Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008
Ainda o concerto de Alfred Brendel em Barcelona

(crónica escrita para o Público de sexta-feira passada) 

 

Sei que devia resistir mais uma semana e publicar só na próxima sexta este texto sobre Alfred Brendel mas não consigo esperar mais. Desde que o ouvi em Barcelona, na derradeira digressão da sua vida e num dos seus últimos recitais públicos, neste countdown ao mesmo tempo exaltante e triste, que me apetece escrever sobre este homem apaixonante.

 

Brendel é, como sabemos, um dos maiores pianistas contemporâneos mas como não ‘reduz’ a sua arte à interpretação musical e tem um leque amplo e variado de interesses, decidiu acabar a sua carreira pública de concertista e dedicar-se à poesia e à literatura. Um homem que transporta consigo o rótulo de “pianista intelectual”, que na década de 60 foi o primeiro a gravar a obra integral de Beethoven e depois construiu uma imensa obra discográfica que se converteu num monumento artístico colossal do séc.XX; um intelectual que publicou ensaios e poesia (alguma dela humorística, note-se) e que confessou aos jornalistas da BBC que um dos seus passatempos preferidos é o riso, só pode ser um homem muito completo e especial. Um portento musical e um talento cheio de talentos.

 
Na próxima sexta-feira Alfred Brendel dá o último recital da sua vida em Viena e, daí, a minha ideia de esperar pela próxima semana para aproveitar o clima emocional desse dia. Gostava de conseguir, mas não consigo. A homenagem que gostaria de lhe prestar no dia 18 vai com uns dias de antecedência mas a culpa não é minha, é dele.
 
Ouvi-lo tocar, vê-lo ao piano naquela proximidade íntima de quem se senta à sua volta para escutar a sua música e ver como dançam os seus dedos e se inclinam os seus ombros, sentir o silêncio solene de uma sala enorme cheia de pessoas comovidas com a presença do pianista, fechar às vezes os olhos enquanto ele toca e abri-los no momento exacto em que levanta as mãos depois do último acorde, ainda com o som a elevar-se no ar, foi uma experiência de quase transcendência.
 
Brendel nunca quis sobrepor a sua arte à dos compositores e, por isso, foi rigoroso no escrúpulo com que os interpretou e trouxe até nós a música que eles queriam que se ouvisse. Esta forma de tocar os grandes, fazendo-se pequeno é fabulosa porque mantém intacta a pureza inaugural dos maiores compositores de sempre.
 
Ouvir Beethoven ou Haydn ou Mozart tal como eles queriam ser ouvidos, sem efeitos nem extravagâncias para além das que os próprios autores escreveram, é maravilhoso mesmo para quem, como eu, é razoavelmente leiga em matéria de cultura musical.Gosto dessa pureza e gosto de ser levada nesse caminho dos Mestres da composição pela mão dos Mestres da interpretação.
 
Não é possível descrever os sentimentos que se sentem ao ouvir um pianista como Brendel tocar a Última Sonata que Schubert escreveu antes de morrer e é a sua despedida à vida. É uma peça intensa que atravessa todos os registos da interpretação lírica e nos faz ir da tristeza à euforia, do êxtase à dor e convoca sucessivos estados de alma.
 
Na sala do Palau de La Musica em Barcelona sentia-se o perfume das senhoras e essa mistura indizível de gente que escolhe o fato adequado à cerimónia e usa acessórios simples ou requintados mas demoradamente pensados para não brilharem nem fazerem ruído. Estas pessoas sabem que nada nem ninguém pode brilhar mais ou tocar mais alto do que o próprio Brendel e também esta contenção cerimoniosa e grave encanta e comove naquela imensa sala de vidros e porcelanas, madeiras e veludos, onde a música se espalha e se ouve como se todos estivéssemos sentados à volta de Brendel, no canto da sua casa.
 
Brendel tocou a alma e o coração de todos os presentes. No fim do recital Alfred Brendel voltou ao palco para três encores sublimes. E mais uma vez sussurrou partes das músicas enquanto as suas mãos percorriam as teclas e o seu piano tocava as nossas fibras mais sensíveis.
 
Brendel desperta sempre emoções profundas mas aquela era a última vez que o víamos num palco de Barcelona e a grande despedida ficou marcada por ovações intermináveis e lágrimas contidas ou derramadas dos que choravam o adeus mas, também, a infinita gratidão perante um homem de 77 anos que se retira no auge da sua carreira porque ainda quer fazer muitas outras coisas antes de morrer.
 
publicado por Laurinda Alves às 19:54
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5 comentários:
De Isabel Maia a 16 de Dezembro de 2008 às 20:27
Querida Laurinda...

...como gostaria de ter estado nesse concerto!...
Obrigada pela sua partilha. A do concerto, a forma como o descreve e o faz chegar até nós... A do Homem espantoso que é Brendel e o que, de outras formas, ainda poderemos vir a aprender com ele.
É bom vir aqui.
Obrigada. Muito obrigada mesmo!
Sempre,
Isabel (Leiria)
De silviacarmolopes@gmail.com a 16 de Dezembro de 2008 às 20:48
Olá Laurinda,

Na minha imensa ignorância não conheço Brendel, mas depois deste post quero conhecer. Infelizmente já não vou a tempo de o ouvir tocar ao vivo...
Não conheço o Brendel mas conheço o Palau. Foi um dos sítios que visitei que me emocionou. Escrevi sobre isso não há muito tempo no meu blogue. Não tenho pretensão que vá ler, mas se tiver curiosidade aqui fica http://oplanetadapiquenina.blogspot.com/2008/12/o-que-me-emociona.html

Obrigado por este mimo para a alma que deixou aqui neste post. Parto à procura de Brendel. Ficarei certamente mais rica depois de o ouvir.

Bjinhos,
Piquenina
De Moura Aveirense a 17 de Dezembro de 2008 às 00:40
Brendel é um dos meus pianistas preferidos, o seu Mozart e Schubert acompanhou-me durante a escrita da minha tese de Doutoramento. É um prazer infindável. E o Palau de Música de Barcelona, que sala tão bela!

Uma boa noite, Moura Aveirense
De solnocoracao a 17 de Dezembro de 2008 às 11:07
Bom dia Laurinda!
Supremo e é a música que nos leva e transporta para sentimentos únicos e inimaginaveis!
Editarão?
Obrigada pela partilha!
Bj
De Augusto Küttner de Magalhães a 17 de Dezembro de 2008 às 11:22
Laurinda este seu post é fantástico, faz-nos viver momento a momento o que se passou, como se passou, como se lá tivessemos estado! Fantástico, parabens Laurinda, por estes momentos em que consigo também lá quis que estivéssemos. E obrigado! Augusto

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