Sábado, 27 de Dezembro de 2008
Crónicas do Público de sexta-feira

 

Coração africano I
 
A sala parece demasiado pequena para uma mesa tão comprida mas era preciso sentar mais de vinte pessoas naquela noite e alguém fez o improviso de ir acrescentando mesas e cadeiras para cabermos todos. As janelas e as portas estão abertas porque está muito calor e de vez em quando sente-se um vento quente a entrar, um sopro que se eleva no ar e se espalha em todas as direcções, empurrado pelas pás de uma ventoinha que roda devagar.
 
As pessoas vão entrando e escolhendo o seu lugar. Uns conhecem-se, outros não. Em frente ao restaurante existe um largo de pedra antiga recém-lavada, muito branca quase imaculada. O largo é grande, imponente, com fonte e escadarias, árvores alinhadas aos lados e bancos da mesma pedra dos muros. Das janelas abertas vemos a pedra iluminada pela esteira luminescente da lua cheia e as copas dos ciprestes mais altos projectam sombras oblíquas no passeio.
 
A sala é muito pequena mas o largo em frente torna-a grande, quase desmedida. Quando todos estamos sentados alguém sugere que cada um se apresente de pé e é assim que um por um, todos dizemos de nós. Mais de vinte pessoas numa mesa de empreendedores sociais que cruzam ideias e caminhos, que trocam contactos e tecem laços, que apostam em mais uma rede de agentes de transformação social. Cada um diz o essencial e todos ficamos a perceber melhor as razões que nos juntaram ali.
 
Há quem tenha dirigido uma escola de ciganos; há quem dê aulas no perímetro mais adverso da Quinta da Fonte e apesar da adversidade consiga mobilizar alunos rebeldes para causas solidárias; há quem dirija institutos de inovação e criatividade; há quem tenha posto de pé ONGs; há quem crie empresas com o objectivo de apoiar projectos de desenvolvimento e sustentabilidade; há quem se dedique a potenciar os talentos dos outros; enfim há uma variedade notável de gente para quem o lucro se mede mais pela quantidade de riqueza social e humana que são capazes de gerar e menos pelo dinheiro que conseguem ganhar ou acumular, e isso é o que mais impressiona nesta rede de empreendedores sociais que está a cumprir meio ano de existência mas começou ali, naquela noite de calor e lua cheia.
 
No fim, quando quase todos se tinham apresentado e faltava apenas um, eis que se levanta o mais novo de todos e dá um passo atrás para poder falar olhos nos olhos com todos. Sem pressas e com aquela cerimónia natural mas rara dos grandes quando se fazem pequenos, começou a sua apresentação. Primeiro o nome e depois o país de origem.
 
- Venho da Guiné. Casado? Não sou. Filhos? Não tenho. Curso? Estou a completar. Experiência? Vou contar.
E contou. E encantou-nos a todos com aquela sua maneira de enunciar uma vida, começando primeiro pelo conceito e depois desfiando tudo com preceito. E foi naquela sua voz pausada, meio cantada, que revelou o seu coração africano.
 
 
 
 
 
Coração africano II
 
E agora que escrevo sobre o rapaz guineense lembro-me de outro homem que conheci há muitos anos numa praia remota de Zanzibar, e veio ter comigo pela mão de um amigo. Vinham os dois de mãos dadas pela areia, com os braços a balançar para a frente e para trás como fazem naquela ilha os homens que são muito homens. Vestidos com longas túnicas azuis de uma costura só, caminhavam descalços e sem pressas.
 
Conversavam e riam sem desfazer o nó das mãos entrelaçadas que prende o olhar ocidental e fere todo o nosso preconceito. Rasga e desfaz, para ser mais exacta.
Pararam a um passo de distância e cumprimentaram-me com um aceno largo e um sorriso contido permanecendo de mãos dadas. As mulheres ali têm uma importância diferente da que têm as mulheres aqui e os homens nem sempre sabem por onde começar. Preferiram esperar e o silêncio deles obrigou-me a falar. Se eu não começasse eles saberiam esperar.
 
Tinha percebido isso na véspera, ao balcão do hotel onde pedi um extra sem ter qualquer resposta. Perplexa com o silêncio procurei pelo corredor alguém que me percebesse e vi reflectidas no espelho dos vidros que davam para o terraço, as sombras inclinadas dos homens que espreitavam os meus passos e comentavam entre si a resposta que me haviam de dar.
 
Vi-os espreitarem-me primeiro e conferenciarem depois e percebi que era essa a regra. Nunca davam uma resposta directa, nunca começavam uma conversa com uma mulher porque não estavam habituados a esse diálogo nem sabiam como mantê-lo. Era estranho mas era assim há vinte anos. Agora não sei, as coisas mudam e o mundo já não é o que era.
 
Na praia os dois homens esperavam que eu falasse para avaliarem o que haviam de responder. Começámos pelo céu que é sempre tão baixo e tão luminoso naquela ilha. Eles olharam para trás e para cima, como se medissem pelo ombro, e explicaram o reflexo da água e a química dos corais. Não precisei de dizer mais nada. Eles contaram a sua história, falaram dos pescadores naqueles barcos primitivos de vela branca e das suas famílias e acabaram por desfazer naturalmente o nó das suas mãos. Convidaram-me a sentar-me com eles num velho barco de madeira encalhado na areia e ali ficámos horas esquecidos.
 
Um deles, o que guardo na memória até hoje, era descendente de antepassados ligados a Gungunhana, coisa improvável naquelas paragens achava eu. Contou histórias que conferem com a História e detalhou conversas e gestos que ficaram gravados para sempre. Mas o que verdadeiramente me marcou foi a inesperada maravilha do seu português antigo e aquela mesma cerimónia natural e rara dos grandes quando se fazem pequenos, especialmente quando falava de homens que não eram de África.
 
- Sabe, ele era um ‘branco’, perdoe a expressão.
E é este ‘perdoe a expressão’ proferido com distinção e reverência a uma mulher branca numa praia de areia muito limpa e muito fina, quase branca, de frente para o Índico, que nunca mais esqueci. Esta e outras frases foram, para mim, a expressão do coração de um homem bom.  
 
 
 
Coração Africano III
 
O hotel fica de frente para a praia e para a imensidão de um oceano cujas marés avançam e recuam quilómetros impensáveis, revelando ao mundo alguns mistérios dos homens. Barcos naufragados, árvores plantadas em seco que ficam submersas metade dos dias, casas ao fundo erguidas com restos de navio e madeiras que resistem à água e às tempestades, caminhos que parecem estradas por onde passam mulheres elegantes vestidas de panos coloridos, com filhos pesados às costas e cestos cheios na cabeça que elas amparam com mão leve e pulso fino, tudo isto emerge quando o mar recua quase até ao fio do horizonte.
 
As marés do Índico são uma paisagem inesquecível e visto daquele terraço do hotel, o mar turqueza-transparente apetece ainda mais. O hotel é grande, desmedido, e foi herança de ingleses e alemães que há muito deixaram aquelas paragens. Decadente mas digno, alberga os turistas que chegam a uma ilha que é um misto de poesia e aventura, onde os táxis têm buracos no chão e as pessoas têm memórias antigas e sabem coisas primordiais. Uma ilha onde os corvos cantam o entardecer e os pescadores louvam o amanhecer. Zanzibar é um interminável devaneio onde volto vezes sem conta nos meus sonhos.
 
No terraço do hotel há muitas mesas espalhadas, desalinhadas, que nunca ninguém conseguirá arrumar de outra maneira. O desalinho é fascinante, não perturba o olhar, e a ordem natural ali é cada coisa ocupar o seu lugar.
Os rapazes de calças pretas e camisa branca com laço que atendem os turistas andam para trás para a frente numa dança impossível sem nunca chocar ombros nem bandejas. Antecipam passos e gestos com alegria e elevam as bandejas ao ar antes de se cruzarem. Todos atendem todos e há quem chegue a atravessar o terraço de um lado ao outro para responder a um aceno longínquo.
 
Alguém lhes tenta demonstrar que, com método e uma matemática simples, podem caminhar menos e ser mais eficazes. Cinco mesas a cada um em vez das quarenta mesas servidas por todos bastaria para ficarmos mais bem servidos mas eles têm dúvidas. Preferem o caos e a multiplicação dos caminhos.
À mesma mesa podem servir sete ou oito e demorar uma eternidade a cumprir o serviço mas eles pouco importa, a vista é bonita e a espera não custa.
 
Um dos rapazes fardados, conhecido pela colecção de sapatos extravagantes de pele de crocodilo de cores berrantes que tem, ali usa sapatos discretos e sem história. Alguém repara no pormenor e pergunta pelos outros sapatos.
- Aqui não, senhor. Não dão com o pavimento!
 
publicado por Laurinda Alves às 01:04
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8 comentários:
De Zilda Cardoso a 27 de Dezembro de 2008 às 10:17

A 2ª crónica foi a que mais apreciei, mas são todas muito interessantes, bem pensadas e bem escritas. A diferença de costumes e de culturas é sempre apaixonante: dar-se conta disso...

Escrevi muito sobre as m/ viagens e, para mim, foi o período melhor da m/ escrita: útil e divertida.
Acredito no que dizia a Natália Correia - há em Portugal poucos que escrevam bem sobre a própria experiência de viagens.
A Laurinda está indicada para esse papel.
De Mel a 27 de Dezembro de 2008 às 12:18
Não é a primeira vez que comento o seu blog.
Fico sempre espantada com a facilidade com que descreve cheiros, sensações, paisagens...
Uma questão surge-me sempre na cabeça: Como é que uma pessoa consegue apreciar sempre todos estes momentos? Nunca terá medos, angústias, receios?
Parabens por ser como é e escrever como escreve.
De solnocoracao a 27 de Dezembro de 2008 às 15:44
Querida Laurinda que partilha fantástica! Hoje falou na rádio, não foi? Só ouvi um pouco e parecia a Laurinda. E a excelência e humanidade do que era dito era a Laurinda. mas era um barulho no carro... "Bom ano para todos e para cada um, certo"? parabéns Laurinda e obrigada por tudo o que é e pela esperança dita às vezes no meio de tanta turbulência...
Abraço enorme!
De Mónica a 27 de Dezembro de 2008 às 18:15
deliciosas :-)
De sissia a 28 de Dezembro de 2008 às 12:03
Bom dia Laurinda!
Um dia feliz.
De J a 28 de Dezembro de 2008 às 14:19
Já tive o privilégio de conhecer uns quantos corações africanos. Corações puros de conhecimento e de emoções, que nos fazem pensar e aprender (a nós ocidentais) que a vida não é só como nós a conhecemos. África é, sem dúvida, uma caixinha de surpresas.

Laurinda tenha um ano óptimo, tanto para si como para todos os que ama e todos os que acompanha. Que os seus objectivos sejam todos alcançados, pois tenho a certeza que não pensa só em si.
Cumprimentos
De vera a 28 de Dezembro de 2008 às 18:47
Fiquei sem perceber o que é isso do coração africano ... e o que é um coração europeu ? o continente africano é ainda maior e variado ...
De vera a 28 de Dezembro de 2008 às 18:51
mas apesar deste comentário, acho que o texto esta bonito, poético ...

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