Tem dez anos mas parece que tem muito menos porque é magrinho e pequenino. Não se importa nada porque sabe que é mais capaz do que muitos e, ainda por cima, é giro que se farta, joga rugby e já foi eleito um dos melhores jogadores.
Fala muito alto, ri com gargalhadas contagiantes e tem uma liderança natural entre os primos e os amigos. Lê o jornal todos os dias e perde tempo com cada página.
De manhã vai ao quiosque e a conversa é sempre a mesma:
- A Bola, se faz favor!
A senhora abre um sorriso cúmplice, aponta para a pilha de jornais e ele tira o que está em cima. Nem chega a dobrá-lo para o enfiar debaixo do braço porque o primeiro impulso é ler a primeira e a última página.
Fora do quiosque, procura instintivamente um muro ou uma mesa de café e fica debruçado sobre o jornal, esquecido das horas e dos que estão com ele.
Após uma leitura demorada, faz os seus comentários e tece as suas críticas.
Os primos mais novos olham para ele com admiração e expectativa. E é então que ele repara que não está sozinho, esquece completamente o jornal e vai pela rua com eles, a pé ou de bicicleta, a explicar coisas tão banais como as razões dos cartões amarelos, o plantel do Sporting escolhido para o último jogo e a estrutura da Liga dos Campeões. Isto, entre muitas outras miudezas que eu não percebo mas acho fascinantes especialmente por serem ditas com tanta assurance por um pingo de gente.