Gosto muito de ópera e gosto muito de descer as ruas do Chiado em boa companhia, ao fim da tarde, sabendo que durante algumas horas o mundo fica suspenso para lá das portas do São Carlos.
O prazer de ver um espectáculo tão completo do ponto de vista musical e performativo é intraduzível por palavras. Poderia, talvez, traduzir-se por emoções mas há algumas que não sei pôr no papel.
A exaltação interior começa no segundo em que as luzes se apagam e pode durar do princípio ao fim. Não sei se gosto mais das primeiras filas da plateia ou de alguns dos camarotes porque, sinceramente, não sei de onde é possível ver tudo com mais amplitude. Na ópera tudo me prende a atenção e apaixona. Às vezes fecho os olhos e também gosto muito do que vejo.
A estreia de Montezuma, na quarta-feira, foi um poema. Tivemos a sorte de não ouvir o gongo tocar no fim do intervalo e, por isso, vimos a primeira parte nas filas da frente e a segunda parte num camarote de cima.
Não percebi porque é que o camarote reservado ao secretário de Estado da Cultura estava vazio numa estreia tão extraordinária. Ou melhor, até percebo mas essa é outra história, com muito menos poesia.