Quinta-feira, 21 de Junho de 2007
Cuidados em fim de vida
Medicina triunfalista?
 
A obstinação terapêutica de alguns médicos e a persistência numa vida sem qualidade, artificialmente mantida, é reveladora de uma atitude que se convencionou classificar como uma forma de medicina triunfalista. Ou seja, médicos que agem como se os doentes tivessem que ser mantidos vivos a qualquer custo, condenando-os muitas vezes a grandes sofrimentos (dos próprios e das suas famílias, note-se) através da dita obstinação terapêutica que decorre, entre muitas outras coisas, de uma incapacidade de aceitar a morte ou a incurabilidade de uma doença.
Como se houvesse uma espécie de supremacia absoluta da Ciência.
Diz quem sabe e quem estudou toda esta questão, que um médico que não foi treinado nem preparado para aceitar a impossibilidade de cura, tem dificuldades em lidar com o sofrimento dos que sofrem e distancia-se por não saber partilhar a vulnerabilidade do outro (nem a sua própria vulnerabilidade, conquista porventura ainda mais difícil) e pode ter tendência para se refugiar em medidas heróicas e agressivas que, longe de proporcionarem conforto, trazem ainda mais sofrimento ao doente.
 
Médicos paternalistas?
 
Alguns médicos persistem com grande frequência num modelo de relação
paternalista, por assim dizer, achando que podem decidir pelo doente, não o informando, não o acompanhando, mentindo ou omitindo e não esclarecendo sobre o seu direito à recusa de tratamentos fúteis e desproporcionados. Por outro lado, insistem misteriosamente em não informar os seus doentes sobre as alternativas que existem para diminuir o sofrimento nas suas diferentes vertentes: física, psicológica, emocional, existencial e outras.
Talvez estes médicos confundam a aceitação da inevitabilidade da morte dos seus doentes com uma rendição, perder uma batalha pessoal ou passar a viver do lado errado da sua vida profissional. Do lado dos derrotados ou dos médicos sem remédio, quero dizer.
Sinceramente perturba-me a atitude e inquieta-me a ignorância, seja destes médicos ou dos doentes. Pergunto-me se não haverá quem ajude os profissionais de saúde que escondem realidades libertadoras a perceber que é um erro mentir ou omitir? É um abuso subavaliar as capacidades e as potencialidades das pessoas doentes, só porque estão doentes, frágeis e em desvantagem científica.
 
Matar o sofrimento?
 
Posto isto e tudo aquilo que tem vindo a ser debatido publicamente nesta semana a propósito das conclusões de um estudo feito por um investigador da Unidade de Cuidados Paliativos do Instituto de Oncologia do Porto, que revela que 24% dos médicos oncologistas fariam eutanásia, pergunto a quem interessa o debate sistemático e forçado da eutanásia numa sociedade que precisa de fazer muito trabalho e investir muito dinheiro para melhorar a qualidade de vida das pessoas antes de apostar em lhes dar um fim aparentemente rápido e asséptico?
A eutanásia é e será sempre uma forma de matar o sofrimento, matando quem sofre. Pode resolver a questão desta ou daquela pessoa em particular mas não resolve a grande questão do sofrimento terminal que, essa sim, merece ser aprofundada e debatida no sentido de encontrar soluções menos radicais. Mais humanas e humanizantes,lá está.
Ora o que todos sabemos, por ciência e experiência das unidades de cuidados paliativos que se multiplicam num mundo cada vez mais consciente do seu valor essencial, é que há outras maneiras de resolver a dolorosa questão do sofrimento físico, moral e emocional.
Pergunto, finalmente, (hoje é dia de infinitas perguntas mas a questão merece estas e outras interrogações) a quem interessa realmente discutir uma solução que é universalmente aceite como situação de excepção, em vez de discutir a situação de milhares de doentes e suas famílias, que não querem sofrer mas também não querem morrer sem ser por morte natural?
Porque se trata de uma questão fracturante, delicada e povoada de mistérios e inquietações, proponho que em vez de começarmos pelo fim, a debater a eutanásia, comecemos por um verdadeiro debate sobre a dignidade no fim de vida. Um debate esclarecedor e transformador.
Antes de falar em pôr termo à vida, vale a pena falar sobre o sentido da vida. Vale a pena formar médicos e profissionais de saúde nesta área específica do sofrimento em fim de vida, seja nas faculdades ou nos
internatos médicos. Manter este treino ou este ensino apenas em duas faculdades, a título de excepção ou como se fosse uma opção menor, faz-nos menores.
 
 
publicado por Laurinda Alves às 22:11
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