Quando ele chega traz sempre consigo a novidade. Eterno viajante, conta o essencial mas percebe-se que é o detalhe que prende o seu olhar. Capta imagens de pormenor. Verdades que parecem fantasia e vice-versa. Fotografa tudo, guarda tudo. Nunca nada se perde com ele. Arquitecto, permanece atento às linhas, aos ângulos, às texturas, às proporções, escalas, feitios e cores. Desperta em nós emoções e uma vontade intensa de voltar aos caminhos que ele próprio acaba de percorrer. Desta vez regressou de Atenas. Esteve no colossal estaleiro em que a Acrópole se converteu desde que ficou decidido desmontar e voltar a montar, pedra por pedra, bocados de paredes, fragmentos de fachadas, partes de tectos, pedaços de muros e alguns blocos de colunas do Partenon e monumentos em volta.
Fascinado com os polémicos encaixes de pedra nova na pedra antiga, recortados e assumidos com absoluta transparência e rigor, fotografou incontáveis próteses. Algumas parecem fabulosas peças de um lego gigante que se ajustam umas nas outras. Há quem goste e há quem deteste. Ele foi lá, despido de preconceitos, para ver se gostava ou estranhava. Gostou.
Acordou de madrugada para subir a encosta com o fresco improvável de uma manhã de 47 graus e ainda antes de começarem as romarias de pessoas que diariamente caminham sobre a pedra gasta e polida que abre caminho entre o caos moderno da cidade, cá em baixo, e a colina lá em cima onde apesar de tudo existe ordem.
As Cariátides sustentam com elegância a pedra antiga e perpetuam a eternidade.
O templo agora parcialmente desmontado e monumentalmente reconstruído continua a ser o lugar sagrado onde o espírito dos deuses permanece intacto. Reconhece-se ali uma pureza superior, pressente-se a solenidade clássica e admira-se a beleza transcendente, exacta e divina que atravessa os séculos sem nunca deixar de nos espantar.
E foi quando a lua se apagou e mais estrelas brilharam no alto do céu, que voltamos a deitar-nos ao comprido da terra, sobre a pedra quente do terraço, para descobrir no azul-noite o rasto luminescente dos astros, os planetas exactos, as constelações míticas e as nebulosas remotas.
No calor da noite estrelada as vozes baixam, tornam-se mais íntimas. Na observação demorada deste céu de verão há longos silêncios. Pausas absortas e cúmplices de quem permanece suspenso do mistério do reconhecimento absoluto de alguns pontos de luz no infinito cintilante.
- Está ali o Triângulo de Verão, vês?
Uma vez interrompido o silêncio cósmico, as conversas sucedem-se e as dúvidas também.
- Quantas das doze constelações do Zodíaco podemos ver numa noite inteira?
- No Verão dá para ver nove mas no Inverno dá para ver mais porque a noite é maior. Nunca passei uma noite inteira de Inverno a ver estrelas mas no Verão já. Foi numa serra.
- Eu também, no Brasil, numa noite muito quente.
- No céu do Brasil podemos perder-nos.
Cai um silêncio interrogativo. Alguém saberá ao certo o que é perder-se ou encontrar-se no céu do Brasil?
- Lá, em vez das Ursas com a Estrela Polar, vemos o Cruzeiro do Sul com a Estrela de Magalhães. É o oposto, não estamos habituados.
Compreendo, uma indica o norte e outra o sul. Também por isso (mas não apenas por isso) a memória do céu do Brasil perturba e confunde. É verdade.
Voo para longe mas volto a aterrar aqui. Ao meu lado, as conversas evoluem. Ouve-se, muito perto, o rumor do mar. No ar quente e leve desenham-se gestos de surpresa por cada estrela cadente que rasga o céu. Ouço explicações mágicas, nomes fascinantes, teorias antigas, definições científicas. Deixo-me embalar quando começam a falar de berços de estrelas, de adivinhadores do futuro, de galáxias e constelações, de lendas e mitos extraordinários, de cavalos alados, de musas inspiradoras mas traiçoeiras, de mulheres com cabelos de serpente, de guerreiros com escudos de espelho, de criaturas espantosas e seres inimagináveis que se convertem em deuses poderosos. Alguém ensaia ainda uma breve teoria sobre a sincronicidade planetária mas já não consigo prestar atenção. Adormeço na pedra quente a meio de um sonho bom.
Na estrada de alcatrão que corre paralela ao mar, ainda que um pouco distante, há pinheiros mansos de copa larga e pesada de um lado e, do outro, uma linha de moinhos de vento brancos, muito altos e etéreos, com pás elegantes quase sempre em movimento.
Antes do último moinho é preciso sair do alcatrão e apanhar uma estrada de terra encarnada, que levanta pó e cobre os pinheiros verdes de um fino manto de poeira ocre que desaparece com o primeiro vento da noite.
O caminho é longo e cheio de pedras mas faz-se sem sobressaltos pelas cumeadas de montes agrestes incrivelmente belos, onde cresce uma esteva perfumada e onde o zimbro ainda não acabou de amadurecer. O carro sobe e desce devagar pelos atalhos ermos onde não passa ninguém. Poucos conhecem aquelas direcções porque não existem ali casas nem almas. Apenas o espírito mineral dos penedos inundados de luz, desenhados pelo vento e cobertos pelo verde acastanhado das estevas que suam ao sol e libertam uma resina brilhante que lhes dá uma frescura inesperada na aridez poeirenta das pedras.
Antes de chegar à casa vê-se o mar em sucessivos triângulos azuis que se descobrem com surpresa entre os morros assombrosos. A casa aparece no fim do longo caminho, no alto de uma falésia muito alta onde as gaivotas voam mais devagar. Elevam-se no ar e cruzam o nosso olhar em voos lentos, misteriosos, quase cúmplices.
A casa é um rectângulo branco e simples. Um poema de luz, vento e silêncio. De um lado tem plasmadas na cal, ainda sem mancha, as linhas de sombra verticais que as esteiras desenham nas paredes quentes. Do outro um deck de madeira oblíquo que avança sobre o mar e dá uma ilusão de navio grande ancorado entre as rochas.
É o princípio do Verão e a longa janela da frente, rasgada ao comprido da casa, abre-se ao amanhecer claro mas também ao poente ardente. Ao entardecer sublime, à respiração dos astros, ao movimento da lua acesa no alto do céu.
Em volta da casa há uma cerca de estacas de madeira milimetricamente separadas entre si para manter a transparência e ampliar a geometria de um espaço que se pretende mais íntimo e protegido. A cerca só se vê à chegada e tem os mesmos contornos ondulantes dos morros em volta. Há uma ciência exacta nesta cerca aprumada. Percebe-se que foi sabiamente pensada.
A casa foi reconstruída agora e as madeiras de dentro ainda cheiram a novo. Tudo o que existe debaixo dos tectos altos foi concebido e construído com intenção. A arquitectura inspirada traduz-se numa escala profundamente humana e revela um arquitecto iluminado, entusiasmado pelo desafio de recriar o espaço contido num simples rectângulo branco. A sua inspiração manifesta-se nos ângulos mais que perfeitos, nos cantos e recantos dentro e fora de casa mas também se multiplica em todos os momentos mágicos vividos no silêncio contemplativo do entardecer e, ainda, na alegria infinita das noites sem horas e nos serões de conversas que duram até ao amanhecer.
Os livros das férias
Pousados em pilhas, uma por cada um dos que habitam a casa da falésia, os livros abundam, enchem os dias de suspense e histórias, povoam um espaço já de si povoado, dão mais vidas à vida e acrescentam tempo ao tempo. Apaixonantes, reveladores, trágicos, poéticos, históricos ou épicos trazem consigo as multidões que deixámos fora do círculo íntimo, mais ou menos alargado, que gostamos de fechar à nossa volta em férias.
As multidões de que fala Saul Bellow, a “inexorável torrente de milhões de pessoas de todas as raças e origens que se expande e se acotovela, de indivíduos de todas as idades, de todos os géneros, portadores de todos os segredos humanos, antigos e futuros, em cada rosto o reflexo de uma motivação ou essência específica – eu trabalho, eu gasto, eu luto, eu crio, eu amo, eu dependo, eu defendo, eu cedo, eu invejo, eu anseio, eu desprezo, eu morro, eu escondo, eu quero.” São estas as multidões que afinal também trazemos connosco.
Há livros repetidos e conversas cruzadas sobre esses mesmos livros. Os que vão mais atrasados no testemunho e revelações de Zita Seabra fazem perguntas insistentes aos que vão mais avançados. Discutem-se opções, convicções e religiões com paixão e precisão. Todos gostamos de detalhes. Todos nos tocamos com o insondável mistério dos momentos de leitura em silêncio partilhado. E todos nos deixamos contagiar pelas palavras pronunciadas em alto, no vento da tarde que traz o sal e o cheiro do mar.
“Um homem só vale aquilo que ama”, diz alguém, citando uma frase de autor. Sim, é possível que cada um de nós valha tanto mais quanto maior for a sua capacidade de amar.
Nabokov, um dos grandes reveladores de segredos humanos, antigos e futuros, sempre soube aquilo de que todos precisamos: sentimentos simples e palavras simples.
O mesmo Nabokov, que escreveu tanto e tão bem sobre o amor e o silêncio, diz coisas eloquentes que apetece repetir ao ouvido de quem está longe da vista mas não do coração.
E é porque se torna irresistível citar Nabokov, que abro distraidamente o livro enquanto falo e conto coisas avulsas, ao telefone, de olhos presos no horizonte líquido, embalada pela voz alegre que ouço do lado de lá mas, também, pelo murmúrio manso das ondas de um mar indolente que morre do lado de cá, aos meus pés, e pelo zumbido das vespas em voos cegos contra o sol.
“Sabia do que precisavas: sentimentos simples, palavras simples. O teu silêncio era natural, sem esforço, como o silêncio das nuvens ou das plantas. Todo o silêncio é o reconhecimento de um mistério”.
Conversas na cozinha
Há uma hora em que as luzes baixas e amarelas se acendem dentro de casa e todos os vidros se transformam em espelhos nocturnos que reflectem os gestos e multiplicam os amigos. O prodígio repete-se noite após noite e amplia a vida vivida num tempo que parece ter muito mais tempo. Na sala há sempre um ou outro que lê, enquanto dois trocam notas e afinam as violas sentados no extraordinário banco de madeira que acompanha a extraordinária janela rasgada ao comprido da parede. Na cozinha onde foi aberta uma janela rectangular, igualmente comprida e cinematográfica, começam os barulhos metálicos de panelas e fogão e emanam conversas com cheiro e calor.
- Queres fazer um shutney de manga?
Alguém recolheu, entretanto, os pratos que ficaram lá fora e onde ainda havia vestígios de cogumelos salteados com mostarda antiga e vinho branco e tantos outros petiscos improvisados por mãos gourmets.
O shutney para o magret de pato está ao lume e os pormenores da conversa prendem a atenção.
- Estás a ver o caramelo? Está a ficar no ponto!
- Como é que se percebe se está a ficar queimado?
- Percebe-se pelo cheiro e pela consistência. Agora temos que o tirar do lume para deixar evaporar o vinagre.
Toda a casa fica inundada de um cheiro intenso agri-doce.
- Há gengibre? Para um shutney de manga ficar mesmo bom é preciso gengibre. Se estiver muito doce pomos um bocado de limão.
Não há gengibre. Usam limão e ensaiam a contenção.
- Sabe demasiado a limão, não pode ser. O sabor ácido não se pode sobrepor e o limão nunca pode ficar em desarmonia. Pomos mais mostarda e cortamos o limão com água porque o vinho também é ácido.
A conversa evolui entre receitas, truques e inventários culinários fabulosos. Distraí-me quando começaram a falar de gastronomia molecular mas voltei a ficar atenta quando falaram de pombos e perdizes.
- A melhor perdiz é a que está numa herdade há anos a escapar aos caçadores. Não há nada melhor do que uma perdiz musculada.
Acredito.