Daciano Costa, o mestre, o designer inspirado, o ‘construtor de imagens’, o homem profundamente inquieto a cujo olhar nada nem ninguém passava despercebido, costumava dizer que aquilo que mais envelhece uma pessoa são os gestos.
Muito mais do que as rugas, o olhar, a atitude ou, até, a linha de ombros que vai descaindo à medida que o tempo passa e a vida acontece, eram os gestos que diziam a Daciano a idade das pessoas. Curiosa esta sua atenção aos detalhes.
Na segunda-feira passada percebi a frase de Daciano em toda a sua amplitude. Mick Jaegger tem gestos de rapaz e deve ser por isso que não envelhece. Por isso e, claro, pelos incontáveis litros de sangue purificado, pelos infinitos balões de oxigénio puro e pelo exercício físico constante.
Em todo o caso, e voltando aos gestos, surpreende o ar genuinamente teenager de um homem com mais de 60 anos. A maneira como dança (que é exactamente a mesma como sempre dançou!), como corre, como anda e como canta revelam um eterno rapaz. Um homem maduro, com ar de eterno rapaz, quero dizer. Ou seja, a combinação explosiva e sexy que faz dele um ídolo há mais de 45 anos.
Nunca tendo sido particularmente fã, percebo os fanáticos de Mick Jaegger. Não há outro igual.
Fui com amigos ao concerto de Lisboa mas queria mais vê-lo do que ouvi-lo. O meu primeiro e único concerto dos Stones foi em Madrid há 27 anos (tinha eu 18, é incrível a vertigem do tempo) e foi um concerto memorável. Um fim de tarde de trovoada e relâmpagos, um céu de chumbo e um dilúvio que ameaçava desabar a qualquer momento. Nesse dia, como agora, Mick Jaegger foi espectacular. Performativo e vibrante, apareceu debaixo de chuva com uma longa capa de plástico transparente sobre um fato às riscas grossas cor-de-rosa choque. A imagem dele a dançar sem parar no palco e, também, na relva de um estádio transbordante de fãs é uma imagem poderosa e feliz que me acompanha desde esse dia apaixonante, vivido de mãos dadas debaixo de chuva, ao som da tempestade e da música.
Agora, que voltei a ver e a ouvir os Stones, noutra latitude e com outra distância, senti que a vibração e, afinal a paixão, foram exactamente as mesmas.
Gostei particularmente de rever Mick Jaegger e como ia lá mais para o ver do que ouvir (confesso que hoje em dia prefiro a sua performance teatral à sua voz e às músicas tão ouvidas e repetidas ao longo destes anos todos) gostei de vê-lo dançar sem parar, dos saltos que dá e das suas corridas incessantes dentro e fora do palco.
Também gostei da ideia feliz de fazer avançar uma parte do palco para o fundo do estádio, iluminando com uma luz de prata o quadrado prateado onde os músicos tocavam e Mick cantava. Genial.
No fim, o abraço dos quatro amigos e a multiplicação das suas vénias a um público que insistia em não os deixar partir foi muito tocante. Valeu a pena ter ido vê-los pela última vez.