Segunda-feira, 28 de Julho de 2008
O Dom de Vladimir Nabokov

 

O Dom, de Vladimir Nabokov, é um dos seus melhores

livros. Para mim, pelo menos. Gosto do estilo irónico do

escritor, da densidade da sua escrita, dos adjectivos que

usa, da maneira como olha para o mundo e para os que

o habitam. É este olhar meio displicente, meio arrogante

mas sempre atento ao detalhe do detalhe, que me atrai.

Não julgo os outros como ele os julga, nem partilho todas

as suas opiniões fortes e tantas vezes cáusticas, mas

divirto-me com a sua observação da realidade.

Fascina-me a sua predilecção por borboletas e seduzem-

-me os seus tiques de aristocrata das letras. E não só. 

O seu monólogo interior também me prende e me ocupa

longas horas na decifração da espécie de puzzle que somos

obrigados a construir enquanto lemos o que ele escreveu.

Gosto muito das suas metáforas, mesmo as mais absurdas.

Deixo-o aqui, com algumas frases avulsas neste início de

semana já em countdown para as férias com tempo para ler.

 

 

Tchernychevskii chorava de boa vontade e com frequência.

"Três lágrimas desceram", regista com característica precisão

no seu diário, e o leitor fica momentaneamente atormentado

com o pensamento involuntário - pode ter-se um número ímpar

de lágrimas, ou é apenas a natureza dupla da fonte que nos faz

exigir um número par?

 

Só há duas espécies de livros: os de cabeceira e os do cesto dos

papéis. Ou gosto fervorosamente de um escritor, ou deito-o fora.

 

No fundo nada se passara de importante: a decepção de hoje não

excluía uma recompensa amanhã ou depois de amanhã. 

 

Nenhum destes breves parágrafos é verdadeiramente eloquente do

estilo Nabokov, que tem uma riqueza impossível de sintetizar e uma

complexidade que não se pode simplificar. Gosto da maneira como

ele classifica os personagens e como lhes veste um "sobretudinho

feito em casa" ou um fato "estilo coveiro alemão" ou, ainda, como

resume um ser abominável ao seu "ressonar de cretino patriarcal".

 

publicado por Laurinda Alves às 00:49
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De Concha a 28 de Julho de 2008 às 14:34
Um livro a anotar , com comentários que de certeza serão úteis à leitura .
Concha
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