Espero que a Zilda Cardoso não me leve a mal insistir na beleza das rugas, vincos e traços que foram ficando desenhados na cara de Marguerite Duras mas eu gosto mesmo dos vestígios do tempo e das marcas da vida na cara das pessoas.
Não sei se é por eu estar claramente na segunda metade da minha vida ou se é por ser filha de uma mãe que aceita a passagem dos anos com a naturalidade e a alegria de quem aprecia muito cada dia, sabendo que a idade é e será sempre um estado de espírito.
Talvez este gosto pelo envelecimento seja uma herança genética, não sei. Na minha família as pessoas envelhecem bem e sentem-se confortáveis na sua pele, mesmo quando ela começa a ficar menos lisa. Os meus avós eram lindos e não sei se fui eu que romantizei a sua figura ou se eles eram mesmo tão bonitos como eu sempre os achei, mas na minha memória os cabelos brancos, as rugas de expressão e o seu ar velhinho eram a imagem da bondade e da serenidade.
Acho graça à Zilda quando diz que se recusa a dizer a sua idade. Escritora como Marguerite Duras, Zilda cria e recria as suas personagens usando o tempo a favor e a desfavor. Nunca soube exactamente a idade de Ana Augusta ou dos dois irmãos de Cerejas de Celulóide nem isso foi importante para mim porque, insisto, a idade é um estado de espírito. Mas percebo que socialmente a idade biológica possa criar embaraços. Percebo mas tenho pena, note.
De
anad a 24 de Julho de 2008 às 08:57
Todos os dias habituei-me a vir aqui ler o que escreve e conforta-me muito. Eu tenho as tais rugas que o tempo vai depositando no meu rosto e quero que elas sejam quase como um historial da minha existência.
Adoro o que escreve e como escreve, a Laurinda é um ser humano luminoso.
Bem haja
Anad
De Estêvão a 24 de Julho de 2008 às 15:46
Esta “cena” do envelhecer ou saber envelhecer, se calhar resume-se a uma questão cultural ou de postura perante a vida; e passa-me ao lado, completamente! Nunca me vejo como estando na segunda metade da minha vida; e olho-me obrigatoriamente todos os dias no espelho! Só noto a passagem do tempo quando comparo as fotos de um ano para o outro, aí assusto-me um pouco mas depois passa; talvez por ter sido novamente pai, e logo duas vezes, já dentro dos quarenta me dê alguma vantagem…quanto a rugas claro que as tenho mas nunca dei por elas!...também nunca minto :)
De Augusto Küttner de Magalhães a 24 de Julho de 2008 às 15:49
Laurinda estou totalmente - uma vez mais - de acordo consigo. Penso que não devemos esconder a idade, faz parte de nós, do tempo que já vivemos, são as marcas desse mesmo tempo, já tenho algumas na testa, nas bochechas, no pescoço, não tenho medo de as ter, são minhas, são fruto do tempo que já vivi, e espero viver mais algum, sempre com a esperança de nunca!!!- nunca se diz nunca! me passar pela cabeça em gastar tempo e dinheiro a encobrir a idade, a encobrir rugas, a não deixar o cabelo ir ficando mais branco, e não é só por ser homem, é por ser sempre eu!.
Seria estranho aos 18, 28, 38, ter muitas rugas, perto dos 60 o contrário é que seria de estranhar, era muito plástico e pouca naturalidade!Digo eu..
De Augusto Küttner de Magalhães a 24 de Julho de 2008 às 15:56
A aposta na boas noticias foi sempre o que muito impulsionou a XIS sob a direcção da Laurinda e muito bem. Penso cada vez mais que é necessário apostar nas Good News, mas não é facil, o mau, o desastre, a maledicência, a desgraça abre muitos telejornais, e muitos talvez tenham ali uma catarse, afastando os seus problemas com as tragédias dos outros. Muitos gostam da tragédia, pela tragédia, a aposta nas boas noticias, sempre sem optimismo exagerado torna-se essencial, para sabermos que a vida vale ser vivida, e que tem engulhos, mas tem muitos momentos fantásticos. Parabéns a quem assim sabe e quer proceder!
De CC a 24 de Julho de 2008 às 22:36
Compreendo a Zilda Cardoso. Admiro a sua frontalidade. Melhor, admiro a sua sinseridade. E nisso, nesta capacidade de ser sincera contrariando o sicialmente correcto é um bem adequirido com a idade.
Se atentar nas vantagens de ter idade vai ver que encontra muitas.
Aparentemente as rugas não são sensuais, ao toque uma pele lisa parece mais agradável. Sabe que existe um grupo em Moçambique, os Macondes em que as mulheres, muito novas, sulcam a face para que o homem ao tocá-las tenha mais sensações?
Eu sei que a sociedade quase nos impõe sermos bonecas barbies mas podemos sempre contrariar, coisa que a idade nos ensina também. Talvez por isso ,a marca de sabonetes Dove utilizou numa campanha mulheres normalissimas, com rugas, com barriga e celulite, porém, cuidadas.
Sei e sinto a diferença que se processa em mim, olho-me com alguma pena pelo o que o tempo me faz, mas, são momentos, curtos, porque sempre me aceitei como sou. Mais, às vezes dou comigo a admirar a beleza de algumas senhoras mais idosas e penso: quando tiver aquela idade gostaria de ter o cuidado, o brio e o bom gosto que algumas apresentam.
Especialmente para a Zilda:
Uma das minhas bonecas preferidas è a Mafalda do Quino.
Um dia a Mafalda pergunta ao pai, como é que eram as coisas no tempo dele. E o pai, muito solicito começou a contar muita coisa sobre o tempo dele. A Mafalda no final estava com uma expressão muito desolada e o pai pergunta-lhe muito desconcertado: "o que queres que te diga as coisas eram assim?..." Então a Mafalda respondeu-lhe:- gostava que me dissesses que estes ainda são os teus tempos.
E são Zilda! velhas ou não; elegantes ou não; lisinhas ou não, enquanto andarmos cá estes são os nossos tempos vamos vivÊ-los.
Fique bem!
Fiquem bem!
De zilda cardoso a 27 de Julho de 2008 às 17:54
Estou bem, muito obrigada, cara amiga CC, que não tenho o gosto de conhecer. Não posso dizer que gosto de ter rugas ou que aprecio as m/ rugas. -mas como não as posso evitar, aceito-as. Nunca pensei esticar a pele, mas compro na farmácia cremes que são sempre caros para diminuir rugas, embora saiba bem que nenhum creme as disfarça. E é perfeitamente inútil. Mas trata-se do tal bom aspecto que gostamos de ter e que vamos tentar manter sempre.
Quanto ao n/ tempo, ainda bem que fala nisso. É um tema constante nas m/ conversas c/amigos. Este é o n/ tempo, enquanto andarmos por cá. E por isso, devemos e temos que poder colaborar, pensar, trabalhar. E tb partilhar conhecimentos e valores com a certeza de sermos ouvidos e respeitados.
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