
Aproveito a boleia do programa de Televisão em que vou participar hoje (Sociedade Civil no Canal 2, às 14h30) e a boleia do voo dos pássaros para deixar aqui um olhar mais abrangente sobre as questões relacionadas com os cuidados em fim de vida. Numa altura em que muitos confundem conceitos e dizem coisas absurdas sobre eutanásia, suicídio assistido e cuidados paliativos, vale a pena começar pelo princípio. Pela definição exacta de cada conceito, quero dizer. Aqui fica a síntese.
Morte digna – A morte natural, com todos os alívios médicos adequados, através de uma intervenção global no sofrimento humano. Também é denominada ortotanásia.
Ortotanásia – A morte em boas condições, com o alívio dos sintomas físicos e psicológicos que provocam sofrimento.
Eutanásia – Acção ou omissão por parte do médico com intenção de, por compaixão, provocar a morte do paciente em sofrimento e sempre a pedido do doente. No nosso país não é legal e é uma prática eticamente reprovável.
Eutanásia activa – A eutanásia que, através de uma acção concreta provoca a morte do paciente.
Eutanásia passiva –A eutanásia que, por omissão de cuidados ou tratamentos que são necessários, proporcionados e razoáveis, deixa morrer intencionalmente o paciente.
Eutanásia voluntária – A eutanásia que se leva a cabo com o consentimento do paciente, o que é um pressuposto para se falar de eutanásia, pelo que esta expressão é uma redundância e não se deve utilizar.
Eutanásia involuntária - A eutanásia praticada sem o consentimento do paciente, o que, na prática, corresponde a homicídio. É, por isso mesmo, uma expressão equívoca e incorrecta.
Encarniçamento terapêutico(ou obstinação terapêutica) – A aplicação de tratamentos que, sobretudo num contexto de doença avançada e irreversível, se podem considerar inúteis ou de tratamentos que, embora úteis, são desproporcionadamente incómodos para o resultado que deles se espera ou até caros. Esta situação prefigura má prática médica e é eticamente reprovável.
Distanásia – A morte em más condições, com dor, incómodos, sofrimento... Seria a morte com um mau tratamento da dor e de outros sintomas ou a associada ao encarniçamento terapêutico.
Sedação paliativa - A correcta prática médica de induzir o paciente no sono para que não sinta sintomas desagradáveis, nos raros casos de sintomas refractários aos tratamentos preconizados pelos avanços técnicos actuais. Existem diferentes tipos de sedação. Uma sedação suave que acompanhe e potencie os analgésicos, mantendo a consciência do paciente, é muito recomendável .
Eutanásia directa – O que se entende comummente como eutanásia; isto é, a morte intencional do doente, pelo médico, por compaixão. Pode ser activa ou passiva.
Eutanásia indirecta – Na realidade não existe, já que não há eutanásia se não houver intenção de provocar a morte, pelo que a expressa não se deve usar. Seria para alguns, que confundem outros com esta expressão, a morte não procurada do paciente no decurso de um correcto tratamento paliativo, por exemplo, contra a dor ou falta de ar (conceito do duplo efeito) . É importante ressaltar que, à luz dos conhecimentos actuais, quando se respeitam as regras da correcta utilização dos opióides, não se corre o risco de encurtar a vida dos pacientes. Existe sim evidência de que os bons cuidados paliativos podem aumentar o tempo de vida do paciente.
Doente paliativo – Aquele que padece de uma doença para a qual não existe um tratamento curativo ou de uma doença muito grave, às quais está associado habitualmente grande sofrimento físico e existencial. Pode ser um doente não oncológico ou oncológico e ter anos, meses ou semanas de vida.
Doente terminal – Aquele que padece de uma doença incurável e avançada, previsivelmente mortal a curto prazo: três a seis meses, de acordo com a OMS.
Doente moribundo – Aquele que tendo uma doença avançada e irreversível, apresenta previsivelmente dias ou horas de vida.
Cuidados Paliativos – os cuidados de saúde interdisciplinares, rigorosos e humanizados, destinados a intervir activamente no sofrimento dos doentes avançados e incuráveis e/ou muito graves, e seus familiares, com o objectivo de lhes proporcionar dignidade e a máxima qualidade de vida possível. Aceitam a inevitabilidade da morte, não prolongando o sofrimento, mas não a provocam.
(adaptado e aprovado pela
APCP)
De
viadaluz a 29 de Outubro de 2008 às 10:59
Excelente esta síntese. Alguns conceitos desconhecia por completo, tais como "encarniçamento terapêutico" (arrepia!)
Vou estar muito atenta logo às 14:00 no Canal 2. Continuação de um dia muito produtivo.
De
Monica a 29 de Outubro de 2008 às 12:28
toda a sorte e inspiração do mundo para o programa!
De anaoliviera a 29 de Outubro de 2008 às 14:34
Muito interessante este seu post de hoje e fiquei muito elucidada com ele.Desconhecia alguns dos termos e muito agradeço o esclarecimento.
Tenho muita pena de não ver hoje o SociedadeCivil .
Cumprimentos
AnaOliveira
Funchal 29-10-2008
De
Reflexos a 29 de Outubro de 2008 às 15:08
Por mutas vezes que leia estes termos, de nenhuma delas deixo de me arrepiar.
Mas a realidade tem de ser enfrentada e, infelizmente, temos de estar informados... por muito que nos custe e arrepie.
O programa já começou ( são 15h07), por isso não desejo boa sorte, mas obrigada por nos informar.
De Romina Barreto a 29 de Outubro de 2008 às 16:00
Obrigada Laurinda!
Cheguei a ver o final do programa, mas quando estiver disponível no blog da sociedade civil vou vê-lo desde o início evidentemente! Porque este é um assunto que diz respeito a todos nós...
Resto de um bom dia!
Romina Barreto
De Mafalda Moura Soares a 29 de Outubro de 2008 às 16:19
Obrigada pela partilha.
De Anónimo a 29 de Outubro de 2008 às 18:52
Obrigada por deixar aqui o significado de todos estes termos.
Cheguei a casa, mesmo a tempo de ver este post e ligar a televisão ,mas só agora se proporcionou comentar .Gostei de ver a Dr. Isabel e a Laurinda ,falarem com o conhecimento de quem está no terreno há algum tempo .É bom que se elucide publicamente com a honestidade e a garra que vos caracteriza .
Força! Muita força para esta caminhada com tantos obstáculos.
Um abraço grande
De Augusto Küttner de Magalhães a 29 de Outubro de 2008 às 19:14
Sabia do programa, mas não sabia quem iria participar. Não tive oportunidade de ver. Presumo que possa ter estado o Rui Nunes! !?!Quanto às definições dadas pela Laurinda neste post, são muito interessantes numa altura em que estes temas vão estar a ser referidos mais ou muito mais, do que até aqui! Vai ser um tema "fracturante" e que vai dar muito que discutir. Como correu hoje?
Que pena não ter sabido que a Laurinda ia ao programa. Raramente vejo, um pouco por causas da hora a que é transmitido, Acho o programa muito bom e os temas são sempre importantes, os intervenientes dentro do assunto e a apresentadora à altura dos temas bem estudados e bem escolhidos.
Programas como a Sociedade Civil tinham que ser muito vistos e não me parece que sejam.
De Augusto Küttner de Magalhães a 30 de Outubro de 2008 às 14:49
Zilda mais uma vez totalmente de acordo consigo. Não entendo quem consegue ver estes muito bons programas às horas que são passados! Parece propositado para ter menos audiência!?! E não entendo como alguns não são passados também na 1, que parece ser um Serviço Público, pago também com os nossos impostos. Custa a muitos, a tantos, perceber que a aposta é na "qualidade"....
De CC a 29 de Outubro de 2008 às 21:57
Obrigada pela partilha do conhecimento.
Em minha opinião as diferenças entre alguns conceitos são muito pequenas e quanto à finalidade são convergentes. E para que não se diga muita asneira na discussão pública era conveniente que as pessoas tivessem bem presente o fim último da eutanásia.
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