Sábado, 7 de Fevereiro de 2009
Crónicas do Público à sexta

Morrem jovens os que os deuses amam?

 
“Coordenava os meus pensamentos: Antínoo estava morto. (…) Lembrava-me dos lugares-comuns frequentemente ouvidos: em todas as idades se morre; os que morrem jovens são amados pelos deuses. Eu próprio participara nesse infame abuso de palavras; falara em morrer de sono, morrer de aborrecimento. Empregara a palavra agonia, a palavra luto, a palavra perda. Antínoo estava morto”.
 
As memórias de Adriano, o Imperador romano, fazem um eco especial nos dias de sol e chuva no cemitério em que caminhamos devagar, ombros vergados e olhos no chão. Nestes dias percorremos às cegas os labirintos de pedra e as estranhas alamedas de árvores sombrias que escurecem o horizonte e têm raízes atormentadas.O frio que fica depois dos enterros demora a desaparecer. Parece um casaco pesado, gelado, que se cola à pele e não se consegue despir.
 
Vamos e voltamos pelas alamedas mas também por caminhos rectos desenhados na terra rasa de campas e pisamos tudo com extremo cuidado, num silêncio grave e cerimonioso de quem não quer despertar sequer a borboleta que pousou na pedra branca com inscrições douradas e a fotografia antiga de uma cara nova que prende a atenção por ser mais alguém que morreu cedo demais.
 
Não há palavras para exprimir a dor dos pais que enterram os seus filhos. Não sabemos nem saberemos nunca porque é que uns vão primeiro que os outros e custa permanecer de pé naquele silêncio chorado, naquele lugar sagrado onde depositam o seu corpo frio e se despedem com gestos contidos.
 
Dói ver um pai e uma mãe muito quietos, parados em frente daquela que é a última morada dos seus filhos neste mundo, a despedirem-se deles num silêncio demorado, cheio, repleto de memórias e imagens que o tempo não apaga. Esse tempo demorado da despedida deixa-nos a todos suspensos sem saber o que fazer nem o que dizer. Baixamos os olhos, limpamos as lágrimas, olhamos para o céu, guardamos todas as perguntas sabendo que jamais saberemos as respostas.
 
E permanecemos de pé, uns passos atrás, para não devassar a intimidade do último abraço de um pai ao seu filho. De uma mãe ao seu bebé. E depois voltamos pelo mesmo caminho que percorremos e sentimos que embora os ombros nos pesem e os passos nos custem, há uma luz que nos guia e um brilho que nos conduz. E é nessa estrela que acreditamos.   
 
 
As cores das flores
 
Há no chão de madeira um rasto de pétalas de flores que foram pisadas mas ainda não varridas porque os homens de fato escuro e gestos solenes continuam a arrumar as coroas, os ramos e as braçadas de flores de todas as cores que a família e os amigos oferecem sempre a quem parte. Os homens não fazem barulho, têm sapatos leves e gestos delicados. Fazem o seu trabalho com a perfeição que se espera e quase nem damos por eles. Levam tudo para um carro de vidros muito grandes e não trocam palavras entre si, apenas olhares e acenos ligeiros. O único som que fica no ar é o do celofane que envolve as flores. E é essa transparência luminosa e quase musical que acompanha as orações dos que rezam sem palavras ditas e dos que ficam para trás por não saberem para onde ir nem como recomeçar.
 
publicado por Laurinda Alves às 10:42
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13 comentários:
De Helder a 7 de Fevereiro de 2009 às 11:45
O silêncio ecoa nos murmúrios inaudíveis do sofrimento pela perda física... Fica aquela presença que jamais algo ou alguém pode tirar...

Uma reflexão bem profunda...

Abraço
De Zé Maria Brito, sj a 7 de Fevereiro de 2009 às 11:46
Bom dia
ao ler o seu texto, lembrei-me de um poema que esrcrevi há quase 6 anos depois d saber de uma morte inesperada.
já há uns anos publiquei-o no meu "antigo" blog, hoje partilho-o aqui

Perante a dor, o silêncio.
Nada mais faz sentido.
Eu calo-me quando choras, não porque esteja longe.
Não te quero magoar. Não quero ofender-te com as minhas palavras fáceis…
Tenho medo de tocar-te quando choras. Tanto medo de te abraçar.
Parado o tempo. Nada se move.
Na minha ausência, estou contigo.
Quero que as minhas mãos mergulhem no teu vazio.
Quero sussurrar-te…
…Balbuciar-te timidamente um olhar.
Há um tanto da tua dor que eu não posso guardar.
Um tanto que eu não posso cuidar. Um tanto que eu não sei…
E fico a ver-te chorá-la…

Abril de 2003

De DE Passagem a 7 de Fevereiro de 2009 às 14:27
Olá!

Leio-a sempre com muita atenção. Contudo, e a meu ver, pergunto-lhe se já alguma vez a questionaram sobre a diferença entre a dor da Regeição Parental e esta a que se referiu tão bem neste seu belissimo texto.

Cumprimentos e alegrias, muitas, neste fim-de-semana
De Joana Freudenthal a 7 de Fevereiro de 2009 às 14:30
Lindo, Laurinda!
De Anónimo a 7 de Fevereiro de 2009 às 16:11
Costumo ler o seu blog, mas hoje é a primeira vez que comento. Eu sei o que é a dor de perder um filho. Há 23 anos perdi o meu, com 3 anos de idade, estando eu já divorciada do meu marido. Nunca fui muito religiosa, mas a partir desse dia perdi completamente a fé. Se Deus existe e se é o nosso Pai do Céu, tenho mais a agradecer ao meu "pai da terra", meu verdadeiro pai, que perdi há um ano atrás.
De Arlindo Andrade a 7 de Fevereiro de 2009 às 21:01
Esses momentos ajudam-nos a reflectir sobre a vida. Dar graças por estarmos vivos, temos saúde, alegria e beleza, e força que nos permite a cada dia esforçar por sermos mais úteis e amáveis com todos.

Lamentamos a partida de uns, choramos com outros que ficam. A única certeza é que temos um pai criador que a todos ama e que nunca abandona ninguém.

Cada um à sua maneira, todos já experienciamos a dor de perder alguém. Nesses momentos, a única palavra adequada é mesmo a oração, só a oração.

Obrigado Laurinda pelas suas palavras e pelo seu testemunho.

Um abraço.
De joseph a 7 de Fevereiro de 2009 às 22:24
Olá Laurinda. Tudo bem?

Perante a morte lembramo-nos da nossa fragilidade, finitude e individualidade.

Eu acho que foi do sofrimento perante a morte (não apenas da nossa, mas sobretudo da morte dos que nos são queridos) que surgiu a necessidade da religião.

É óbvio que aquele deus bondoso do novo testamento (sim, porque o do antigo era raivoso e o texto está cheio genocídios por ele cometidos, que mais do que perplexidade causam cansaço de tantos que são), é uma criação humana no sentido de aliviar essa dor. Se ele existisse mesmo, o seu critério de bondade seria deveras duvidoso (e por isso é preferível que não exista mesmo).

Mas o facto de deus não existir não implica que devemos desanimar. Penso que nunca nos sentiremos sozinhos desde que a nossa preocupação seja o bem estar dos outros. E parece-me que a Laurinda tem mostrado essa atitude de luta para uma humanidade melhor.
De Romina Barreto a 8 de Fevereiro de 2009 às 15:22
Prodigioso texto... abraço apertado.

Romina Barreto
De Daniel Cândido da Silva a 8 de Fevereiro de 2009 às 19:23
Olá

Visito pela primeiríssima vez o seu blogue que não sabia ter e que, ocasionalmente, encontrei.

Não venho comentar este nem quaisquer outros artigos, apenas aproveitar para lhe dar os Parabéns pela Pessoa Humana (passe a redundância) que é.

Nem sempre acompanho com o msmo fervor aquilo que escreve. Obviamente que os tgemas que me interessam menos acabam por se tornar leitura descurada (embora não sempre porque também se aprende e intui o mundo assim), mas tem cronicas, textos, artigos, chame o que quiser, de uma subtileza, de uma expressão humana intensa que, de resto, se verifica nas entrevistas que de quando em vez concede, ou simplesmente quando aparece na TV por um qualquer convite sobre um qualquer (?) tema...

Já a admirava no antigom programa em que entrava com Rita Blanco e nao me lembro dos outros nomes, mas até as suas incursões pela (sua) alma partilhando o mundo da espiritualidade, e a forma tão cordata e realista que tem de ver o mundo (incluindo o da fé, por onde deambulou até a encontrar, embora oferecida porque dom de Deus), as suas reticências e as suas certezas, até este seu actual projecto/putativo cargo de um partido "qualquer" que li na transversal no Diário de Noticias, fazem com que fique exultante por lhe poder dirigir estas palavras de merecido elogio.

Gostaria de acompanhar o seu blogue, mas não sei como fazê-lo de forma automática como faço nos meus.

Um beijinho e obrigado pela forma como defende aquilo em que (também) eu acredito. Sem propaganda na religião católica mas com testemunho de verdade pessoal. Sem levantar bandeiras sociais, mas com um olhar atento sobre a realidade.

Daniel
De silvia a 8 de Fevereiro de 2009 às 19:44
Olá Laurinda,
obrigada pelo texto...sem mais palavras.
Sílvia

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