Nas cidades a vida multiplica-se por incontáveis patamares que vão do mais subterrâneo ao mais aéreo e é curioso observar esta realidade. Enquanto nós, os que vivemos à superfície, por assim dizer, com os pés razoavelmente assentes no chão enquanto caminhamos mais ou menos distraídos de um lado para o outro à luz do dia, muitos outros trabalham literalmente debaixo de terra, debaixo de água ou muito perto do céu.
Aqui onde moro, descubro a vida que existe sobre os telhados e acho-a fascinante. Vivo de janelas abertas e, por isso, ouço o ronco das betoneiras e o barulho metálico das obras que se elevam no ar mas também as conversas avulsas, as piadas e gargalhadas dispersas, algumas zangas, insultos e palavrões e, mais raramente, uma confidência ou outra que se trocam nas alturas. Muitos arrotos também.
É divertido este filme de todos os dias, sobretudo pela naturalidade e espontaneidade com que as cenas se sucedem nesta espécie de écran gigante que se estende no céu infinito que cobre os telhados, o rio e a cidade.
Entre o periscópio do submarino preto que emerge no silêncio das águas pela manhã e vai devagarinho, pela margem direita, em direcção ao mar, e o guindaste mais alto do prédio mais alto, existe um mundo hipnotizante e muita vida alucinante. Os aviões cruzam o ar deixando riscos brancos ao comprido do céu e no horizonte mais longínquo há navios pesados, que demoram a passar e parecem quase sempre parados.
Nos telhados mais próximos alguns homens de quem vou sabendo os nomes de tanto os ouvir pronunciados em voz alta, trabalham incessantemente. Sobem e descem por caminhos insondáveis, consertam as estruturas de madeira que ficam a descoberto enquanto a obra dura, refazem muros de pedra que ninguém sonha existirem nesta altitude mas foram cuidadosamente construídos a toda a volta dos prédios, entre a última casa e as primeiras telhas, e andam de um lado para o outro sem medos nem hesitações. Estes homens trabalham dias inteiros com o sol a pique, debruçados sobre os telhados, pendurados por cordas, sustentados por traves de madeira suspensas no ar, num equilíbrio aparentemente estável mas altamente duvidoso para quem observa. Têm rotinas extraordinárias e uma cumplicidade inesperada. A hora do almoço é uma festa partilhada de marmitas, talheres e garrafas de plástico a fazer de copos. Sentam-se na beira dos telhados, de pernas suspensas sobre o vazio, despem as camisolas e atam-nas à cabeça como se fossem touaregs. Todos juntos fazem uma longa linha colorida ao longo do telhado.
Às vezes conversam animadamente e parecem alegres, outras vezes deitam-se ao sol e ouve-se apenas o silêncio, alguns murmúrios e vozes descombinadas. Os telemóveis tocam mais à hora do almoço e não deixa de surpreender este som vindo de tão alto.
Mesmo quando achamos que estamos habituados a ouvir os telemóveis tocar em lugares tão inverosímeis como o cemitério no momento íntimo e exacto do enterro, a ópera no auge do drama e apesar de todos os avisos ou a missa no momento sagrado da consagração (já ouvi pessoas atenderem o telemóvel e entrarem em diálogo neste momento. Seria com Deus?), mesmo assim o som dos telemóveis que tocam sobre os telhados mais altos não deixa de ser extraordinário.
E é esta conjugação improvável de vidas vividas em lugares arrojados, quase etéreos, no fio da navalha e no vértice dos telhados que não deixa de me espantar dia após dia.