Sábado, 6 de Dezembro de 2008
Em homenagem às vítimas do naufrágio ontem

 

Rosamar naufragou ontem na Galiza, com uma tripulação de 13 pescadores:  8 portugueses e 5 indonésios. Três portugueses morreram e cinco foram resgatados mas há outros cinco que continuam desaparecidos. As operações de salvamento foram retomadas esta madrugada. Neste momento há famílias em luto e grande sofrimento. Há uns anos escrevi sobre o naufrágio de fragateiros no Tejo, que morreram com Lisboa à vista depois de uma noite de grandes tormentos. Em homenagem aos pescadores que perderam a vida na Galiza, deixo aqui essa crónica que foi adaptada ao cinema por José Nascimento. O filme chama-se Tarde Demais. 

 

 

O dia ainda vinha longe mas o barco já ia pesado. Passava das seis e meia. a madrugada gelava os ossos e o vento arrepiava os gestos. Chovia sem parar. Quatro vultos deitavam as mãos às redes com o vigor de quem luta pela vida. Mais duas braçadas firmes, a compasso, e ficou rematada a faina. Os robalos debatiam-se no escuro antes de serem atirados para o fundo e os vultos iam ganhando cor. Os sorrisos, esses, ganhavam o contorno habitual. O dia ainda mal começara mas, para os quatro homens, estava terminado.

 

Exaustos, sentaram-se à uma. Preparavam-se para o aconchego do cigarro quando sentiram um torpor excessivo no motor. O bote parecia arrastar todo o peso do mundo. Um deles inspeccionou os cantos enquanto os outros tentavam prescrutar o fundo. De repente deram-se conta de que havia um rombo por onde a água entrava em cachão. Apressaram-se a dar vazão à água que subia mas a força dos braços nada podia contra o ímpeto do rio.

 

Havia uma bomba pequena que costumava servir, mas também ela se revelou escassa. A água transbordava e ameaçava afundar o barco. "Não demos vencimento àquilo, a água era demasiada." Lestos de movimentos e raciocínio, dividiram tarefas e enquanto uns recolhiam os coletes de salvação, os outros desembaraçavam-se da roupa mais pesada. O barco ia a pique e a não ser as suas vidas, nada mais havia ali para salvar.

 

Arruinada, a velha embarcação há muito não tinha rádio nem reservas de alerta ou protecção. Meio submersa, deixou rapidamente de dar luz e, antes das dez da manhã, já não havia vestígio da pobre lancha. No coração das ondas concêntricas desenhadas pelo afundamento, ficaram quatro homens tolhidos de frio a tentar desesperadamente manter à superfície o corpo e a esperança.

 

 

Durante mais de cinco horas agitaram os pés e as mãos na água gelada. tinham todos perto de 60 anos mas pareciam crianças aflitas. Chovia impiedosamente e o vento não dava tréguas. Fustigados pelas ondas, faziam os impossíveis para permanecerem juntos e encontrar uma saída. o barco encalhara numa coroa de areia e eles sabiam que a maré havia de baixar. Nessa altura, com sorte, a superfície do barco emergia e eles descansavam um pouco.

 

"Tivémos salvamento à vista por três vezes." E por três vezes os batelões se afastaram, indiferentes aos gestos de desespero e aflição. "Batíamos com os pés na água com muita força para ver se nos viam, mas nada." O dia estava embaciado. O céu, muito baixo, abafava os movimentos e as nuvens diluiam o horizonte na água do rio. Tudo assustadoramente conjugado para a desgraça dos quatro amigos.

 

"Estivemos mais de cinco horas ao frio, à chuva e ao vento, todos encharcados. Sabe Deus o que passámos. Foi aquela chuva a bater permanentemente, o frio gelado e tudo aquilo que deu conta da gente. Aquelas horas destroçaram-nos completamente. Foi o pior que podia ser." Das fraquezas fizeram forças e aguentaram-se até a maré acabar de vazar. passava das três da tarde quando o barco voltou a ficar à superfície e eles de pé com o corpo fora da água.

 

 

 

"Tínhamos de andar por cima das ostras." Caminhavam descalços de pés rasgados e começaram a tirar as roupas para conseguir nadar entre os mouchões. Era dura a provação e sabiam que fatalmente acabariam a travessia do rio com o corpo todo cortado. Olharam para o horizonte e perceberam que o caminho da salvação era pela lezíria do Lombo do Tejo. "O tempo já era pouco, era preciso rasparmo-nos depressa e aquela era a hora ideal porque a maré estava vazia."

 

Partiram. "O José foi à frente, estava apanhado pelo frio. muitas vezes fora impedido de pescar pelas próprias mãos, que se negavam à lida por estarem geladas. Sofria muito com o frio." Seguiu minutos antes dos outros, na miragem de alcançar mais um pedaço de terra firme e mostrar o caminho aos amigos. "O Zé estava muito fraco e caía. Tropeçava na lama mas eu cheguei-me a ele e levantava-o e dizia-lhe para vir comigo." Mas o corpo de José Fragateiro, derrotado pelo frio, recusava-se a andar mais. O lodo dava pela altura dos joelhos e tornava muito penosa a caminhada. Os amigos gritavam de desespero para não o deixarem morrer.

 

"Se ficássemos ali morríamos todos. Achei que era melhor nadar para terra para pedir ajuda." Foi o que fez, com o coração apertado por deixar o José sozinho. "Deus queira que chegue a horas, deus queira que chegue!" era o pensamento obsessivo de Manuel Aranha, um dos sobreviventes e o que relata o naufrágio. Perto das dez e meia, já noite cerrada, Manuel deu à costa. "Fui parar a Santa Iria, à fábrica do gás. Chamaram a ambulância e deram-se apoio no posto médico."

 

Manuel Aranha estava em colapso físico e emocional mas ainda arranjou forças para fazer um rascunho onde indicou a posição do barco e o lugar do mouchão onde ficaram os amigos. Depois não se lembra de mais nada. Nessa altura as mulheres dos pescadores há muito estavam em sobressalto, com o coração cheio de angústias. No Montijo, a terra dos pescadores desaparecidos, ninguém tinha sossego.

 

A noite caiu, opressiva e o seu peso afundou as famílias numa angústia cada vez maior. Quando chegou a notícia de que Manuel Aranha chegara a terra as mulheres rezaram, choraram e riram. Talvez os outros tivessem vindo com ele. Correram pela rua a saber mas afinal ainda estavam no rio. Em terra, Josélia e José Fragateiro, mulher e filho do pescador mais velho, faziam os impossíveis para resgatar os náufragos. Pediram um helicóptero mas responderam-lhe que não podia levantar àquela hora da noite.

 

José Fragateiro e Joaquim Silva, dois dos três pescadores que continuavam no rio, passaram mais uma noite ao relento, despidos sobre o lodo. António tinha-se amarrado ao barco com umas cordas e assim continuava. Na manhã seguinte, cumprida a burocracia e concedido o estatuto aos pescadores, o helicóptero levantou voo e em menos de meia hora os corpos foram encontrados. Amanhecera e Lisboa estava de novo à vista. Tão perto que até parecia ao alcance de um braço.

 

Josélia Fragateiro e Maria Domitília Silva foram chamadas a reconhecer os maridos. a eficácia póstuma das autoridades dilacerou ainda mais o coração das viúvas e filhos dos pescadores. No dia do entrerro não havia um palmo de terra por onde pisar. Manuel Aranha e António Fragateiro, primo de José, estavam entre a multidão e mais uma vez choravam como duas crianças.       

 

"O Zé é que nos ajudou a aguentar aquelas horas todas no mar. Falava, contava coisas e prometia que ainda havíamos de fazer uma caldeirada todos juntos." Não teve essa sorte.

O helicóptero, disseram mais tarde as autoridades, não voa de noite porque não tem holofotes. Talvez até conseguisse voar mas para isso era preciso que o apelido dos náufragos não rimasse com Fragateiro, nome singelo dos homens simples e rijos que se aventuram em fragatas no rio Tejo.

 

 

publicado por Laurinda Alves às 11:13
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4 comentários:
De Romina Barreto a 6 de Dezembro de 2008 às 12:26
É dificílimo explicar aquilo que se sente ao ler este texto, um turbilhão de emoções apodera-se de nós e também uma certa tristeza no olhar.
Ao ler este texto lembrei-me que era jornalista, digo isto porque quase nunca me lembro que é jornalista quando escreve aqui...porque quando a Laurinda escreve aqui imagino-a mais como escritora.

Bem, o Zé foi um corajoso. A história é fatalmente triste e eu fiquei triste com o desfecho e fiquei ainda mais triste por saber que a história é real, não é ficção…

Sabe, hoje quis deixar a minha marca neste blog porque este dia anuncia-se especial, para mim pelo menos!
Vamos ver o Madagáscar com o Joãozinho e o fim da tarde vai ser muito divertido. Gosto de acordar com a certeza de que o dia vai ser povoado por muitas gargalhadas, abraços e saber que à noite vai haver um jantar de mesa comprida cá em casa, isso enche-me de alegria e nostalgia. Hoje vai ser diferente!

Obrigada por tudo querida Laurinda!

Abraço transoceânico.

Romina Barreto.
De VIGUILHERME a 6 de Dezembro de 2008 às 13:22
HÁ dias e textos com os quais ficamos sem palavras para exprimir o sentir......são dias e palavras de sabor a sal das lágrimas,a escuridão de dor, a agonia do dia ,o de não saber porque existir... há dias em que o silêncio é de ouro,de sangue, de morte......mas há também um abraço , ou um grito ,uma presença e quem esteja atento para existir......
De padeiradealjubarrota a 7 de Dezembro de 2008 às 01:56
Nem há palavras. Terrível a morte no mar:
a luta, o enregelamento, o desfalecimento, o pensamento - com tempo suficiente para se reviver a vida vivida, e enfrentar o impensável: a morte.
Como é possível um mar que amamos tornar-se tão cruel e tenebroso.
A todos os que nele padeceram, Paz e Luz.
De bibabalula a 7 de Dezembro de 2008 às 02:11
É verdadeiramente angustiante a leitura deste texto pois, infelizmente não é o relato de um primeiro acidente no mar com pescadores à rede, nem será o último, isso é uma certeza, como aconteceu agora na Galiza.
Mas o mais revoltante é, sem dúvida, o facto/razão pela qual estes bravos e corajosos homens perderam as suasvidas, sempre pelo motivo óbvio, de falta de assitência, por parte das entidades competentes, que existem neste contexto e âmbito, que deveriam estar preparadas, em qualquer situação e ocasião, para darem uma resposta rápida de socorro urgente, o que nestes casos significa a diferença entre a sobrevivência e a morte, que estão tão perto uma da outra e fazem toda a diferença se os meios existentes estiverem perfeita e completamente munidos de todos os dispositivos necessários para funcionarem com eficácia.
Estamos no século XXI e não existe explicação para que assim não seja.

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