Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009
Coisas da vida de hoje no Público

Publicar aqui as crónicas que escrevo às sextas no jornal Público já é um clássico. Aqui ficam as de hoje, já a mais de meio da tarde. Habitualmente os temas do Público não cruzam os do blog, para evitar redundâncias ou para não escrever 'mais do mesmo' mas esta semana foi impossível não ir falando aqui destes dois temas e porque desta vez as histórias são familiares aos leitores do blog, publico hoje as crónicas de hoje. Aqui ficam, enquanto eu ando entre Coimbra e Leiria a defender outras causas em que acredito. 

 
Um grito de raiva!
 
Na semana passada escrevi aqui sobre dois cegos que vi uma vez no Metro e hoje retomo o tema porque por coincidência (ou não) no próprio dia em que a crónica foi publicada voltei a vê-los. Estavam na plataforma oposta à minha e fui ter com eles pelo túnel para lhes dizer que me tinham inspirado um dos textos desse dia.
 
Apresentei-me e eles fizeram o mesmo. Um chama-se Paulo e outro Pedro, quiseram saber em que jornal e porquê. Abreviando um encontro breve mas marcante, expliquei-lhes que me prendeu a alegria e a cumplicidade entre os dois e a falta de pressa com que caminhavam entre a multidão apressada. Não por serem cegos mas por terem outro tempo interior, acho eu.
 
Eles gostaram da ideia de se verem retratados, ainda que de forma breve e partindo apenas de uma cena aparentemente sem história, e decoraram o meu mail para me dizerem depois o que tinham achado. Disseram-me que iam pedir a alguém que lhes lesse o texto e assim fizeram.
 
Mais tarde recebi alguns mails do Paulo e pedi-lhe autorização para os usar. Ele começou por justificar que me trata por tu porque não lhe dá jeito de outra maneira e disse que os podia usar até porque a substância dos mails é um grito de alerta e um pedido de socorro. Aqui ficam dois fragmentos desses mails tão eloquentes da cegueira geral: 
 
“A maior parte dos cegos em Portugal passa fome. Algumas cegas já se prostituem para alimentar os filhos. Muitos estão na mendicidade. Isso tem que acabar. Pessoas como tu podem ajudar informando que existem problemas. Muitos cegos têm não só problemas visuais mas do foro neurológico, ortopédico, etc. A sociedade pensa que a ACAPO pode ajudar mas a associação está na miséria, nem dinheiro tem para pagar aos funcionários quase.
 
Precisamos tirar a mendicidade das ruas e do metro. Existe uma petição liderada pelo doutor Mário Garrote de Coimbra, para pedir a lotaria para os cegos. Por favor eu peço socorro em nome de todos os cegos de Portugal que passam fome. Porque eu costumo dizer, ser cego não é defeito a sociedade é que nos faz passar pelo canal estreito.
 
 
Somos seres humanos temos sangue nas veias, temos alma, temos sentimentos, também choramos e sorrimos, amamos e odiamos. Temos fé. Enfim minha amiga somos seres humanos mas seres humanos sofridos”(…)
 
“Um pensionista cego em Portugal ganha em média cerca de 200 euros e tem quase sempre medicação para pagar. Roupa, luz, água, gás. Também existe quem coma comida por cozinhar.Cegos que comem uma refeição por dia. Vou confessar uma coisa cara amiga eu passo fome. Evito tomar medicação que me faz falta. Anti-depressivos e medicação para dormir.
 
 
Eu tenho tendência para me suicidar. Pois não tenho dinheiro para comer nem para os anti-depressivos quem me paga a net é um amigo. Mas não pode ajudar em tudo. Qualquer dia apareço morto Laurinda. Como só à noite e chega. A segurança social só tem dinheiro para os ciganos. Tenho esperanças que um dia venhamos a ter o subsídio de cegueira que a União Europeia deu e Portugal recusou.
 
 
E insisto: Portugal não quer dar a lotaria para os cegos! E a única cidade que tem os transportes gratuitos para os cegos é a cidade de Braga. Porque não existe em todo o país? Pronto aí está não só eu mas muitos Paulos e Paulas deste país que não têm culpa de serem cegos. E pedem esmola sem terem feitio para isso.
 
Eu nasci para amar e ser amado. Mereço dar e receber. Portanto sou um cidadão como outro qualquer, mereço respeito. Por isso peço a tua ajuda e se for possível passa esta mensagem aos teus colegas para que eles se tiverem consideração pela raça humana a espalhem e com o título: um grito de raiva! Eu também sou gente!
 
 
Licença para guiar
 
Quarta-feira, dia de chuva e nuvens cinzentas, pesadas. Dia de acordar cedo para chegarmos a horas à Escola de Avelar, onde centenas de alunos esperam pacientemente a chegada de um convidado especial. Salvador Mendes de Almeida, presidente da Associação Salvador, aceitou o desafio de Lurdes Cotovio, professora atenta às grandes causas, para ir a esta escola falar da sua experiência de vida depois do acidente de mota que o deixou tetraplégico aos 16 anos.
 
Salvador fundou a Associação com o objectivo de tornar Portugal um país acessível às pessoas portadoras de deficiência ou com dificuldades de locomoção e, ao mesmo tempo, sensibilizar a sociedade para os perigos na estrada. Nesta lógica programou uma série de acções em escolas onde há alunos em idades próximas de terem licença para guiar.
 
As ‘aulas’ que Salvador dá nas escolas marcam os alunos para sempre. É impossível esquecer as coisas que ele diz, os filmes que mostra e a verdade com que fala sobre tudo a todos. Não há temas tabu para o Salvador nem há assuntos proibidos. Se os adolescentes querem falar sobre namoradas, sobre sexualidade, sobre o que ele pensa sobre a vida ou saber exactamente o que sentiu depois do acidente, se chorou, se ficou revoltado ou se teve medo de morrer, ele responde e conta com detalhes expressivos tudo aquilo por que passou imediatamente a seguir e, também, nestes últimos 10 anos como tetraplégico.
 
Salvador vive a dar testemunho e a falar de um acontecimento dramático que mudou radicalmente a sua vida mas por incrível que pareça fala sempre de tudo como se fosse a primeira vez. Eu própria, que o conheço e acompanho, comovo-me invariavelmente com as suas palavras. Os alunos, os professores e os pais presentes nestas sessões ficam igualmente suspensos do seu testemunho e da sua atitude, sempre tão extraordinários e transformadores. Salvador é, na verdade, uma luz no mundo. Tudo fica incrivelmente mais definido e luminoso à sua passagem e nem sequer sei se ele se dá conta deste efeito iluminante, por assim dizer.
 
Salvador teve um impacto brutal nos 250 alunos da Escola de Avelar que assistiram à sessão dentro do ginásio. Mostrou filmes que valem por mil palavras, enunciou estatísticas e perguntou quem, entre eles, tinha menos de 16 anos. Mais de metade pôs o dedo no ar e Salvador, com um sorriso, disse:
 
- Com a vossa idade eu também era como vocês. Jogava futebol, ia à praia, corria, andava, vestia-me sozinho, estudava, começava a sair à noite, já tinha namoradas e a vida corria-me bem. Gostava de andar de mota e achava que os acidentes só aconteciam aos outros. Numa noite de Verão, no Algarve quando estava de férias, adormeci ao volante quando voltava de uma discoteca. Tinha bebido uns copos e estava cansado. Não me lembro do acidente nem recordo bem os primeiros dois meses mas depois percebi que tinha ficado tetraplégico e na noite em que o médico me disse que ia ficar numa cadeira de rodas para sempre chorei. Foi a pior noite da minha vida.
 

Os alunos ouvem estas e outras palavras de Salvador sem se mexerem nas cadeiras. Apesar de o ginásio estar a transbordar de adolescentes de várias turmas e idades, não há um único barulho. Apenas o silêncio e a chuva lá fora.

 

publicado por Laurinda Alves às 18:00
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