
Uso aqui de propósito a imagem de um cartaz australiano que denuncia a violência doméstica e as mortes a que ela conduz para ilustrar a crónica que escrevi para o jornal Público de sexta-feira passada, para que fique muito claro que embora eu fale das 31 mulheres portuguesas assassinadas, infelizmente esta realidade cruza todas as fronteiras.
Feios, porcos e maus
Li com atenção, perplexidade e nojo as páginas do Público de terça-feira passada sobre as 31 mulheres assassinadas este ano pelos namorados, maridos e amantes. O enunciado é difícil de acompanhar mas não é por todas as vítimas serem mulheres ou crianças. É pela violência da coisa propriamente dita. Podiam ser homens, velhos ou novos, que a repugnância era igual. Não se trata de uma reacção feminista, quero dizer. Trata-se de uma consciência profunda de que há quem morra porque teve o azar de casar ou dormir com o inimigo.
A exposição de uma sucessão de casos dramáticos tem a virtude de mostrar um filme mais completo e mais próximo de uma realidade muito dura de aceitar. Há demasiados homens que maltratam e matam as mulheres com quem estão ou estiveram envolvidos e há muitos que o fazem na presença dos próprios filhos. Alguns destes homens suicidam-se no mesmo dia, logo a seguir, mas isso não acrescenta nada a não ser impotência e revolta.
As histórias relatadas por Ana Cristina Pereira falam de homens agressivos, de rapazes desequilibrados, de gente com mau carácter que usa e abusa da sua supremacia física para bater, agredir, humilhar, torturar e finalmente matar. No fim ficamos com a certeza de que algumas destas mortes poderiam ter sido evitadas se as mulheres tivessem sido ajudadas, ou se existissem mais portas onde bater quando as relações conjugais se tornam invivíveis.
Todos estes casos têm a ver connosco e isso é uma realidade incontornável. Não podemos descartar responsabilidades nem podemos fingir que não vimos, não sabemos nem lemos. No dia em que estas mulheres são enterradas temos a certeza de que foram mortas pelos homens que diziam que gostavam delas mas também pela nossa indiferença (ou distância) sempre que gritaram e não as ouvimos.
Artemisa Coimbra, do Observatório das Mulheres Assassinadas, investigadora e autora de uma tese de mestrado sobre violência doméstica, foi longamente citada pelo Público no dia em que saiu o artigo de que falo e sublinhou duas ou três coisas que merecem ser sublinhadas. Destaco, acima de tudo, a ‘invisibilidade’ destas mulheres, que são maltratadas ou ameaçadas durante anos a fio e finalmente mortas.
Nunca se fala da história destas mulheres, das suas aspirações e medos, das suas fragilidades e forças. No dia em que são assassinadas relatam-se os factos, enumeram-se os filhos e descrevem-se as circunstâncias do crime mas raramente se gastam três linhas a dizer quem eram e como eram estas mulheres. É estranho. Mesmo depois de mortas acontece-lhes o mesmo que em vida: não têm existência própria.
Já os homens que as humilham e matam, esses têm todos identidade e quase sempre o direito a uma personalidade. Estranho, insisto.
Porque será que estas mulheres são tratadas em vida e na morte como não existentes?
Este vazio, este silêncio e toda esta invisibilidade parece uma estratégia mais ou menos inconsciente para apagar os vestígios de uma realidade que todos preferíamos que não existisse. Será? Não sei, não sou especialista na matéria. Mas interrogo-me e procuro respostas que não encontro.
Leio as descrições que se fazem sobre os traços de carácter dos criminosos, fico a saber os passos que deram e as motivações que tinham, mas raramente capto alguma coisa essencial sobre as vítimas. A única informação que passa e fica a fazer um eco insuportável é o número de filhos e se assistiram à tragédia ou não. De resto mais nada.
Deixo aqui a interrogação sublinhada e toda a minha perplexidade perante uma realidade que cruza todas as condições, raças e credos. O enunciado desta semana remeteu-me fatalmente para a história de dois irmãos, ‘filhos de família’ no sentido mais convencional da expressão, que conheci nos tempos de liceu e tinham uma vida aparentemente normal, equilibrada e feliz até ao dia em que o pai foi acordá-los ao quarto para terem todos uma conversa na sala. Os dois irmãos vieram ensonados para a sala onde estava a mãe e o pai e mesmo antes de fazerem qualquer pergunta o pai declarou que ia matar a mãe e queria que eles vissem. E matou e eles viram.
O pai suicidou-se anos mais tarde na cadeia e estes dois irmãos, de quem eu era bastante próxima, ainda hoje são perseguidos pelas imagens de uma tragédia impossível de adivinhar dada a estrutura familiar e a sua condição social. Se conto isto agora é para de certa forma exorcizar este meu fantasma antigo e para reforçar a ideia de que há homens desequilibrados, feios porcos e maus onde se imagina mas também onde menos se espera.
De VIGUILHERME a 31 de Agosto de 2008 às 21:29
Numa sociedade agressiva,competitiva,onde o stress e a velocidade são dois motores,gera e desencadeia um sem tempo na transmissão de valores,seja de justiça,de verdade,de respeito de dignidade,de ternura ,de partilha.......Os monstros vão aparecendo e escondendo-se atrás de intrigas,boatos,ciladas,fachadas virtuais,e os mais ingénues e mais simples aí caem, sem depois saberem como sair ,para fora desse mundo de tortura........Tera de haver cada vez mais sensibilização e pedagogia para casos destes ,de modo a permitir e a desencadear uma maior relação ,união e dialogo nas famílias quer na mais proxima quer na mais afastada,de modo a se criar um grupo com relaçoes de partilha ,de apoio, de discussão e que possa ser de prevenção para casos patologicos e psicopaticos ou de orientação para serviços especializados nestes assuntos ,que neste momento começam aparecer e a estar no terreno sabendo quanto é dificil alguém falar por medo,por ser ostracisado,por ser conotado com rotulos perjurativos,por varias razões..........Mas muito se tem vindo a realizar ...........assim como no apoio a diversas deficiencias tornando-as menos excluidas-----com trabalhos sempre em curso........
Comentar post