Sábado, 8 de Novembro de 2008
Detesto estes gestos obscenos no meio do trânsito!

(Texto escrito para o jornal Público de sexta-feira, 7 de Outubro)

 

Detesto gestos obscenos feitos com raiva, arrogância e desprezo no meio do trânsito. Detesto más maneiras e gente castigadora que usa e abusa de palavrões a propósito de tudo e de nada.

 

Numa semana marcada por situações de descontrolo ao volante, em que assisti a duas cenas caricatas protagonizadas por pessoas aparentemente de bem, gente que habitualmente não se excede nem grita, ocorre-me falar do conceito road rage que, afinal, é um fenómeno universal.

 

Está estudado que todos ficamos potencialmente mais agressivos quando estamos ao volante, e é interessante explorar o que dizem os especialistas em comportamento nesta matéria tão sensível como explosiva da fúria de guiar.

 

Dos mais pacatos aos mais nervosos todos temos alterações de comportamento quando guiamos um carro. Ninguém escapa à regra e, ao que parece, não há excepção.

 

Pais dedicados e tranquilos gritam obscenidades em frente dos filhos só porque o taxista da frente parou na berma sem fazer pisca; mulheres educadas e competentes perdem a cabeça e dizem palavrões de rajada porque um carro se atravessou no seu caminho; senhores todos postos por ordem fazem gestos ameaçadores quando se sentem pressionados por uma buzina mais insistente; jovens ditos normais transformam-se em seres coléricos quase bizarros se alguém não os deixa ultrapassar, e até velhinhos e velhinhas podem transformar-se em pessoas verdadeiramente hostis na estrada.

 

Feliz ou infelizmente ninguém é imune à raiva nem ao espírito de retaliação quando está ao volante. Todos somos vulneráveis à ira e todos somos capazes de fazer e dizer coisas que seriam inconcebíveis no nosso estado normal.

 

Há uns anos atrás escrevi sobre este assunto na revista XIS e agora retomo-o justamente pelas duas cenas de rua que presenciei em pleno centro de Lisboa e só não acabaram mal por absoluto milagre.

 

Leon James, psicólogo norte-americano que investiga as razões daquilo a que se convencionou chamar road rage e orienta cursos de traffic psychology há mais de 30 anos, tem um método de investigação, ensino e treino muito particular: pede aos seus alunos que instalem câmaras de filmar dentro do carro e propõe-lhes que gravem livremente e sejam actores dos seus próprios filmes.

 

Em sucessivos anos de gravações, Leon conseguiu resultados prodigiosos na medida em que consegue analisar com muita precisão a forma como cada um reage a pequenos e grandes acidentes de percurso.

 

O efeito espelho proporcionado pelas gravações é profundamente embaraçante mas altamente eficaz na correcção dos excessos. Isto porque devolve a cada um dos protagonistas e exacta medida da sua raiva, e revela até onde pode ir a sua agressividade. Mais, os vídeos permitem perceber a rapidez e a desproporção com que reagimos a estímulos insignificantes.

 

A teoria sobre o fenómeno road rage é vasta e abrangente e na impossibilidade de a resumir aqui, deixo as referências sobre a matéria e uma pista sugerida por Leon James que aconselha a adoptar uma atitude de latitude na estrada. Ou seja, a ganhar distância e a resistir ao desejo de vingança ou retaliação que tantas vezes nos assalta quando estamos ao volante e tudo nos parece uma provocação.

 

Esta atitude de latitude consiste em antecipar os erros dos outros, em concentrarmo-nos na eficácia e prudência das nossas próprias manobras em vez de nos desperdiçarmos a castigar perversamente os que se atravessam no nosso caminho.

 

Acima de tudo importa manter sempre uma certa distância de quem vai à nossa frente, ao nosso lado ou atrás de nós. Parece óbvio, não parece? Dito aqui, sim, mas vivido na estrada no cúmulo de nervos e stress habitual, as coisas não são assim tão fáceis.

 

Leon aconselha muito sentido de humor e uma capacidade de encaixe superiormente ensaiada, na certeza de que os erros que os outros fazem hoje não são maiores do que os que nós fizemos ontem ou faremos amanhã. 

publicado por Laurinda Alves às 01:13
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5 comentários:
De Duarte a 8 de Novembro de 2008 às 16:32
Admita que “todos” talvez seja excessivo.

Eu não serei um condutor exemplar. Não sou: também cometo erros, involuntariamente. E assisto a manobras perigosas, as mais diversas. Mas não reajo provocadoramente, com palavras ou com gestos. Nem sequer acciono a busina. Depois, por vezes, alguns dos (e das) responsáveis por essas manobras olham para mim comprometidos.

A minha filha, uma jovem já crescida, ainda recentemente comentou: - “Qualquer dia, o pai já não sabe onde fica a busina!”.

Admito que a minha atitude de reserva seja mais severa do que qualquer manifestação repreensiva.
De Nanda a 8 de Novembro de 2008 às 22:34
Detesto comportamentos agressivos e excessivos... Compreendo que, por vezes, haja atitudes incorrectas que possam suscitar comentários ou pensamentos menos amistosos. Daí a gestos ou palavras impróprias vai uma diferença abismal, a de uma pessoa civilizada para outra... e não digo o termo. Cada qual que o acrescente pense e se analise. Eu já o fiz!
De bibabalula a 9 de Novembro de 2008 às 02:25
Pois é bem verdade, e temos que admitir, que todos nós nos tornamos diferentes e mais agressivos, quer com atitudes e reacções que não manifestamos habitualmente, quer com reflexões que interiorizamos e conseguimos dominar com algum, para não dizer muito esforço.
Eu quando fazia milhares de quilómetros por semana e tinha o tempo programado para atingir os meus objectivos prioritários, devo confessar que era uma condutora muito refilona, agressiva na forma de guiar, não perdoava nem permitia nenhuma manobra menos correcta, a menos que me pedissem para a fazer, mas nunca fui o género de andar a torto e a direito a dizer palavrões.
Havia e ainda há mesmo situações em que consigo desconcertar os condutores(as) que, como exemplo me ocorre neste momento, barram a passagem num cruzamento ou passagem para outra rua, eu pura e simplesmente olho para eles(as) e bato palmas com um ar irónico-depreciativo e não calcula os diversos efeitos que provoco: pseudo-indiferença mas c/sinais evidentes de inquietação e mal estar;
tentativa de marcha atràs ou à frente para remediarem a situação; sorrisos e desculpas aos quais eu reajo de igual modo, devo admitir.
Mas o que reina não só nestas situações mas em qualquer local em que nos encontremos é acima de tudo um egocentrismo exarcebado aliado a uma falta de civismo e de educação quase geral com atitudes de tentativas de "atropelamento" com uma grande dose de falta de respeito pelos outros.
Eu estou contínuamente a chamar a atenção das pessoas de todos os escalões hetários, especialmente das crianças, pois elas serão os adultos do futuro, de que o mundo é um espaço onde todos vivemos e que há espaço para todos, não é necessário "atropelarmo-nos" ou empurrarmo-nos. Eu penso que esta é a mensagem mais importante a transmitir.
De Moura Aveirense a 9 de Novembro de 2008 às 10:52
Há dias uma senhora absolutamente descontrolada fartou-se de me insultar, por eu ter travado à entrada de uma rotunda (visto que um autocarro terrivelmente apressado se lanço pela rotunda à minha frente)... não há paciência, nem olhei para a cara dela, o desprezo é a melhor solução para se lidar com este tipo de gente. Começar aos gritos e descer ao nível deles, nunca!
De Su a 10 de Novembro de 2008 às 21:04
São lamentáveis as cenas que muitas vezes surgem... nunca vi, mas tenho uma amiga que me contou já ter assistido ao início de uma "pancadaria", em plena Estrada Nacional (entre Leiria e Coimbra), apenas por causa de uma ultrapassagem. Quando estou a conduzir, procuro ser uma pessoa educada e civilizada, deixo as pessoas saírem do estacionamento, deixo entrarem nos cruzamentos (há sítios muito complicados, em que se não for o bom senso dos outros condutores ficamos vários minutos para entrar)... Mas também tenho os dias não... e irritam-me especialmente os condutores que vão a 20km hora. Não lhe chamo nome nem faço gestos menos adequados, mas saí-me muitas vezes entre-dentes: "olha-me este pisa vos!".
Uma beijoka

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