Domingo, 31 de Agosto de 2008
Táxis em Lisboa adaptados para deficientes

A minha crónica de sexta-feira passada no jornal Público. É impossível não ficarmos indignados perante as reacções e declarações de responsáveis que se recusam a incluir os que têm necessidades especiais. A mim repugnam-me todas as formas de exclusão e por isso aqui fica o texto da minha indignação.
Incluir? Não obrigado!
Num país onde a esmagadora maioria de pessoas portadoras de deficiência são obrigadas a ficar em casa por não terem condições para vencer os obstáculos na rua, é perverso ouvir declarações públicas feitas por pessoas aparentemente responsáveis que se recusam a dar passos para incluir os mais frágeis.
Falo de Florêncio Almeida, presidente da Antral, que explica com toda a eloquência possível que “não há mercado” para este tipo de transporte e que “as pessoas sem deficiência não querem viajar em táxis próprios para deficientes”. Inspirado, Florêncio Almeida, vai mais longe e admite: “eu próprio não gosto de ser conotado com o que não sou”. Extraordinário raciocínio, este. Mas há mais e continuo a citar o que li no Público de dia 22 de Agosto: “o que eu quero é trabalhar e não fazer serviço social”. Bravo! Uma boutade pareceu-lhe pouca coisa, duas ou três de enfiada deram-lhe certamente outra assurance discursiva.
Pois bem caro Florêncio a serem verdade, estas suas afirmações falam por si e infelizmente dizem o pior. Mostram uma total insensibilidade e revelam uma ignorância chocante. Isto para não falar da falta de estratégia empresarial e da ausência de sentido do negócio. Mas vamos por partes.
Ao contrário de Florêncio Almeida, a maior parte das pessoas que não tem handicaps físicos sente-se muito mais confortável quando anda em transportes onde há lugares ou circunstâncias adaptadas aos deficientes do que quando percebe que estes foram completamente excluídos.
É completamente falso que os ditos normais se recusem a apanhar um táxi adaptado para pessoas com necessidades especiais. Aqui e em qualquer lugar todos ganhamos com a inclusão e por isso é bom que Florêncio Almeida fale por si, coisa que obviamente não pode fazer por ser presidente de uma Associação que representa uma classe com milhares de profissionais.
Uma coisa é as pessoas sem handicaps não se lembrarem que são precisas adaptações, outra radicalmente diferente é estas mesmas pessoas recusarem estas adaptações com argumentos patéticos. Nesta linha é bom que Florêncio Almeida separe as águas e não amplie uma voz distorcida.
Quanto a não gostar de ser conotado com o que não é, neste caso particular com pessoas com deficiência, cada um sabe de si. Eu lido perfeitamente com todos os tipos de deficiência e a única que verdadeiramente me incomoda é a deficiência moral. Essa sim, incomoda-me por revelar pobreza de espírito e indigência moral, passe a redundância.
Finalmente a questão do serviço social. Numa época em que todos temos consciência de que o empreendedorismo e a responsabilidade social das empresas são uma aposta ganha à partida, não fica bem a ninguém defender o indefensável. Se Florêncio Almeida não faz nem quer fazer que se chegue para o lado e deixe que outros façam o que tem que ser feito.
Uma cidade como Lisboa precisa urgentemente de táxis adaptados para deficientes, para velhinhos com bengalas, para pessoas frágeis ou doentes, para homens e mulheres que fizeram operações graves, para pais e mães que têm filhos pequenos ou bebés de colo e, quem sabe, até para um dia o próprio Florêncio Almeida poder transportar algum familiar ou amigo que tenha dificuldades de locomoção. Contra estes factos não há argumentos. Ou há, senhor Florêncio Almeida?
De concha a 31 de Agosto de 2008 às 17:06
Nesta crónica , como na anterior ressalta a falta de respeito por tudo e mais , pelo outro .
Vivemos numa sociedade em que os mais frágeis servem de trampolim para se ser. Mas ser o quê?Ser algo que a sociedade valoriza .
É verdade sim , nisto somos todos culpados , porque mesmo sendo contra certas atitudes , não assumimos que o nosso comodismo ou mais a forma mais fácil de estar que é não nos comprometendo irá impedir que tudo isto dê uma volta . Tudo tem de parecer bem , mesmo se se trata só de uma capa que tapa o podre .
E é claro , quando algo falha caímos todos em cima a denunciar e a opinar sobre os coitadinhos que até eram boas pessoas e lhes foi acontecer aquela desgraça , esquecendo a maior parte das vezes que os coitadinhos são verdadeiros heróis forçados a sê-lo pela força das circunstâncias e que umas horas depois ninguém reconhecerá o valor , porque serão julgados sempre tendo em conta os valores do mundo , que não valem nada .
De JoanaBF a 31 de Agosto de 2008 às 20:56
Hoje Cheguei de férias, cheia de malas, sacos, etc.
O passeio da minha rua é um passeio normal de calçada. A minha irmã estacionou o carro, agarrei no que podia e atravassei. Antes de atravessar caí ao chão. Ou seja espalhei-me ao comprido e de mergulho! è que como eu não vejo bem não reparei na surpresa de férias da CML! Uns "pins" de metal novinhos ligados com correntes brilhantes. Uns aos outros não vá um perder-se!
Hoje as dores que senti quando caí fizeram-me pensar naqueles que vivem na escuridão! Estamos muito contente aqui na rua com as novas Gincanas de Verão!
De zilda cardoso a 1 de Setembro de 2008 às 11:32
Há muito poucos Florêncios neste mundo, eu só conheci um, e preferia saber que nenhum existe. Esse foi um homem excepcional - sensível, bondoso, dedicado, inteligente. E com um percurso de vida extraordinário: de "clown", a desenhador, a poeta, a arquitecto, a rotariano... Orgulho-me de o ter conhecido, de ter escrito sobre ele, de me ter emocionado até às lágrimas com a sua arte e com a expressão dos seus olhos... O que agora nos aparece c/ declarações inqualificáveis de tão más, é uma pessoa sem tino a dirigir uma associação que se propõe prestar serviços aos associados (transportadores em automóveis ligeiros) e que não é capaz de ver que o interesse de qualquer empresa e, muito mais, uma de prestação de serviços tem que ser coordenado com os interesse do público utilizador. No site, esta Antral garante que está a caminhar para o futuro. Isso não inclui a melhoria dos SERVIÇOS PRESTADOS AO PÚBLICO? Ou é apenas a melhoria das condições em que os taxistas trabalham? ? Ou a modernização dos serviços internos? A actual direcção propõe-se remodelar e modernizar a empresa "conforme as exigências que o séc. XXI nos põe". Refere-se à introdução da Internet e nada mais? No site diz-se que a associação aceita sugestões, reclamações, esclarecimentos, comentários de qualquer pessoa - é bom que tomem nota e dêem seguimento. E é interessante que escolham bem quem os dirige e representa.
Ou será que este Sr. Florêncio não disse nada disso e os jornalistas é que se enganaram?
Com a maior indignação ZC
De Romina Barreto a 1 de Setembro de 2008 às 14:45
Laurinda,
Obrigada pela sua inteligência, pela sua escrita cristalina, pela sua consciência cívica…
Enfim, obrigada por nos despertar para a realidade real. É para mim desde há muito tempo uma referência e um estímulo.
Com os melhores cumprimentos,
RominaBarreto
De Augusto Küttner de Magalhães a 3 de Setembro de 2008 às 16:51
Nestas férias no Douro m/ mulher e eu ficámos numa Residencial, e quando fiz a reserva - em cima da hora, por repentina mudança voluntária de rota- disseram-me que só havia um quarto, mas era com casa de banho para deficientes e muitas pessoas "normais" não gostavam de lá ficar. Perguntei se podia ser usado por "normais" disseram -me que sim, disse que queria. Quando lá chegámos as diferenças eram: a porta do quarto e do quarto de banho mais largas para caber uma cadeira de rodas, a sanita com adaptações retrateis de ambos os lados bem como o lavatório, a banheira com um dispositivo amovível que serve para se tomar chuveiro sentado e mais umas protecções e todas as torneiras com os adapatores mais compridos. Ficámos lá duas noites e dois dias, num quarto que serviu mais que bem para ditos"normais" e pelo mesmo preço com tantas e boas adapatações para quem necessita. É de elogiar que uma residencial tenha no Douro e muito longe de ser algo de 5 estrelas um destes quartos, e serve tão bem, para qualquer PESSOA! Apesar de haver quem prefira outros....
Obrigado!
Vou traduzir seu ensaio para meus colegas aqui.
Ora aqui está um bom tema para o Dia Mundial da Usabilidade, que este ano tem como tema os Transportes.
Neste contexto, dia 13 de Novembro, este tema será incluído num Fórum dedicado à Acessibilidade dos Transportes que terá lugar na UTAD, em Vila Real.
A informação sobre o evento estará disponível em:
http://www.acessibilidade.net
Os Florêncios também serão bem-vindos para animar a discussão.
De Anónimo a 12 de Setembro de 2008 às 13:27
Laurindo,
Vi o seu programa na TVI às 21h30 do dia 3 Setembro 2008, sobre doentes que estiveram em Alcoitão e recentemente criaram Empresas baseados na equitação usada na reabilitação de jovens...
Adorava saber como contactar ALGUÉM que conheça este/s projecto/s. Contactei HSJ que diz que nunca esteve envolvido neste processo... Estou confusa...
Agradecida, [
Error: Irreparable invalid markup ('<br [...] <a>') in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]
Laurindo, <BR>Vi o seu programa na TVI às 21h30 do dia 3 Setembro 2008, sobre doentes que estiveram em Alcoitão e recentemente criaram Empresas baseados na equitação usada na reabilitação de jovens... <BR>Adorava saber como contactar ALGUÉM que conheça este/s projecto/s. Contactei HSJ que diz que nunca esteve envolvido neste processo... Estou confusa... <BR>Agradecida, <BR class=incorrect <a name="incorrect">Mª</A> /A> Teresa Canto e Castro<img src="//blogs.sapo.pt/images/mood/SHOW_UNKNOWN.png">
De
Eduardo a 20 de Junho de 2009 às 16:56
Obrigado por este magnifico artigo e por tudo que tem feito por nós com necessidades especiais.
Sua sensibilidade e civismo comoveu-me.
Seu envolvimento com Associação Salvador como voluntária é outro exemplo.
Tomara que existissem mais Laurindas Alves.
Seja feliz
Comentar post