Sábado, 30 de Junho de 2007
Música no Chiado
 
A propósito de improvisos e música na rua, uma noite destas subi a rua Garrett quando a lua já ia alta no céu e um vento morno soprava nas esquinas. Muitas pessoas passeavam àquela hora pelo Chiado e enquanto umas se juntavam em grupos ou paravam para conversar, outras subiam e desciam tranquilamente a rua.
Em frente à esquina da livraria Bertrand, dois homens mais velhos, com ar demasiado simples para serem os tradicionais músicos de rua, habitualmente mais performativos e boémios, ensaiavam a voz e afinavam uma guitarra portuguesa. Um pouco mais acima, dois malabaristas do fogo exibiam em silêncio a sua arte flamejante e do outro lado da rua o homem dos mil cães e mil instrumentos tocava mais uma das suas músicas improváveis.
Quando o fadista começou a cantar, a rua estremeceu e as conversas pararam. A voz do homem mais velho, ampliada pelo ar quente da noite, calou todas as outras. Devagarinho e sem fazer barulho, para não perturbar a acústica do momento, as pessoas foram-se aproximando do velho que tocava e cantava de olhos fechados as suas dores de alma, os seus amores e desamores. O seu fado sentido.
No fim todos bateram palmas e pediram mais. Foi então que o velho abriu os olhou e vendo que dois rapazes de um pequeno grupo de amigos que tinham parado para o ouvir traziam as suas violas às costas, desafiou-os para tocarem com ele. Um deles deu, sem hesitar, um passo em frente, foi ter com o velho e afinou com ele a música seguinte. E foram esses breves minutos em que um rapaz e um velho que nunca se tinham visto, davam notas um ao outro para, depois, tocarem dois fados seguidos numa cumplicidade que parecia antiga, que marcaram naquela noite um compasso eterno.
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publicado por Laurinda Alves às 22:21
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