Mia Couto, o escritor moçambicano, esteve em Lisboa e deu algumas entrevistas. Apesar de ver muito pouca televisão, tive a sorte a de o ver duas vezes. Primeiro de camisa azul, mais sério e porventura mais tenso, no programa de Judite de Sousa. Breves dias depois, de camisa amarelo claro, mais descontraído e mais luminoso, no programa de Paula Moura Pinheiro. Muito inspirado, sempre.
Mia não é o tipo de pessoa que se entreviste num estilo formal, com ‘perguntas de rajada’, à espera de ser apanhado em respostas menos prontas ou menos inteligentes. Muito pelo contrário, é um homem para conversar e a quem apetece, sobretudo, ouvir. Judite fez perguntas interessantes mas por vezes demasiado aceleradas para o ritmo de Mia. Interrompia-o antes de ele concluir as suas histórias e caiu algumas vezes na velha tentação jornalística de querer saber coisas tão genéricas e tão abrangentes que não há resposta possível.
- O que é que acha da situação em África?
- Qual África? Conheço tantas…
Mia é um homem tranquilo, de olhar azul, que pensa e escreve coisas prodigiosas. Tudo o que diz tem impacto e o seu ritmo lento, demorado, desperta sentimentos profundos.
Com um sorriso meio tímido meio divertido, de quem não se leva muito a sério, conta coisas da infância, convoca memórias antigas e revela histórias da família e dos amigos que comovem. Fala da sua vida de biólogo e da sua condição de escritor mas também da sua condição de homem, pai, marido e filho.
- Sou biólogo quase todo o tempo. Acordo de manhã e sou biólogo. À noite sou muitas vezes assaltado por fantasmas e, por isso, sou um escritor de insónias. Se deixasse de escrever não deixaria de ser feliz. Só deixaria de ser feliz se não conseguisse ter uma relação criativa com o mundo e com os meus, com aqueles que amo.
Dias depois, na conversa com Paula Moura Pinheiro, falaram dos ‘critérios eurocêntricos’ que deixam quase sempre de fora a arte, a escultura, a pintura e as danças africanas. Mia reconheceu que é uma pena que estas artes permaneçam fora do circuito artístico europeu e disse que vale a pena trabalhar para que toda a arte africana fique mais visível.
Moçambique inteiro parece, aliás, muito distante de certas formas de arte.
- Não lhe faz pena haver apenas 4 salas de cinema em todo o país?
- Faz. Faz imensa falta haver mais salas para ver mais filmes. Embora tenhamos uma apetência nata para entrar nas culturas dos outros, há muitas formas de cultura às quais ainda temos pouco acesso.
A propósito desta carência, Mia contou uma história curiosa.
- Um dia saí de Maputo com um colega biólogo para fazermos trabalho de campo e íamos pela estrada a ouvir música clássica. Quando estávamos a atravessar uma zona inóspita vimos um carro parado com pessoas lá dentro que chamaram a nossa atenção. Parámos e eles perguntaram:
- Têm música?
- Temos.
- Nós vamos para uma festa de casamento mas não há música porque ninguém tem aparelho e queríamos dançar. Podem vir connosco?
- Mas nós só temos Mozart.
- Não faz mal, venham!
Foram, pararam o carro ‘à porta’ da festa, puseram o volume no máximo, deixaram as portas abertas e assistiram animadamente ao primeiro baile de Mozart das suas vidas.