Sábado, 20 de Setembro de 2008
Rua da Rosa: o meu caminho de todos os dias

 

Foto de Jaypeg
 
crónica que escrevi para o Público de ontem)
 
Vou pela Rua da Rosa vezes sem conta. Subo-a de manhã, à tarde e à noite, que ela só tem um sentido e é quase toda a subir. Atravesso o Bairro Alto por ali e perco-me nas horas a olhar para as pessoas, os lugares e as coisas.
 
De manhã vou sempre com pressa e enervam-me as cargas e descargas já com o sol ao alto. Na primeira esquina tropeço muitas vezes em rapazes de ombros largos e mãos grossas que acartam frigoríficos às costas e os depositam no passeio, mesmo em frente da loja dos electrodomésticos.
 
Depois, na esquina a seguir, está a omnipresente carrinha da Coca-Cola ou a das cervejas a despejar incontáveis grades de garrafas e o barulho do vidro-com-vidro é uma música que me impacienta e me faz olhar para o relógio a cada segundo que passa.
 
Mais acima, no terceiro cruzamento, há sempre um carro mal estacionado porque é a única parte da rua em que é possível passarem dois carros. Mesmo assim já me aconteceu ter que esperar por ser a hora em que a ambulância vem a casa buscar uma senhora muito velha e tão doente e tão pálida que só deve ver a luz do dia quando vai deitada naquela maca.
 
Na esquina a seguir há mercearias com caixas cheias de legumes coloridos no passeio, onde as pessoas param e escolhem criteriosamente o que querem comprar. Nessa esquina não é preciso esperar porque ninguém atrasa o passo de ninguém mas é o ponto da rua em que eu própria vou mais devagar porque gosto de ver o filme dos gestos com que cada pessoa toca, pesa e escolhe a fruta que há-de levar.
 
Há por ali mulheres gordas de peito farto e pernas cansadas, velhos magrinhos de muletas, homens de camisa preta aberta no peito e fio dourado muito grosso ao pescoço, rapazes giros com ar de artista e raparigas de piercings que se abastecem nestas mercearias mas também há senhores de calça beige e blazer azul escuro que chegam com aprumo, puxam um saco de plástico transparente e, com gestos sábios e demorados, escolhem o feijão verde ou os pêssegos do dia.
 
A Rua da Rosa é uma espécie de laboratório social urbano. Há de tudo nesta rua. Lojas alternativas, restaurantes gourmets, bares boémios, casas onde moram estudantes sozinhos, prédios cheios de inquilinos antigos, montras rasgadas sobre o passeio onde estão expostos objectos muito gráficos, portas e fachadas cheias de grafittis, lixo aqui e ali, paredes com camadas e camadas de posters colados uns sobre os outros a anunciar espectáculos, festas, performances, noites avulsas, dias melhores e vidas mais felizes.
 
Também há avós com netos pela mão, meninas de maillot e totós que sobem a rua de mochila às costas prontas para uma aula de dança no Conservatório, mulheres que conversam umas com as outras de ombros colados e costas ligeiramente vergadas para se ouvirem melhor, pessoas que passam distraídas, raparigas modernas com roupas criativas que mais ninguém usa, rapazes mal vestidos quase sem dentes que estendem a mão para receber uma moeda mas também são capazes de estender o braço à velhinha que precisa de atravessar a rua, senhoras apressadas e bem penteadas de tailleur impecável que não cruzam o olhar com ninguém e vizinhos que falam dos outros vizinhos.
 
Subo a rua mais do que uma vez por dia, todos os dias, e nunca me canso deste filme interminável. Às vezes enervo-me por estar atrasada mas não sou capaz de trocar esta rua e este meu caminho por nada.
 
 Foto de Jaime Silva
publicado por Laurinda Alves às 18:37
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23 comentários:
De isabel queiroz melo a 21 de Setembro de 2008 às 00:30
Gostei francamente do seu texto e é-me uma zona também muito familiar porque trabalhei ali bem perto.
Quando passava tentava adivinhar o que ía por trás daquelas janelas e daquelas caras... os sonhos, o real ... tudo o que ficou em semente, tudo o que degenerou, tudo o que deu flôr.
O fado de tantas vidas que hoje se cruzam com as historias dos novos habitantes... e que sentimentos...que laços... que pontes entre estes mundos?
Conheço muitas histórias que foram por ali choradas e quero acreditar que há muitas outras que foram feitas de alegria e gozo ... mas lembra-me sempre o cheiro da pobreza e o peso da sombra que presenciei em tantos que acompanhei !
De Violeta a 21 de Setembro de 2008 às 23:44
Agora questiono-me, serei uma mulher ou uma senhora? E que dirão os doutores?
De Laurinda Alves a 24 de Setembro de 2008 às 02:36
Violeta uma mulher é uma senhora e vice-versa. Ou não? Para mim a questão resume-se ao uso de sinónimos.
De Anónimo a 22 de Setembro de 2008 às 10:28
Vale a pena ler: http://aervilhacorderosa.com/blog/2008/09/errata.html#more

De Estêvão a 22 de Setembro de 2008 às 12:57
...sim de facto existem às vezes algumas imprecisões nos textos e escritos da LA . MAs nada de grave, penso eu. Haverá sempre alguém para repor a devida ordem...
De Laurinda Alves a 23 de Setembro de 2008 às 01:54
Tal como disse ao caro anónimo que referiu as imprecisões, as crónicas têm essa 'margem de erro'. Faz parte da criação literária, por assim dizer. Obrigada pela sua atenção e proximidade.
De Estêvão a 23 de Setembro de 2008 às 09:11
justamente por se tratar de uma criação literária, não acho graves as imprecisões; achei muito interessantes as reações e comentários que apareceram no seguinte blog: http://aervilhacorderosa.com/blog/2008/09/errata.html#more ; interessantes até ao ponto onde os leitores defendem a rua que consideram sua, porque vivem lá ou porque passam por lá todos os dias; tontos quando vão para além disso...
De Alice Matos a 22 de Setembro de 2008 às 14:03
Laurinda:
Gostei muito deste seu texto e em especial das fotos.
Rever a Rua da Rosa leva-me a momentos distantes, da minha infância em que essa rua "era o meu caminho de todos os anos..."
No colo da minha avó e depois já mais crescida, pelo meu próprio caminhar, que a Laurinda conhece, deslocava-me frequentemente à Rua da Rosa, onde estava um senhor que se dedicava a fazer calçado ortopédico por medida me recebia. Os anos passaram e não voltei mais a esse local, mas hoje senti saudades...E como sabe as saudades muitas vezes são saudáveis.
Agora tudo é mais simples mas menos original e belo, no Hospital de S. João de Deus em Montemor-o-Novo, são fabricados os aparelhos ortopédicos de que preciso e o calçado respectivo.
O senhor sapateiro da Rua das Rosas, brincava comigo e achava os meus gostos um tanto invulgares para o caso, no entanto era muito carinhoso e ficava feliz quando chegava a “sua menina da Covilhã”… Perdi o contacto com ele, mas esta oportunidade e esta coincidência e assim onde quer que ele esteja, pode vir a saber que não o esquecerei nunca. Um grande beijinho para si e obrigada.
De Célia dias a 22 de Setembro de 2008 às 14:05
Desde que descobri o seu blog vou lá sempre que posso, e não restam duvidas de que é uma verdadeira OPTIMISTA da vida.....parabéns.
De luisa a 22 de Setembro de 2008 às 15:16
so gostava de fazer uma pergunta a Laurinda..
Costuma passar na rua da rosa de carro ou a pe?
De Laurinda Alves a 24 de Setembro de 2008 às 02:34
Luísa, passo mais vezes de carro do que a pé. Muitas mais, mesmo.
De Anónimo a 22 de Setembro de 2008 às 19:22
Eu todos dias subo a Rua da Rosa, já que trabalho no edifício que faz o tão famoso arco da Rua da Rosa. Realmente é uma rua muita caricata, mas lamento algumas incoerências nas descrições que faz dela... Agora de repente não tenho precisão das lojas que existem nas inúmeras esquinas, mas uma loja de electrodomésticos na primeira esquina? Na primeira esquina está uma padaria que faz uns óptimos croissants que fazem a delícia dos meus colegas de trabalho! Se este artigo tivesse sido escrito para um blog, eu ainda "desculpava", mas no jornal Público?
De Laurinda Alves a 23 de Setembro de 2008 às 01:52
Caro anónimo fazem-me sentido os seus reparos e tem razão quanto ao detalhe das esquinas. Peço-lhe, no entanto, que nunca olhe para as minhas crónicas como se fossem reportagens ou textos factuais. Muita coisa do que fica dito (escrito, para ser mais exacta) tem mais a ver com o meu olhar do que com a exactidão das coisas. É também nesta liberdade narrativa que as crónicas se distinguem das notícias factuais. Não me leve a mal, portanto. Os frigoríficos aterram naquela esquina mas se calhar vão para a rua de trás, não sei, não investiguei.
De anónimo a 23 de Setembro de 2008 às 14:05
Concordo que uma crónica não é um texto factual , mas se a Laurinda é jornalista profissional devia de investigar um bocadinho mais
De Maria João a 23 de Setembro de 2008 às 16:49
Pois, mas então há pormenores que fazem a diferença. Como justifica a questão dos homens e dos senhores? Um pouco preconceitoso, não acha?
De Laurinda Alves a 24 de Setembro de 2008 às 02:35
Percebi pelo seu comentário e por outro que chegou antes do seu que a interpretação do uso destas duas palavras nada tem a ver com a intenção com que as usei. Para mim são apenas sinónimos.
De Violeta a 29 de Setembro de 2008 às 02:00
Curioso é a quem se aplica o homem e o senhor... mas sim, está certo, a maldade está sempre "nos olhos de quem a vê"...
De Margarida a 24 de Setembro de 2008 às 00:07
E já agora, Laurinda, também não teria sido má ideia ter referido os autores das fotos que utilizou. Estou certa que também não iria gostar que alguém pegasse num texto seu e o utilizasse sem a devida menção do autor! Não fica bem a alguém que, supostamente, deveria saber mais destas questões de direitos autorais.
De Laurinda Alves a 24 de Setembro de 2008 às 02:39
Margarida tem toda a razão. Estou há quase cinco meses para ir ao Sapo aprender a linkar as fotos que uso quando vou à net sem destino, apenas à procura de imagens. Só sei linkar as que vou buscar a sites específicos. Mea culpa. Vou falar com a Jonas rapidamente mas como vou estar no Porto até ao fim da semana, só na próxima semana é que vou repor o erro. Sorry!

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