Filomena Teixeira, mãe do Rui Pedro que desapareceu há 9 anos, foi ao Prós e Contras desta semana e revelou-se um monumento de coragem e dignidade. Com esforço e contenção, falou do filho que não voltou a ver desde o dia em que saiu de casa para andar de bicicleta. Manteve, ao longo de todo o programa, uma atitude incrivelmente lúcida e serena. Não derramou uma única lágrima mas bastava olhar para ela para perceber que nestes nove anos nunca mais parou de chorar. Ainda que todas as suas lágrimas permaneçam na intimidade do seu coração.
Acordar e adormecer, um dia após o outro, durante anos a fio, sem conhecer o paradeiro de um filho é o pior que pode acontecer a um pai ou uma mãe. Não saber quanto tempo ainda vai durar o pesadelo é mais do que se consegue imaginar.
Dói profundamente a dor de Filomena Teixeira, dos pais de Madeleine e dos pais de todas as crianças desaparecidas neste mundo contaminado, mas o sofrimento de ver sofrer não significa absolutamente nada quando comparado com uma dor que trespassa, consome e aflige em cada minuto de cada hora. Dia e noite.
Nove anos depois, Filomena Teixeira foi capaz de pôr o dedo numa ferida em chaga e dizer coisas impressionantes, que nos interpelaram a todos. De forma especial àqueles que, como eu, sabem que depois de desligar a televisão podem passar pelo quarto dos filhos nem que seja para ouvir a sua respiração tranquila.
- Desapareceu-me um filho e senti-me perdida. Foi como se me tivesse caído uma montanha em cima e eu sinto que continuo debaixo dela. Não tive ajudas, não tive aconselhamento de ninguém a não ser quando caí doente no hospital, com problemas psiquiátricos. Lutei em todas as frentes, fiz cartazes de alerta, lancei pedidos de ajuda, procurei por toda a parte e nada. Nove anos depois estou na estaca zero, sem saber o que aconteceu ao meu filho no dia 4 de Março de 1998. Não sei dizer o que está certo e o que está errado, só sei dizer que a comunicação social é importante porque denuncia e faz pressão. Na altura perguntei às autoridades o que devia fazer e responderam-me: “A senhora é que sabe”. Eu não sabia nada e continuo a não saber. Oxalá que o meu caso sirva de exemplo para que alguma coisa melhore. Se assim for, já não terá sido em vão.