave de uma intimidade rezada, vigiada, contemplada. Solene como os monges que o habitaram é simples como eles.
 
Celas quadradas, despojadas, cada uma com uma janela estreita em frente e uma porta para a rua. Lá dentro tectos muito baixos, chão de pedra e um espaço construído para a solidão e a meditação. Cá fora as ervas, os cheiros da madeira e da resina das árvores, o rumor vegetal das folhas, o canto das cigarras, o voo dos pássaros, o barulho de bichos invisíveis que habitam e remexem a terra mais a paz do abismo. E o silêncio fundo.            
publicado por Laurinda Alves às 20:05
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