Sábado, 1 de Novembro de 2008
O pequeno livro de um grande homem

(crónica escrita para o Público de sexta-feira, dia 31 de Outubro)

 

Tenho na minha secretária um livrinho estreito e comprido, de apenas 70 páginas, que passou quase despercebido enquanto esteve enfiado numa das pilhas que se multiplicam sobre a madeira clara e ampla onde há de tudo, desde o colossal Paraíso Perdido de John Milton ao último micro-conto escrito por Juan Manuel de Prada, passando pelas Opiniões Fortes de Nabokov, pelos Scritti Sull’Arte de Rothko, uma de várias biografias de Yourcenar, os Retratos e Auto-Retratos de Vasco Pulido Valente, revistas de culto, colecções de contos, livros mais ou menos avulsos, muita poesia e um cúmulo de papelada chata sempre em atraso.
 
 
 
 
Olho para o pequeno livro, entalado entre Brodsky e Beckett, tiro-o da pilha e abro-o ao acaso. É uma colectânea de crónicas escritas no ano de 1990 por Alberto Vaz da Silva, com fotografias de Jorge Molder. As crónicas, publicadas no jornal Semanário, têm um título exclamativo e são eloquentes do espanto-à-flor-da-pele de Alberto, coisa que sempre me fascinou nele. “Ah!” era o título das páginas efémeras do jornal e é agora o nome do livro cujo destino é permanecer, mesmo quando teima discretamente em sumir-se entre as lombadas dos fortes e poderosos da escrita.
 
Li este livro quando me foi oferecido pelo próprio Alberto e lembro-me de o ter lido sempre com um sentimento especial. Qualquer coisa de indizível mas que aqui e ali se traduziu num sorriso pelo reconhecimento íntimo de uma figura; numa pausa provocada pela curiosa abstracção de quem (d)escrevia ou pela precisão de uma elaboração mais incisiva e interpeladora. Hoje voltei ao livro e tive a mesma sensação. Começa por haver uma página lisa e limpa onde se lê, em letra impressa, a palavra “Dedicatória”. Gosto desta ideia de abrir uma página especial para dedicar o livro, sem ter que disputar depois os espaços em branco entre títulos e sub-títulos.
 
Esta página, onde Alberto escreve à mão aquilo que quer dizer a quem oferece o seu livro ou onde uns assinam para dedicar a outros, é apenas um detalhe eloquente da sensibilidade e delicadeza de alma de Alberto Vaz da Silva, que é um homem grande no sentido literal mas também no sentido mais profundo do termo.
 
 
Conheci o Alberto há 25 anos numa casa muito bonita que tem numa pequena aldeia no alto de um monte debruçado sobre campos lavrados, com mar ao fundo. Helena e Alberto sempre revelaram o melhor de si mesmo nas casas que habitaram e esta era invulgarmente bonita. Acima de tudo, muito vivida e bem vivida. Ali chegavam e partiam filhos, netos, amigos e amigos dos amigos, e para todos eles havia um gesto acolhedor, um lugar próprio, um pequeno nada que fazia toda a diferença. Em dias frios, de vento salgado, a casa estava sempre quente e a cheirar a forno. Nos dias quentes as janelas ficavam abertas dia e noite e havia pátios e terraços para ficar a ver as estrelas e a ouvir os barulhos do mundo.
 
Nessa casa havia e há um pequeno mirante onde Alberto passava longas horas a olhar para o céu com o seu eterno espanto de rapaz que não se cansa de perguntar e voltar a perguntar.
 
Os anos passaram e mesmo quando estivemos mais ausentes sabíamos que estávamos presentes. Aconteceram coisas muito boas e muito más, ganhos fantásticos e perdas dolorosas que partilhámos por pertencermos a um núcleo alargado de pessoas que se querem bem e gostam muito. Fomos cruzando caminhos e actualizando estórias, às vezes em festas ou casamentos de amigos, outras vezes em lanches que também eram tertúlias no jardim de Lisboa, outras ainda em conversas breves nos encontros de rua ao acaso.
 
Alberto Vaz da Silva foi advogado uma vida inteira sabendo de coração que o seu maior dom é o da decifração cósmica, esse desvendar consciente dos sinais do universo, essa interpretação maravilhosa dos mistérios da vida. Fascinado pela Astrologia e pela Grafologia (escritas com maiúsculas, note-se) correu mundo, conheceu gente, explorou bibliotecas e chegou muito longe. Sabe coisas que mais ninguém sabe e fala de traços e pontos com uma assurance e uma luz admiráveis. 
 
Encanta-me esta sua ciência e apaixona-me o seu entusiasmo e, por isso, nunca me canso de o ouvir falar. Inscrevi-me num dos seus cursos de grafologia para saber mais sobre esta linguagem íntima que nos revela e surpreende. Fiquei a saber muito pouco mas a culpa não é do Alberto, é minha porque fiz apenas o primeiro módulo. A Grafologia é de tal maneira densa e complexa que são precisos anos de estudo aturado para começar a entrar na lógica e desenho das letras escritas por mãos que pousam no papel e deixam marcas indeléveis da personalidade.
 
Alberto tem uma voz forte e um discurso vibrante sempre que fala destas e outras matérias que nos transcendem. É impossível não ficar suspenso das suas palavras, dos seus raciocínios, da sua arquitectura mental e afectiva tão extraordinária como sedutora.
Hoje lembrei-me dele por causa do livrinho pousado sobre a secretária. Ia escrever sobre outras coisas mas ele prendeu-me a atenção e obrigou-me a mudar de ideias. E de rumo.
É incrível como um pequeno objecto, tão fino e discreto pode impor a sua presença desta maneira. Escondido entre obras volumosas, hoje gritou e eu ouvi. Não sei explicar estas coisas mas o Alberto sabe de certeza. E se, por acaso, não souber explicar pelo menos sabe compreender.
 
E termino a minha deriva com uma citação do livro, da primeira crónica em que Alberto se pergunta o que aconteceria aos homens se estabelecessem e mantivessem contacto com uma inteligência extraterrestre, e onde se interroga sobre quais as melhores pessoas e os saberes mais elevados que os terrestres poderiam levar consigo numa embaixada que pudesse dar aos outros uma imagem da Terra?
 
“Seria preciso meter à pressa num saco velho as guerras e os genocídios, a política mais primitiva, a palidez da imprensa, o mais ou menos vergonhoso abuso generalizado do poder sob a forma de dinheiro. Reunir-se-iam certamente os estandartes Galileu; Newton e Einstein, Leonardo, Miguel Ângelo, Homero, Shakespeare, uma selecção dos poucos vestígios autênticos da Antiguidade, talvez Empédocles, livros sagrados, Mozart e alguns mestres, sábios, santos e homens pacíficos do Oriente. Se fosse hoje, Gandhi, João XXIII e Gorbachev. Umas quantas formigas, marsuínos, frésias. E os cumes dos Himalaias.”  
              
publicado por Laurinda Alves às 15:55
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4 comentários:
De Vanity a 1 de Novembro de 2008 às 17:27
Cara Laurinda:

Esta semana encontrei-a no meu hospital na fila do almoço. tive vontade de lhe dizer que gosto de si apenas e só pelo que escreve. não tive coragem, mas faço-o agora. Obrigada pelo que partilha connosco.
De VIGUILHERME a 2 de Novembro de 2008 às 09:22
Voltou o meu computador a desaparecer com as letras já escritas......novamente vou tentar reescrever e recorrer posteriormente a um técnico...........mas é assim ....as máquinas zangam-se comigo por vezes ,mesmo respeitando-nos, acontece bloquear e envia-me uma mensagem "update 0% completo" que não consigo descodificar e pum.........Deixo-o destrair-se e desconcentrar-se e volto a comunicar e por vezes mais solicito ou não ,vou entramelando algumas letras.......

Bem quem sou eu , para dizer algo, mas ....tenho visionado seus textos sempre de uma grande riqueza Humana , Solidariedade ,criatividade, mistério e surpresa. Admiro a sua volatilidade nos espaços que percorre com Amor,Solidariedade e registo.....e sinto-me solidaria consigo na vertente Humana e na sua dádiva na proximidade aos outros...pois tamém me debruço por vezes nessa vertente quer em contributos familiares ,quer sociais de dimensão restrita mas solidaria.

Os textos sobre a agressividade gratuita como nos tem apresentado é desesperante e de difícil entendimento como as guerras e as atrocidades implicitas e explicitas que nos envolvem ,sinto.me consigo nessa luta .
A frase "o meu lapís dura mais que a minha borracha "silência-me muitas vezes.....

Os grandes pequenos livros levam-nos a sítios desconhecidos da mente e do entendimento....

Amudança da hora conduz-nos aos ciclos da Natureza----o tempo de Verão e o tempo de Inverno, ou melhor ao solstíciode Verão que se refere á festa do Sol e que inicia a fase descendente desta estrela para se ir progressivamente entrar na fase da obscuridade ,até se atingir novamente o Solstício de Inverno e entrar na porta do Inverno ,que dá inicío á fase progressiva de luminiosidade,de renascimento,de concepção, de gestação,apartir daí a luz do dia cresce e atinga o seu zenite novamente no solstício de Verão.... a hora de Verão e Inverno é um acerto humano ,penso eu , deste ciclo....

Os encontros e reencontros com amigos é sempre um acto de magia ,de festa, sentarmo-nos com os pés debaixo da mesa e partilhrmos o alimento da refeição em tertulia, confronto,humor ,alegria .......é raro nos tempos que correm mas é de os abraçar e criar pontes para eles reviverem e nunca esquecer........

Depois de tanto tempo em que meu computador se zangou ,gosto de estar com todos deste blog, e tinha de conversar sobre esses dias , desculpem este texto tão comprido .......saudações
De Romina Barreto a 2 de Novembro de 2008 às 12:27
Sabe Laurinda, as palavras começam a esgotar-se, não sei o que hei-de dizer!
Este texto é um autêntico prodígio, é tão belo...
Adorei esta sua deriva!

“Seria preciso meter à pressa num saco velho as guerras e os genocídios..."
ADOREI!

Romina Barreto
De mariam a 2 de Novembro de 2008 às 16:32
sensibilizada fiquei, com este post!
vou querer conhecer a escrita d'esse Homem.

um sorriso :)
mariam

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