Não gosto de plantas em casa e nunca soube bem porquê. Só gosto de flores frescas em jarras. Flores de todos os tamanhos e feitios, colhidas da terra, escolhidas conforme as estações, com perfumes raros ou sem cheiro nenhum. Gosto de flores silvestres mas também de flores delicadas. Vibro com flores de cores vibrantes mas também me comovem as flores de outras cores.
Irene, a senhora que vende flores num carrinho de mão à porta da estação do Cais do Sodré, conhece-me bem. Sabe os meus gostos e preferências e recebe-me sempre com um sorriso cúmplice. Como se visse uma amiga antiga.
Escolhe demoradamente as mais bonitas e mais frescas. Para os dias normais, flores banais, para os outros guarda-me as que acha especiais.
Falamos muito enquanto ela procura entre os baldes cheios de água que estão pousados no chão e os que tem sobre o carrinho. Conta-me as suas alegrias e as suas tristezas, diz coisas maravilhosas e sorri mesmo quando revela que a sua saúde anda menos boa. Não é um sorriso de resignação, é um sorriso misteriosamente luminoso que a faz parecer uma rapariga nova, ainda cheia de novidade e esperança.
Para os meus jantares de festa e mesa comprida, Irene tem sempre gestos queridos: oferece-me mais um ramo de fores e dá-me braçadas enormes de pés de folhas verdes, por vezes raras. Comove-me a sua generosidade porque me dá justamente aquilo de que vive.
Esta semana fui a correr, já em cima da hora, e ela sempre com o mesmo sorriso e a mesma alegria que percebo que esconde tristezas fundas. Gosto muito da Irene e do seu carrinho e foi a ela que passei a comprar as minhas flores de todas as semanas.
Só tenho pena que esta mulher de alma delicada e coração grande tenha que suportar na rua o frio e o calor dos dias e tantas duras penas para conseguir levar a sua vida para a frente.