Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
A vida, na sua alegria e na sua tristeza

 

Volto a esta imagem de dois homens de mãos dadas. O Bruno e o Arlindo ficaram amigos nos corredores da Unidade de Cuidados Paliativos do Hospital da Luz. Neste dia em que tirámos esta e outras fotografias, o Bruno já estava muito doente mas ainda cheio de forças para lutar e de alegrias para nos dar. O Arlindo também estava doente mas tinha tido alta e ia apenas fazer os tratamentos ao hospital. O Bruno partiu primeiro. Alguns meses depois, o Arlindo voltou a ser internado e morreu hoje. Olho para os dois de mãos dadas e recordo a força que deram um ao outro em tempos muito difíceis para ambos. Para mim foram dois grandes exemplos de coragem e dois testemunhos de grandeza. Ficámos amigos e assim continuaremos até ao fim dos tempos. Obrigada a um e a outro por tudo e tanto que me deram e revelaram sobre a vida, na sua alegria e na sua tristeza.

 

 

publicado por Laurinda Alves às 23:41
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Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009
Felizmente voltou o sol a esta cidade

 

Voltou o sol e confesso que este prenúncio de Primavera me

consola. Ontem foi o primeiro dia de sol depois da sucessão

de semanas de frio e chuva triste e os raios de sol que entram

pela casa e se derramam pela madeira do chão enchem tudo 

de luz e alegria pela certeza de que este Inverno está quase a 

acabar. Não gosto nada de frio nem de chuva e os meses de

Janeiro e Fevereiro são sempre um bocado neura. Ainda por

cima aconteceram coisas tristes, morreram amigos, a minha

mãe está num processo de recuperação lento e doloroso e é

difícil assistir a tudo isto sem ficar mais down. Nestes últimos

dias fui lendo os comentários que escreveram a propósito do

post sobre o suicídio do jovem de 14 anos, com quem estive

recentemente nos Salesianos de Lisboa, e fui respondendo e

ponderando tudo o que era dito por todos os que contribuiram

para tornar este pequeno debate mais amplo e profundo. Sei

que é um tema difícil e percebi pelas partilhas que a dor dos

que passaram por perdas por suicídio nunca passa. O tempo

não cura nem apaga este sofrimento e também por ter essa

certeza volto ao assunto para reforçar o meu agradecimento a

todas e a cada uma das pessoas que expôs a sua intimidade

para contribuir positivamente para nos despertar a consciência.

Muito obrigada pela coragem e pela generosidade dos coments!

Deixo aqui mais uma imagem da luz do sol reflectida no chão e

nos espelhos da parede, para iluminar outras sombras da vida..   

 

publicado por Laurinda Alves às 11:51
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Sábado, 7 de Fevereiro de 2009
Crónicas do Público à sexta

Morrem jovens os que os deuses amam?

 
“Coordenava os meus pensamentos: Antínoo estava morto. (…) Lembrava-me dos lugares-comuns frequentemente ouvidos: em todas as idades se morre; os que morrem jovens são amados pelos deuses. Eu próprio participara nesse infame abuso de palavras; falara em morrer de sono, morrer de aborrecimento. Empregara a palavra agonia, a palavra luto, a palavra perda. Antínoo estava morto”.
 
As memórias de Adriano, o Imperador romano, fazem um eco especial nos dias de sol e chuva no cemitério em que caminhamos devagar, ombros vergados e olhos no chão. Nestes dias percorremos às cegas os labirintos de pedra e as estranhas alamedas de árvores sombrias que escurecem o horizonte e têm raízes atormentadas.O frio que fica depois dos enterros demora a desaparecer. Parece um casaco pesado, gelado, que se cola à pele e não se consegue despir.
 
Vamos e voltamos pelas alamedas mas também por caminhos rectos desenhados na terra rasa de campas e pisamos tudo com extremo cuidado, num silêncio grave e cerimonioso de quem não quer despertar sequer a borboleta que pousou na pedra branca com inscrições douradas e a fotografia antiga de uma cara nova que prende a atenção por ser mais alguém que morreu cedo demais.
 
Não há palavras para exprimir a dor dos pais que enterram os seus filhos. Não sabemos nem saberemos nunca porque é que uns vão primeiro que os outros e custa permanecer de pé naquele silêncio chorado, naquele lugar sagrado onde depositam o seu corpo frio e se despedem com gestos contidos.
 
Dói ver um pai e uma mãe muito quietos, parados em frente daquela que é a última morada dos seus filhos neste mundo, a despedirem-se deles num silêncio demorado, cheio, repleto de memórias e imagens que o tempo não apaga. Esse tempo demorado da despedida deixa-nos a todos suspensos sem saber o que fazer nem o que dizer. Baixamos os olhos, limpamos as lágrimas, olhamos para o céu, guardamos todas as perguntas sabendo que jamais saberemos as respostas.
 
E permanecemos de pé, uns passos atrás, para não devassar a intimidade do último abraço de um pai ao seu filho. De uma mãe ao seu bebé. E depois voltamos pelo mesmo caminho que percorremos e sentimos que embora os ombros nos pesem e os passos nos custem, há uma luz que nos guia e um brilho que nos conduz. E é nessa estrela que acreditamos.   
 
 
As cores das flores
 
Há no chão de madeira um rasto de pétalas de flores que foram pisadas mas ainda não varridas porque os homens de fato escuro e gestos solenes continuam a arrumar as coroas, os ramos e as braçadas de flores de todas as cores que a família e os amigos oferecem sempre a quem parte. Os homens não fazem barulho, têm sapatos leves e gestos delicados. Fazem o seu trabalho com a perfeição que se espera e quase nem damos por eles. Levam tudo para um carro de vidros muito grandes e não trocam palavras entre si, apenas olhares e acenos ligeiros. O único som que fica no ar é o do celofane que envolve as flores. E é essa transparência luminosa e quase musical que acompanha as orações dos que rezam sem palavras ditas e dos que ficam para trás por não saberem para onde ir nem como recomeçar.
 
publicado por Laurinda Alves às 10:42
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Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009
Tanto sofrimento à nossa volta

Nesta semana de perdas e luto, de dores e saudades, todos os que ficámos tocados pela morte de dois amigos tão queridos e tão próximos nos fizemos perguntas que ficaram sem resposta. Não é natural ver um pai e uma mãe enterrarem os seus filhos. Dizem que a morte de um filho é a única dor que o tempo não cura nem apaga e eu acredito. Não passei por isso graças a Deus mas acredito profundamente que quanto mais tempo passa, mais saudades sentimos. Hoje o dia começa com a missa pelo Bruno e depois o seu enterro. Não tenho palavras para dizer à mãe nem aos que ficam porque também eu as procuro para mim e não as encontro. E eu era apenas uma amiga de agora, deste tempo em que o Bruno esteve no hospital, nem sequer era uma amiga de longa data, mas não era preciso conhecer o Bruno há muitos anos para perceber a sua natureza e a sua fibra. Marcou-me radicalmente e mesmo que eu viva cem anos, o Bruno viverá sempre no meu coração porque é impossível esquecê-lo.

Nesta mesma semana recebi e publiquei aqui a carta dos pais do Pedro, que a Maria Helena mandou num comentário a um post anterior. Queria dizer-lhes que também eles estão muito presentes nas minhas orações. Nas da manhã, na missa pelo Bruno, e nas da noite que hei-de rezar com o meu grupo de oração. 

publicado por Laurinda Alves às 00:47
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Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009
Esqueça ou aqueça estas pessoas?

 

Imagem que vale por mil palavras. Não preciso de dizer mais

nada, pois não?Vi este cartaz numa rotunda de Leiria e deixo

aqui o apelo que se lê em letras garrafais e mais o endereço

para quem quiser contribuir para aquecer estas pessoas.Os

sapatos são apenas um contributo mas podemos dar mais!

 

publicado por Laurinda Alves às 10:51
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Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009
Coisas da vida de hoje no Público

Publicar aqui as crónicas que escrevo às sextas no jornal Público já é um clássico. Aqui ficam as de hoje, já a mais de meio da tarde. Habitualmente os temas do Público não cruzam os do blog, para evitar redundâncias ou para não escrever 'mais do mesmo' mas esta semana foi impossível não ir falando aqui destes dois temas e porque desta vez as histórias são familiares aos leitores do blog, publico hoje as crónicas de hoje. Aqui ficam, enquanto eu ando entre Coimbra e Leiria a defender outras causas em que acredito. 

 
Um grito de raiva!
 
Na semana passada escrevi aqui sobre dois cegos que vi uma vez no Metro e hoje retomo o tema porque por coincidência (ou não) no próprio dia em que a crónica foi publicada voltei a vê-los. Estavam na plataforma oposta à minha e fui ter com eles pelo túnel para lhes dizer que me tinham inspirado um dos textos desse dia.
 
Apresentei-me e eles fizeram o mesmo. Um chama-se Paulo e outro Pedro, quiseram saber em que jornal e porquê. Abreviando um encontro breve mas marcante, expliquei-lhes que me prendeu a alegria e a cumplicidade entre os dois e a falta de pressa com que caminhavam entre a multidão apressada. Não por serem cegos mas por terem outro tempo interior, acho eu.
 
Eles gostaram da ideia de se verem retratados, ainda que de forma breve e partindo apenas de uma cena aparentemente sem história, e decoraram o meu mail para me dizerem depois o que tinham achado. Disseram-me que iam pedir a alguém que lhes lesse o texto e assim fizeram.
 
Mais tarde recebi alguns mails do Paulo e pedi-lhe autorização para os usar. Ele começou por justificar que me trata por tu porque não lhe dá jeito de outra maneira e disse que os podia usar até porque a substância dos mails é um grito de alerta e um pedido de socorro. Aqui ficam dois fragmentos desses mails tão eloquentes da cegueira geral: 
 
“A maior parte dos cegos em Portugal passa fome. Algumas cegas já se prostituem para alimentar os filhos. Muitos estão na mendicidade. Isso tem que acabar. Pessoas como tu podem ajudar informando que existem problemas. Muitos cegos têm não só problemas visuais mas do foro neurológico, ortopédico, etc. A sociedade pensa que a ACAPO pode ajudar mas a associação está na miséria, nem dinheiro tem para pagar aos funcionários quase.
 
Precisamos tirar a mendicidade das ruas e do metro. Existe uma petição liderada pelo doutor Mário Garrote de Coimbra, para pedir a lotaria para os cegos. Por favor eu peço socorro em nome de todos os cegos de Portugal que passam fome. Porque eu costumo dizer, ser cego não é defeito a sociedade é que nos faz passar pelo canal estreito.
 
 
Somos seres humanos temos sangue nas veias, temos alma, temos sentimentos, também choramos e sorrimos, amamos e odiamos. Temos fé. Enfim minha amiga somos seres humanos mas seres humanos sofridos”(…)
 
“Um pensionista cego em Portugal ganha em média cerca de 200 euros e tem quase sempre medicação para pagar. Roupa, luz, água, gás. Também existe quem coma comida por cozinhar.Cegos que comem uma refeição por dia. Vou confessar uma coisa cara amiga eu passo fome. Evito tomar medicação que me faz falta. Anti-depressivos e medicação para dormir.
 
 
Eu tenho tendência para me suicidar. Pois não tenho dinheiro para comer nem para os anti-depressivos quem me paga a net é um amigo. Mas não pode ajudar em tudo. Qualquer dia apareço morto Laurinda. Como só à noite e chega. A segurança social só tem dinheiro para os ciganos. Tenho esperanças que um dia venhamos a ter o subsídio de cegueira que a União Europeia deu e Portugal recusou.
 
 
E insisto: Portugal não quer dar a lotaria para os cegos! E a única cidade que tem os transportes gratuitos para os cegos é a cidade de Braga. Porque não existe em todo o país? Pronto aí está não só eu mas muitos Paulos e Paulas deste país que não têm culpa de serem cegos. E pedem esmola sem terem feitio para isso.
 
Eu nasci para amar e ser amado. Mereço dar e receber. Portanto sou um cidadão como outro qualquer, mereço respeito. Por isso peço a tua ajuda e se for possível passa esta mensagem aos teus colegas para que eles se tiverem consideração pela raça humana a espalhem e com o título: um grito de raiva! Eu também sou gente!
 
 
Licença para guiar
 
Quarta-feira, dia de chuva e nuvens cinzentas, pesadas. Dia de acordar cedo para chegarmos a horas à Escola de Avelar, onde centenas de alunos esperam pacientemente a chegada de um convidado especial. Salvador Mendes de Almeida, presidente da Associação Salvador, aceitou o desafio de Lurdes Cotovio, professora atenta às grandes causas, para ir a esta escola falar da sua experiência de vida depois do acidente de mota que o deixou tetraplégico aos 16 anos.
 
Salvador fundou a Associação com o objectivo de tornar Portugal um país acessível às pessoas portadoras de deficiência ou com dificuldades de locomoção e, ao mesmo tempo, sensibilizar a sociedade para os perigos na estrada. Nesta lógica programou uma série de acções em escolas onde há alunos em idades próximas de terem licença para guiar.
 
As ‘aulas’ que Salvador dá nas escolas marcam os alunos para sempre. É impossível esquecer as coisas que ele diz, os filmes que mostra e a verdade com que fala sobre tudo a todos. Não há temas tabu para o Salvador nem há assuntos proibidos. Se os adolescentes querem falar sobre namoradas, sobre sexualidade, sobre o que ele pensa sobre a vida ou saber exactamente o que sentiu depois do acidente, se chorou, se ficou revoltado ou se teve medo de morrer, ele responde e conta com detalhes expressivos tudo aquilo por que passou imediatamente a seguir e, também, nestes últimos 10 anos como tetraplégico.
 
Salvador vive a dar testemunho e a falar de um acontecimento dramático que mudou radicalmente a sua vida mas por incrível que pareça fala sempre de tudo como se fosse a primeira vez. Eu própria, que o conheço e acompanho, comovo-me invariavelmente com as suas palavras. Os alunos, os professores e os pais presentes nestas sessões ficam igualmente suspensos do seu testemunho e da sua atitude, sempre tão extraordinários e transformadores. Salvador é, na verdade, uma luz no mundo. Tudo fica incrivelmente mais definido e luminoso à sua passagem e nem sequer sei se ele se dá conta deste efeito iluminante, por assim dizer.
 
Salvador teve um impacto brutal nos 250 alunos da Escola de Avelar que assistiram à sessão dentro do ginásio. Mostrou filmes que valem por mil palavras, enunciou estatísticas e perguntou quem, entre eles, tinha menos de 16 anos. Mais de metade pôs o dedo no ar e Salvador, com um sorriso, disse:
 
- Com a vossa idade eu também era como vocês. Jogava futebol, ia à praia, corria, andava, vestia-me sozinho, estudava, começava a sair à noite, já tinha namoradas e a vida corria-me bem. Gostava de andar de mota e achava que os acidentes só aconteciam aos outros. Numa noite de Verão, no Algarve quando estava de férias, adormeci ao volante quando voltava de uma discoteca. Tinha bebido uns copos e estava cansado. Não me lembro do acidente nem recordo bem os primeiros dois meses mas depois percebi que tinha ficado tetraplégico e na noite em que o médico me disse que ia ficar numa cadeira de rodas para sempre chorei. Foi a pior noite da minha vida.
 

Os alunos ouvem estas e outras palavras de Salvador sem se mexerem nas cadeiras. Apesar de o ginásio estar a transbordar de adolescentes de várias turmas e idades, não há um único barulho. Apenas o silêncio e a chuva lá fora.

 

publicado por Laurinda Alves às 18:00
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Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009
Que vêem os que não conseguem ver?

 

Um ramo de flores a ser colocado numa jarra. Um gesto banal

uma imagem simples e bonita que nós, os que vemos bem e

sem dificuldades, apreciamos. Muitos se calhar nem prestam

grande atenção a estas e outras coisas comuns do dia-a-dia...

Quando vemos, ouvimos, falamos e nos movemos livremente

esquecemo-nos facilmente que outros não vêm como nós, não

ouvem, não falam e não se movimentam como gostariam. Tive

esta realidade sempre muito presente por ser filha de uma mãe

que dedicou toda a sua vida profissional à educação e treino de

pessoas portadoras de deficiências mas, mesmo assim muitas

vezes não dou o devido valor ao facto de ter saúde e de viver sem

quaisquer condicionalismos. Por ver bem, ouvir, falar e caminhar

sem problemas nem sempre me lembro que outros vivem esse

drama diário. Ou melhor, lembrar até lembro porque tenho vários

amigos com vários tipos de deficiência, mas sinto que não faço

grande coisa por eles e outros como eles. Hoje tinha no meu mail

outro mail do Paulo Taleixo em que ele me conta o sofrimento de

muitos cegos neste país e me pede que ajude a divulgar a ACAPO

e, acima de tudo, que faça alguma coisa que contribua e transforme

a consciência dos outros. Qualquer coisa que os desperte para esta

realidade dos que não vêem ou vêem muito mal.É o que estou a fazer

aqui no blog e o que continuarei a fazer sempre nos meus escritos,

onde falo especialmente dos mais vulneráveis e dos que precisam

de ser acolhidos, compreendidos e ajudados. Alguém disse um dia

que "o pior cego é aquele que não quer ver" e concordo inteiramente.

 

P.S.: Obrigada Ana pelas emendas. O erro escapou-me mas já corrigi!    

publicado por Laurinda Alves às 11:35
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Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008
Mães assassinas
 
 
 
A notícia é recente: uma mulher grávida, casada, que finge ter um tumor e passados meses aparece sem barriga e sem doença. Aparentemente mais uma mulher que consegue enganar em casa mas não na rua. O marido não desconfia mas os vizinhos sabem que ela esconde uma gravidez e interrogam-se sobre o paradeiro do bebé.
Uns acham que o deu para adopção mas outros insistem em saber pormenores. E descobrem que o matou e guardou o cadáver no congelador.
Esta mulher é mais uma daquelas que matam os seus próprios filhos à nascença e depois continuam a fazer coisas tão inexplicáveis como pô-los num saco dentro do congelador, mantendo uma certa normalidade e cumprindo as tarefas do dia-a-dia.
A ideia de guardar o cadáver de um bebé no congelador gela qualquer pessoa dita normal e a frieza com que tudo isto é feito é desconcertante. Inquieta e apavora.
Os psis e os especialistas em crimes desta natureza não têm respostas prontas para dar nem existem explicações fáceis para atitudes como estas. Mas há comportamentos que dão pistas e podem ajudar a identificar potenciais infanticidas.
Sophie Marinopoulos, psicanalista e psicóloga clínica francesa especialista na ligação ‘mãe-filho’, autora de estudos e livros de referência sobre estes laços essenciais, acaba de lançar um ensaio sobre a questão. “La vie ordinaire d’une mère meurtrière”, editado pela Fayard, é a história de Eva uma mulher criminosa que faz exactamente o mesmo que fez esta portuguesa e usou igualmente o congelador para guardar o cadáver.
Sophie declara que Eva é uma mulher como as outras. Ou quase. “Boa mulher, boa pessoa, boa vizinha, tem uma vida profissionalmente preenchida e uma casa razoavelmente confortável. Discreta, talvez seja um pouco apagada. Como se estivesse ausente do seu próprio corpo”.
Tão ausente que descobriu tardiamente as suas três gravidezes. A última fê-la precipitar-se para a casa de banho a meio da noite, onde teve um filho que não sabia que esperava. “Com uma mão ajudou-o a nascer e com a outra matou-o.” Sophie escreve que, depois, foi com uma certa ‘naturalidade’ que o enfiou num saco de plástico e abriu a porta do congelador velho para o deixar lá. Sem grande esforço para o esconder, note-se.
Sophie Marinopoulos trabalha há anos com estas mães, em articulação com os tribunais franceses, e garante que muitas não sentem nada. Nem culpa nem arrependimento. Como se fossem desprovidas de emoções. Como se não tivessem sequer consciência do crime que cometeram e cuja motivação não sabem explicar.
O livro de Sophie Marinopoulos não dá soluções mas traz muita luz a um debate complexo sobre questões delicadas. Questões que se prendem com a atitude feminina de negação interior da gravidez, com a forma como certos casais se amam ou envolvem fisicamente sem olharem verdadeiramente um para o outro e com o facto de uma mulher poder não compreender que aquilo que expulsou do seu ventre e, depois, matou é um bebé. Embora a matéria seja violenta e fale de mulheres e crimes que consideramos monstruosos, Sophie consegue ter um olhar profundamente humano e provar que muitas destas mulheres não sabem dar aquilo que nunca receberam. Não faz delas inocentes mas ajuda-nos a perceber que há mais culpados.
publicado por Laurinda Alves às 19:45
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Domingo, 10 de Fevereiro de 2008
A dor dos homens
 
Numa semana em que tanto se escreveu e disse sobre o aborto, em que prós e contras se voltaram a manifestar com veemência a propósito da aplicação da nova lei pós-referendo, gostava de acrescentar à discussão a perspectiva dos homens que ‘abortaram’.
Embora seja intensamente debatida por homens e mulheres, a questão do aborto permanece no imaginário de quase todos como uma questão das mulheres: uma escolha delas, um direito delas, o corpo delas, o alívio ou o trauma delas. Ora as mulheres decidem abortar ou não porque engravidaram dos homens e, nesta lógica, a questão, os interesses, os direitos e deveres são tanto de uns como de outros. Ou seja, o aborto não é um exclusivo das mulheres, muito pelo contrário. Os homens estão envolvidos desde o momento da concepção até ao momento da decisão. Não por uma questão de ‘culpa’, note-se, mas porque na realidade eles são os pais de um filho que há-de nascer ou não, em função da decisão que for tomada.
Embora a esmagadora maioria dos homens não tenha qualquer reserva em discutir em público ou privado o lado jurídico, moral e ético da questão, há uma minoria que tem pudor em revelar os seus sentimentos mais íntimos e em trazer à discussão uma realidade que poucos assumem: muitos homens que ‘abortaram’ também sofrem o trauma pós-aborto ou vivem com desconforto emocional por isso.
Pela primeira vez desde que o conceito de ‘síndroma traumático pós-aborto’ foi aceite pela comunidade médica e científica mundial, no início dos anos 80, foi organizada uma conferência internacional sobre os homens e o aborto. Em Janeiro passado, a San Francisco Men & Abortion Conference reuniu algumas centenas de homens para debater a questão e durante dois dias seguidos vários especialistas enunciaram as causas das coisas.
Houve duas comunicações que tiveram um impacto particularmente mediático na imprensa americana: “Medicating the Pain of Lost Fatherhood” e “Forgiveness Therapy With Post-Abortion Men”. Escusado será dizer que embora a conferência fosse aberta a todos e houvesse especialistas de várias áreas e tendências, os testemunhos para mim mais transformadores vieram dos homens que decidiram dar testemunho da sua experiência e justamente por terem vivido a realidade de um ou vários abortos, decidiram depois tornar-se activistas contra a interrupção voluntária da gravidez. Ou seja, homens que deram a cara por uma causa que também é deles.
Não estive na conferência e não ouvi as histórias de vida destes homens que lamentam profundamente não terem pensado melhor sobre o assunto na altura em que eles próprios ou as mulheres que engravidaram decidiram abortar. Mas li as comunicações que fizeram e os testemunhos que deram e mantive o contacto com Vincent M. Rue, um dos conferencistas que esteve em Lisboa nas vésperas do congresso de S.Francisco.
Vincent vive e trabalha num país onde se faz um milhão de abortos por ano e é um dos terapeutas especializados no acompanhamento de homens e mulheres que sofrem o trauma pós-aborto. A sua experiência de mais de trinta anos a tratar homens, mulheres e casais é muito eloquente do sofrimento que existe em muitas das pessoas que tomaram esta opção.
Sabemos todos que a interrupção voluntária de uma gravidez nunca é escolha fácil e raramente é feita sem condicionantes e, por isso, não se trata de julgar quem faz a opção mas de a evitar ou, não sendo possível, de aliviar as dores de quem é obrigado a lidar a vida inteira com a escolha que fez. Apesar de a lei nos EUA, e agora aqui, proteger a decisão das mulheres, isso não impede que elas se venham a arrepender ou que sofram a perda. E é justamente porque muitas mulheres e homens se confrontam ao longo da vida com a memória dos filhos que geraram mas não chegaram a nascer que vale a pena olhar para a questão do trauma pós-aborto sem preconceitos e começar a trabalhar a montante.
Os homens que lamentam os filhos que não tiveram contam que passaram a ter pesadelos, insónias, graus de irritabilidade maiores, sentimentos de culpa e, em casos agudos, fases de impotência física que assumem ter sido provocadas pela instabilidade emocional decorrente do stress potenciado pelo aborto ou até pela memória das relações sexuais que deram origem a esse mesmo ciclo de ‘mixed feelings’.
Alguns reconhecem a indiferença com que ‘pagaram e levaram’ a mulher que engravidaram a abortar, mas confessam que esta indiferença acabou por se transformar numa consciência profunda do seu acto. Estes, os que assumem a indiferença inicial, dividem-se entre os que vieram a ter filhos e os que nunca chegaram a ser pais. Os que tiveram filhos confessam que a paternidade lhes trouxe uma dor desconhecida e até ali insuspeita: a de serem pais destes filhos mas não daqueles que decidiram não ter.
Os que nunca chegaram a ser pais declaram que muitas vezes sonham com crianças que sentem que são os seus filhos (daí também os pesadelos de que falam) e têm umas saudades absurdas de alguém que não chegaram a conhecer.
E é porque eu própria tenho grandes amigos que passaram por essa experiência não apenas uma mas várias vezes, há muitos anos, mas que ainda agora falam com tristeza desses filhos que nunca chegaram a ter que insisto que vale a pena continuar a trabalhar de forma esclarecida e esclarecedora para evitar que a questão do aborto se ponha com tanta frequência e urgência. Com lei favorável ou sem ela, o sofrimento é real e não é um exclusivo das mulheres.  
 
publicado por Laurinda Alves às 19:20
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