Quarta-feira, 14 de Março de 2007
Falar com Chillida
Fascinam-me os livros de entrevistas a escritores e artistas porque me fascina o processo de criação. Nesta lógica, dou comigo a comprar e a ler sucessivos livros de conversas.
Esta semana deixo aqui fragmentos avulsos de entrevistas a pessoas particularmente inspiradoras na minha vida. Falo de Nabokov e falo de Chillida mas, também, de Tolentino de Mendonça, que cito mais adiante.
Para já fica um excerto de Chillida, escultor basco, um dos maiores do nosso tempo e um verdadeiro esteta. Como dizia Unamuno, “um basco que pensava com todo o corpo”. Um homem que era, todo ele, actividade criadora.
“  Toda a minha vida desenhei muito…nem me lembro bem desde quando. É curioso este processo acerca do qual me têm interrogado tantas vezes ao longo da vida. Não tinha a menor consciência de que a minha mania de desenhar podia ter alguma coisa a ver com arte. Eu desenhava nas paredes e em todos os bocados de papel ou livros que tinha à mão, sem saber que estava a fabricar uma linguagem. Precisava daquela expressão e daquela expansão por uma questão de saúde mental e foi assim que aos 16 anos comecei a sentir necessidade de saber o que faria na vida. O que será que vou fazer? Não sabia nada o que ia ser nem fazer.”
In Hablando com Chillida, Editorial Txertoa
 
publicado por Laurinda Alves às 19:51
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A vida de Nabokov em Montreux
 
- Como passa o tempo?
- Acordo por volta das sete no Inverno: o meu despertador é uma gralha alpina – um bicho grande, lustroso e preto com um grande bico amarelo – que visita a varanda e emite um riso casquinado dos mais melodiosos. Durante algum tempo fico deitado na cama, a rever e a planear coisas. Cerca das oito: barba, pequeno-almoço, meditação no trono e banho, por esta ordem. Depois trabalho até ao almoço no meu escritório, saindo para um curto passeio com a minha mulher ao longo do lago. Praticamente todos os escritores russos famosos do século XIX deambularam por aqui num momento ou noutro. Jukovskii, Gogol, Dostoievskii, Tolstoi – que cortejava as criadas do hotel em detrimento da saúde – e muitos poetas russos. Mas então, podia-se dizer o mesmo de Nice ou Roma. Almoçamos por volta da uma da tarde, e estou de volta à minha secretária pela uma e meia e trabalho sem pausas até às seis e meia. Depois, uma ida até ao quiosque pelos jornais ingleses e jantar às sete. Depois do jantar não trabalho. E cama, por volta das nove. Leio até às onze e meia e depois luto com a insónia até à uma da madrugada. Mais ou menos duas vezes por semana tenho um bom e longo pesadelo com personagens desagradáveis importados de sonhos anteriores, que aparecem em cenários mais ou menos repetitivos – arranjos caleidoscópicos de impressões desconjuntadas, fragmentos de pensamentos diurnos e imagens mecânicas irresponsáveis, absolutamente sem nenhuma implicação ou explicação freudiana possível, mas singularmente parentes do cortejo de figuras variáveis que habitualmente vemos no ecrã na parte de dentro das pálpebras quando fechamos os olhos cansados.
 
Gosto particularmente dos detalhes desta narrativa de Nabokov. A resposta saiu-lhe num dia remoto do ano de 1964, quando estava a ser entrevistado para a revista Playboy. Esta e muitas outras entrevistas estão agora publicadas no livro Opiniões Fortes, da Assírio & Alvim.
publicado por Laurinda Alves às 19:48
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Sexta-feira, 2 de Março de 2007
Conversas de homens
 
No dia da Mulher convidaram-me para jantar e falar no 63º aniversário do Rotary Club de Setúbal. Fiquei sentada na mesa de honra, em linha recta com o presidente dos Rotários, o representante do governo civil e o representante da presidente da Câmara, entre muitos outros.
No fim das celebrações e dos discursos comovidos, todas as mulheres receberam uma rosa cor de chá. Ao meu lado direito Joaquim Monteiro e António Lopes Ferreira falavam de flores com entusiasmo e propriedade.
- Eu já sou encartado em flores porque adoro oferecer flores à minha mulher mas a minha florista já sabe que não gosto de repetir os arranjos.
- E eu sou engenheiro de produção agrícola e por isso sei muito sobre flores. Sabe como é que elas duram mais nas jarras?
- Não.
- Se puser açúcar na água, os hidratos de carbono alimentam-nas e prolongam-lhes a vida.
- Eu já sei tudo sobre geribérias, hortenses, esterlícias e flores mais ou menos exóticas.
- Sabe o que é que dá cor às hortenses? A acidez do solo.
- Quando são brancas é porquê?
- Porque o solo é muito alcalino. Mas se for ácido são azuis. Nos Açores a terra é vulcânica e é por isso que são azuis.
- E quando são cor-de-rosa?
- É porque o solo não é ácido nem alcalino.
Eloquentes e muito esclarecedores.
 
publicado por Laurinda Alves às 21:16
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A arte das mulheres
 
Phoebe Hoban, jornalista cultural nova iorquina e autora de livros sobre arte, escreveu um artigo eloquente e prospectivo sobre algumas grandes exposições deste ano onde a arte e o talento das mulheres vão estar particularmente evidentes. Na edição mais recente da revista ARTnews, Phoebe declara que as mulheres estão finalmente no circuito internacional e interroga-se profundamente sobre o peso e o sentido da arte feminina contemporânea. A jornalista considera que este é o ano institucional da consciência emergente do valor e impacto das mulheres na História da Arte e refere três dos maiores museus que vão apresentar uma multiplicidade de obras: o Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles, o Museu de Arte Moderna de N.York e o Museu de Brooklyn. Este ano mais feminino, por assim dizer, começou com um aceso debate de dois dias no MoMa patrocinado pelo Modern Women´s Fund (fundado pela filantropista Sarah Peter) sobre o futuro da arte das mulheres. Entre muitas coisas interessantes que escreve no seu artigo, Phoebe refere dois famosos posters criados pelas Guerrilla Girls que interpelavam o público com uma questão e alguns dados objectivos.
“Do women have to be naked to get into de Met?” era a questão. Os dados eram a comparação da percentagem de mulheres artistas representadas nas secções de Arte Moderna (entre 3 e 5%) com a percentagem de nus femininos espalhados pelo Met (entre 83 e 85%). Números curiosos mesmo para quem, como eu, não é feminista.
 
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publicado por Laurinda Alves às 21:00
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Museu do Côa
Ainda a propósito de museus, concursos e arquitectos, vale a pena lembrar que Camilo Rebelo também é um dos autores do Museu de Foz Côa. Pedro Tiago Pimentel e Camilo Rebelo ganharam o concurso internacional para este ambicioso museu, cuja primeira pedra já foi lançada no dia 26 de Janeiro. A escala, a vocação e a implantação do Museu do Côa foram outro grande desafio para estes dois arquitectos da nova geração, que se destacam por serem ousados, performativos e muito à frente do ponto de vista arquitectónico e estético. Gosto particularmente da maquete do Museu do Côa e espero que esta obra, tão desejada por tantos, não se atra
publicado por Laurinda Alves às 19:00
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Aqrquitectos Premiados
 
Susana Martins e Camilo Rebelo, ambos de 34 anos, apresentaram um projecto de arquitectura muito criativo no concurso internacional para o Museu de Arte Moderna de Varsóvia e ganharam uma Menção Honrosa. O prémio, no valor de 25 mil euros, foi atribuído aos que, não tendo ganho, ficaram entre os dez primeiros. A conquista destes jovens arquitectos é notável se considerarmos que concorriam com verdadeiras lendas vivas da arquitectura contemporânea. Zaha Hadid, por exemplo, entregou um projecto que não obteve sequer uma menção honrosa. A concurso estavam cerca de duas centenas de projectos dos melhores arquitectos do mundo e entre o júri estavam Daniel Libeskind, Christine Binswager e os suíços Herzog & Demauron, os célebres autores da Tate Modern, em Londres.
O projecto de Susana e Camilo era muito desafiador no sentido em que propunha que todo o corpo geométrico do Museu fosse envolvido por uma cobertura vegetal. A ideia era criar uma espécie de grande arbusto que desse continuidade ao parque verde adjacente. Para isso, o museu seria todo coberto com uma estrutura de heras naturais que mudariam de cores consoante as estações do ano. No Inverno o corpo do MAMW seria uma massa branca de neve sobre a qual as pessoas poderiam caminhar, rasgando um novo horizonte numa zona da cidade onde já existe o Palácio da Cultura e da Ciência.
publicado por Laurinda Alves às 18:00
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