Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2011
SOS escadas rolantes

 

As escadas rolantes da estação de Metro da Baixa-Chiado vão de mal em pior. Primeiro parou o lance de cima e puseram lá um cartaz com um pedido de desculpas que está lá há semanas. Como é o primeiro lance para quem desce, a coisa não é dramática. O pior é que ontem e hoje havia vários lances completamente parados e as pessoas eram obrigadas a subir a pé quase todas as escadarias íngremes que as levam para a superfície. Eu sou daquelas que sobem e descem sempre as escadas pelo seu próprio pé, mesmo que sejam rolantes (ou seja, não fico parada a deixar-me transportar mecânicamente) e por isso nem sequer me fazem grande falta, mas tenho assistido a cenas dificeis com pessoas mais velhas ou com dificuldades de locomoção. E mais, pelo Chiado passa muita gente com malas pesadas às costas e também custa vê-los carregados e ofegantes por ali acima. Será que o arranjo destas engrenagens ainda demora muito?

publicado por Laurinda Alves às 08:32
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Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008
Os pedófilos 'amigos' das crianças

(Imagem de uma campanha recente feita no Brasil

 
Há nomes que vale a pena fixar e o de João Sarmento Pereira é um deles. Neste caso pelas piores razões. Ouvi este nome no Telejornal no princípio da semana, no mesmo dia em que foram presos em Espanha 121 suspeitos de envolvimento numa das maiores redes de pornografia infantil.
 
A rede é um terrível polvo de mil tentáculos que espalha o mal pelo mundo e a própria polícia espanhola revelou que o material apreendido continha fotos e vídeos arrepiantes feitos com bebés e crianças muito pequenas.
 
A sequência de notícias relativas a abusos de menores neste dia começou com a divulgação das prisões feitas pelas autoridades espanholas e seguiu para o caso português de João Sarmento Pereira, de 21 anos, acusado de 6 crimes de abuso sexual a menores e condenado a dois anos e meio de cadeia, a quem foi concedida a liberdade a troco de tratamento psiquiátrico.
 
Por razões que ultrapassam o entendimento do comum dos mortais, este abusador de crianças retomou a sua vida normal e cumpre agora uma pena suspensa com toda a liberdade e apenas a obrigação de ir a umas consultas no psiquiatra. Acho extraordinário que assim seja e acho muito grave que este homem possa continuar a exercer a sua profissão de professor primário.
 
Para percebermos o que está em causa e avaliarmos a extensão deste fenómeno de benevolência judicial vale a pena voltar aos factos e apresentar o professor. A acreditar no que vi e ouvi na televisão e não vi desmentido depois em lado nenhum, este rapaz começou aos 18 anos a estagiar num colégio em Carcavelos onde tinha um contacto diário muito próximo com as crianças. Um contacto muito íntimo, para sermos mais exactos.
 
O rapaz ajudava as crianças a vestirem-se e despirem-se para as aulas de ginástica e fazia-se valer da sua supremacia física para abusar das crianças e as assustar ao ponto de elas não serem capazes de contar em casa o que lhes acontecia na escola. Tanto quanto percebi houve abusos mais graves e menos graves mas eu, que não sou juiz mas sou mãe, considero tão grave a ‘manipulação dos genitais’ de uma criança como a violação ou ‘tentativa de penetração’.
 
Admito que os que julgam precisem de evidências físicas de violação para condenar mas sei (todos sabemos!) que não é preciso haver consumação da violação para deixar marcas indeléveis numa criança e traumatizá-la para sempre. E este é o ponto sobre o qual assenta a minha argumentação sobre um caso que me parece eloquente de uma brandura excessiva e de uma leviandade intolerável.
 
Falo da brandura dos juízes e da leviandade de quem permite que este homem mantenha a sua carteira profissional de professor primário, podendo exercer a profissão num meio em que a proximidade física de crianças pequenas pode potenciar situações de abuso como as que ficaram provadas no passado recente.
 
Compreendo as mães e pais das crianças abusadas que foram ouvidas pelo jornalista e apareceram na televisão em contra-luz para não se ver a cara. Estou solidária com a sua indignação e a sua dor porque não se trata de uma vingança mas sim da mais elementar justiça. Como é que um rapaz que fez o que fez aos seus filhos pode estar em liberdade e continuar a ser professor primário?
 
Será que os juízes e os especialistas que os aconselham não sabem que o pior pedófilo é sempre o ‘maior amigo das crianças’? É sempre o que parece bom, que se faz amigo, que se torna confiável e depois usa todo este capital de simpatia e proximidade para actuar com frieza, premeditação e perversidade.
 
Ou será que os juízes acreditam sinceramente que o rapaz está profundamente arrependido e não vai repetir? Há estudos científicos que provam que esta compulsão para o abuso sexual de menores pode durar uma vida inteira e mesmo que neste caso haja um forte arrependimento é inquietante saber que alguém condenado por seis crimes de abuso sexual anda por aí à solta e mais tarde ou mais cedo vai voltar à escola e ao contacto com as crianças que, por definição, são o seu alvo preferencial e as potenciais vítimas.
 
Quem nos garante que este homem fica curado com um tratamento psiquiátrico? E quem se responsabiliza pelo seu acompanhamento, pela sua evolução mental e moral, e se responsabiliza por ele no futuro? É essencial fazer as perguntas porque alguém tem que ter as respostas para o deixar em liberdade permitindo-lhe continuar a ser professor primário.
 
Se insisto em deixar escrito o nome deste homem não é para o voltar a condenar pois não me compete a mim fazê-lo, mas para que mais pais e directores de escolas saibam com o que contam se lhes bater à porta um homem que sendo professor traz consigo outras credenciais.
 
Como cidadã e como mãe tenho o dever e o direito de sublinhar as minhas reservas quanto a casos destes, em que aparentemente não houve reparação dos danos nem sequer a obrigatoriedade de prestar serviço cívico na comunidade para dar de volta parte daquilo que roubou.
 
Na impossibilidade de devolver a integridade física, moral e emocional às crianças que abusou e de reparar o sofrimento que lhes provocou a elas e às suas famílias, devia existir a obrigação de cumprir uma pena cívica que o reabilitasse a ele e, ao mesmo tempo, nos desse a nós a certeza de que este homem está apostado em regenerar e em conquistar a confiança que neste momento ninguém pode ter nele até conseguir provar o contrário.
 
Repugnam-me os pedófilos e tarados cuja compulsão é repetir o crime de abuso sexual a menores. Nesta lógica confesso que defendo a castração química para alguns dos condenados por este tipo de crime. Mais do que uma medida de protecção para os nossos filhos e ainda mais do que um castigo aos abusadores é um favor que lhes fazemos pois é raro o que não volta ao local do crime mais do que uma vez.
 
Há quem ache uma medida excessiva mas assumo que, para mim, seria a medida certa. Não percebo porque é que havemos de continuar a acreditar mais na voz de um criminoso do que nas das suas vítimas. 
 
     
publicado por Laurinda Alves às 18:15
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Terça-feira, 9 de Dezembro de 2008
Mais depressa entra um dealer no meu bairro do que eu!

 

Esta é a esquina da Rua Marechal Saldanha com o Loreto,

no cimo da Calçada do Combro. Nesta esquina todos os

dias há cenas inenarráveis por causa dos pilaretes da CML

a barrar a entrada no Bairro de Sta Catarina. Geridos pela

EMEL e por uns senhores que nunca se deixam ver nem se

identificam mesmo quando lhes pedimos o nome, o sobe e

desce deste pilaretes é diariamente gerido por estes homens

e mulheres invisíveis que ora estão de bom humor, ora estão

atravessados por alguma razão e o caldo entorna. Eu e muitos

outros como eu já perdemos a cabeça mais do que uma vez a

tentar falar com um pilar absurdamente surdo aos argumentos.

 

 

De dentro deste pilar saem umas vozes que mal se ouvem cá

fora porque a rua é muito barulhenta e as buzinas dos carros

que esperam na fila podem ser insurdecedoras. Os  senhores

da EMEL sabem mas estão-se nas tintas. Demoram eternidades

a 'atender' os que pretendem passar. Um inferno diário para quem

mora nestas ruas dos bairros abrangidos por este controlo policial

e quase sempre prepotente. Posso garantir que mais depressa um

dealer de droga entra no meu bairro do que um morador! É infame

mas é rigorosamente verdade. Há sempre uma suspeita a pesar

sobre os moradores que estes senhores vêm entrar e sair todos os

dias, várias vezes por dia. É incrível mas apesar de nos conhecerem

bem demais, levantam sempre obstáculos (neste caso os pilaretes)

e suspeitam da informação que lhes damos. Esta atitude enche de

nervos e frustração pois revela um exercício prepotente de um poder

que estes funcionários da EMEL julgam que têm mas não podem ter!

 

  

Já escrevi algumas vezes sobre o mau funcionamento dos

pilaretes, cujo sistema mecânico entra em falência técnica

com excessiva frequência mas o meu maior protesto e a

minha maior indignação tem a ver com a atitude tão pouco

profissional e com o abuso de poder dos senhores da EMEL!

 

Nota: Não deixa de ser uma ironia que o autocolante colocado

no pilar tenha um coração com a inscrição "Lisbon Lovers"...

 

publicado por Laurinda Alves às 11:55
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Sábado, 6 de Dezembro de 2008
Em homenagem às vítimas do naufrágio ontem

 

Rosamar naufragou ontem na Galiza, com uma tripulação de 13 pescadores:  8 portugueses e 5 indonésios. Três portugueses morreram e cinco foram resgatados mas há outros cinco que continuam desaparecidos. As operações de salvamento foram retomadas esta madrugada. Neste momento há famílias em luto e grande sofrimento. Há uns anos escrevi sobre o naufrágio de fragateiros no Tejo, que morreram com Lisboa à vista depois de uma noite de grandes tormentos. Em homenagem aos pescadores que perderam a vida na Galiza, deixo aqui essa crónica que foi adaptada ao cinema por José Nascimento. O filme chama-se Tarde Demais. 

 

 

O dia ainda vinha longe mas o barco já ia pesado. Passava das seis e meia. a madrugada gelava os ossos e o vento arrepiava os gestos. Chovia sem parar. Quatro vultos deitavam as mãos às redes com o vigor de quem luta pela vida. Mais duas braçadas firmes, a compasso, e ficou rematada a faina. Os robalos debatiam-se no escuro antes de serem atirados para o fundo e os vultos iam ganhando cor. Os sorrisos, esses, ganhavam o contorno habitual. O dia ainda mal começara mas, para os quatro homens, estava terminado.

 

Exaustos, sentaram-se à uma. Preparavam-se para o aconchego do cigarro quando sentiram um torpor excessivo no motor. O bote parecia arrastar todo o peso do mundo. Um deles inspeccionou os cantos enquanto os outros tentavam prescrutar o fundo. De repente deram-se conta de que havia um rombo por onde a água entrava em cachão. Apressaram-se a dar vazão à água que subia mas a força dos braços nada podia contra o ímpeto do rio.

 

Havia uma bomba pequena que costumava servir, mas também ela se revelou escassa. A água transbordava e ameaçava afundar o barco. "Não demos vencimento àquilo, a água era demasiada." Lestos de movimentos e raciocínio, dividiram tarefas e enquanto uns recolhiam os coletes de salvação, os outros desembaraçavam-se da roupa mais pesada. O barco ia a pique e a não ser as suas vidas, nada mais havia ali para salvar.

 

Arruinada, a velha embarcação há muito não tinha rádio nem reservas de alerta ou protecção. Meio submersa, deixou rapidamente de dar luz e, antes das dez da manhã, já não havia vestígio da pobre lancha. No coração das ondas concêntricas desenhadas pelo afundamento, ficaram quatro homens tolhidos de frio a tentar desesperadamente manter à superfície o corpo e a esperança.

 

 

Durante mais de cinco horas agitaram os pés e as mãos na água gelada. tinham todos perto de 60 anos mas pareciam crianças aflitas. Chovia impiedosamente e o vento não dava tréguas. Fustigados pelas ondas, faziam os impossíveis para permanecerem juntos e encontrar uma saída. o barco encalhara numa coroa de areia e eles sabiam que a maré havia de baixar. Nessa altura, com sorte, a superfície do barco emergia e eles descansavam um pouco.

 

"Tivémos salvamento à vista por três vezes." E por três vezes os batelões se afastaram, indiferentes aos gestos de desespero e aflição. "Batíamos com os pés na água com muita força para ver se nos viam, mas nada." O dia estava embaciado. O céu, muito baixo, abafava os movimentos e as nuvens diluiam o horizonte na água do rio. Tudo assustadoramente conjugado para a desgraça dos quatro amigos.

 

"Estivemos mais de cinco horas ao frio, à chuva e ao vento, todos encharcados. Sabe Deus o que passámos. Foi aquela chuva a bater permanentemente, o frio gelado e tudo aquilo que deu conta da gente. Aquelas horas destroçaram-nos completamente. Foi o pior que podia ser." Das fraquezas fizeram forças e aguentaram-se até a maré acabar de vazar. passava das três da tarde quando o barco voltou a ficar à superfície e eles de pé com o corpo fora da água.

 

 

 

"Tínhamos de andar por cima das ostras." Caminhavam descalços de pés rasgados e começaram a tirar as roupas para conseguir nadar entre os mouchões. Era dura a provação e sabiam que fatalmente acabariam a travessia do rio com o corpo todo cortado. Olharam para o horizonte e perceberam que o caminho da salvação era pela lezíria do Lombo do Tejo. "O tempo já era pouco, era preciso rasparmo-nos depressa e aquela era a hora ideal porque a maré estava vazia."

 

Partiram. "O José foi à frente, estava apanhado pelo frio. muitas vezes fora impedido de pescar pelas próprias mãos, que se negavam à lida por estarem geladas. Sofria muito com o frio." Seguiu minutos antes dos outros, na miragem de alcançar mais um pedaço de terra firme e mostrar o caminho aos amigos. "O Zé estava muito fraco e caía. Tropeçava na lama mas eu cheguei-me a ele e levantava-o e dizia-lhe para vir comigo." Mas o corpo de José Fragateiro, derrotado pelo frio, recusava-se a andar mais. O lodo dava pela altura dos joelhos e tornava muito penosa a caminhada. Os amigos gritavam de desespero para não o deixarem morrer.

 

"Se ficássemos ali morríamos todos. Achei que era melhor nadar para terra para pedir ajuda." Foi o que fez, com o coração apertado por deixar o José sozinho. "Deus queira que chegue a horas, deus queira que chegue!" era o pensamento obsessivo de Manuel Aranha, um dos sobreviventes e o que relata o naufrágio. Perto das dez e meia, já noite cerrada, Manuel deu à costa. "Fui parar a Santa Iria, à fábrica do gás. Chamaram a ambulância e deram-se apoio no posto médico."

 

Manuel Aranha estava em colapso físico e emocional mas ainda arranjou forças para fazer um rascunho onde indicou a posição do barco e o lugar do mouchão onde ficaram os amigos. Depois não se lembra de mais nada. Nessa altura as mulheres dos pescadores há muito estavam em sobressalto, com o coração cheio de angústias. No Montijo, a terra dos pescadores desaparecidos, ninguém tinha sossego.

 

A noite caiu, opressiva e o seu peso afundou as famílias numa angústia cada vez maior. Quando chegou a notícia de que Manuel Aranha chegara a terra as mulheres rezaram, choraram e riram. Talvez os outros tivessem vindo com ele. Correram pela rua a saber mas afinal ainda estavam no rio. Em terra, Josélia e José Fragateiro, mulher e filho do pescador mais velho, faziam os impossíveis para resgatar os náufragos. Pediram um helicóptero mas responderam-lhe que não podia levantar àquela hora da noite.

 

José Fragateiro e Joaquim Silva, dois dos três pescadores que continuavam no rio, passaram mais uma noite ao relento, despidos sobre o lodo. António tinha-se amarrado ao barco com umas cordas e assim continuava. Na manhã seguinte, cumprida a burocracia e concedido o estatuto aos pescadores, o helicóptero levantou voo e em menos de meia hora os corpos foram encontrados. Amanhecera e Lisboa estava de novo à vista. Tão perto que até parecia ao alcance de um braço.

 

Josélia Fragateiro e Maria Domitília Silva foram chamadas a reconhecer os maridos. a eficácia póstuma das autoridades dilacerou ainda mais o coração das viúvas e filhos dos pescadores. No dia do entrerro não havia um palmo de terra por onde pisar. Manuel Aranha e António Fragateiro, primo de José, estavam entre a multidão e mais uma vez choravam como duas crianças.       

 

"O Zé é que nos ajudou a aguentar aquelas horas todas no mar. Falava, contava coisas e prometia que ainda havíamos de fazer uma caldeirada todos juntos." Não teve essa sorte.

O helicóptero, disseram mais tarde as autoridades, não voa de noite porque não tem holofotes. Talvez até conseguisse voar mas para isso era preciso que o apelido dos náufragos não rimasse com Fragateiro, nome singelo dos homens simples e rijos que se aventuram em fragatas no rio Tejo.

 

 

publicado por Laurinda Alves às 11:13
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Sexta-feira, 21 de Novembro de 2008
Crónicas do Público de hoje

 

 

As Tristes Luzes de Lisboa
 
Da noite para o dia a cidade apareceu enfeitada de Natal mas este ano as luzes de Lisboa são tristíssimas. À excepção de dois ou três passeios considerados mais nobres e, por isso, com direito a uma iluminação quente e vibrante, todas as ruas têm luzes azuis, frias, geladas, sem graça e pior, luzes que choram. Na Avenida da Liberdade, por exemplo, o efeito mágico mais natalício que se inventou foi pôr lágrimas de luz a escorrer pelos fios, numa ilusão permanente de um choro silencioso que entristece e não apetece. Imagino que a iluminação da cidade tenha custos exagerados para os tempos que correm e não me custa acreditar que se não fossem alguns mecenas nem sequer haveria luzes de Natal mas pergunto se as lâmpadas azuis são assim tão mais baratas do que as encarnadas e as douradas. Serão? E a coisa compensa? Ou o azul é a cor de quem paga e, por ser a cor de quem paga, também tem que ser a cor do Natal em Lisboa. Se assim é parece-me absurdo o princípio. Imaginemos que os patrocinadores tinham uma marca conhecida por ser listrada, será que as lâmpadas de Natal passavam a ser luzinhas zebradas e toda a cidade se convertia num bisonho jardim zoológico de espécie única? Pior do estas luzes azuis e frias do Terreiro do Paço e das avenidas só um Pai Natal vestido de pijama azul eléctrico.
Sugiro que no próximo ano os responsáveis pelas iluminações revejam os catálogos de cores e ajustem os preços das lâmpadas festivas com os patrocinadores, negociando com eles a possibilidade de recuperar para o Natal as cores do Natal.    
 
 
Teste a sua inteligência dominante 
       
 
 
Desde que Daniel Goleman e os seus discípulos enunciaram outras formas de inteligência para além da que era possível medir através dos convencionais testes de QI, passámos a saber que existe um espectro largo de inteligências nas quais se incluem a emocional, a espacial, a corporal, a relacional, a artística, a existencial, a lógica, a afectiva, a relacional, a espiritual, a intuitiva e outras.
 
Ou seja hoje em dia não é possível falar de inteligência única mas sim de inteligências múltiplas, numa amplitude e profundidade que interpelam e obrigam a pensar. Desde já porque a aceitação de uma realidade investigada e provada pelas neurociências estabelece novos patamares de avaliação e outro poder de encaixe.
 
Os professores, os educadores, os empregadores e as pessoas em geral deixaram de poder contar com um teste que durante décadas foi um modelo universalmente usado para medir e rotular a inteligência de cada um. Hoje em dia poderemos talvez testar a nossa inteligência dominante mas não a inteligência em absoluto, pois os testes de QI não têm em conta a variedade possível.
 
Um teste de QI convencional não mede as competências relacionais, os dons manuais ou a inteligência artística, por exemplo. Nem avalia a capacidade de introspecção e pode nem sequer chegar a medir a inteligência lógico-verbal se não tiver em conta a capacidade de pensar e usar a linguagem para exprimir ideias.
 
Uma vez que não sobram dúvidas científicas sobre a quantidade e a qualidade das inteligências múltiplas é urgente complementar os testes de QI (para quem os faz e porque podem ser importantes em casos concretos) com outras formas de avaliação que compreendam o potencial de evolução de cada um, a sua capacidade de adaptação ao meio (e a circunstâncias mais ou menos adversas), que avaliem as competências sociais e relacionais, que testem a inteligência lógico-matemática e analisem a originalidade e a criatividade. Tudo isto num esforço de aceitação de que o lendário QI por si só é um critério perigoso, redutor e, por isso, muito enganador.
 
 
Outras coisas que faltam nas nossas escolas
 
 
No meio de tanto barulho e perturbação nas escolas, numa fase de braço de ferro em que muitos se desentendem, poucos se ouvem e menos ainda se acertam, vale a pena trazer à discussão outras questões tão ou mais importantes do que a avaliação dos professores e o sistema de faltas dos alunos.
 
Falo de lacunas graves em matérias essenciais no sistema de ensino português, falhas que mais à frente, na idade adulta e segundo os critérios do mercado de trabalho, se revelam perversas na medida em que condicionam as escolhas profissionais e até a progressão em certas carreiras.
 
Nas escolas portuguesas os alunos não são ensinados a argumentar e a defender pontos de vista, não são treinados no debate de ideias e muito menos estimulados no improviso e na expressão oral. Não existem aulas para aprender a falar em público nem as matérias relacionadas com a comunicação são muito exploradas e é pena pois os portugueses apresentam sérias desvantagens num campo cada vez mais exigente e determinante.
 
Numa era claramente marcada pela comunicação, ter dificuldade em exprimir ideias, em alimentar um debate ou manter uma polémica com quem tem opiniões divergentes é um handicap tremendo. A diversidade de dons é e será sempre enorme e hoje em dia ganha mais quem comunicar melhor aquilo que sabe.
 
Tão importante como pensar e fazer bem as coisas é saber comunicá-las. Acontece que no sistema de ensino nacional não existem cadeiras específicas de comunicação e o resultado é que a generalidade dos portugueses não se sente confiante na expressão verbal das suas ideias e competências.
 
Passo a vida em conferências, seminários, workshops, encontros e discussões públicas sobre inúmeras questões e saio de lá quase sempre com a frustração de ver que os conferencistas nacionais são os mais chatos e os mais abstractos. Usam powerpoints palavrosos e incrivelmente densos, limitando-se a debitar em alto o que está escrito no ecran que é projectado ao lado.
 
Sempre que alguém fala para uma plateia desta forma dá um tiro no pé. A audiência não consegue acompanhar nem as palavras escritas nem as palavras ditas e, por isso, a comunicação é nula. Um desperdício em toda a linha, portanto.
 
Há os que escrevem o que querem dizer para não correrem o risco de se esquecerem ou para manterem uma coerência discursiva impecável ao longo da sua intervenção mas também estes falham muitas vezes a comunicação por uma razão simples: enquanto lêm o papel não olham para a plateia e não falam verdadeiramente com quem está presente. Até podem dizer coisas bem articuladas do ponto de vista literário mas como não adaptam o discurso às circunstâncias, não percebem para quem falam nem se detêm na eficácia daquilo que comunicam.
 
Salvo as raras e honrosas excepções dos que têm essa maravilhosa capacidade de ler um texto como quem conversa, usando um tom coloquial e um estilo simples, todos os que lêm um papel em alto tornam-se monótonos. Pior, como trouxeram as coisas escritas de casa e não fazem nada de improviso, tudo aquilo soa a ‘minuta’. Ou seja, a coisa que tanto pode ser dita aqui como repetida ali.
 
Por tudo isto e porque é nas escolas e nos liceus que estas competências devem ser adquiridas e treinadas não me canso de falar sobre a gravidade desta lacuna no nosso sistema de ensino. O que me cansa é ouvir chatos muito chatos. 
 
 
       
imagem tirada deste blog
 
 
 
    
publicado por Laurinda Alves às 20:01
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Sábado, 8 de Novembro de 2008
Detesto estes gestos obscenos no meio do trânsito!

(Texto escrito para o jornal Público de sexta-feira, 7 de Outubro)

 

Detesto gestos obscenos feitos com raiva, arrogância e desprezo no meio do trânsito. Detesto más maneiras e gente castigadora que usa e abusa de palavrões a propósito de tudo e de nada.

 

Numa semana marcada por situações de descontrolo ao volante, em que assisti a duas cenas caricatas protagonizadas por pessoas aparentemente de bem, gente que habitualmente não se excede nem grita, ocorre-me falar do conceito road rage que, afinal, é um fenómeno universal.

 

Está estudado que todos ficamos potencialmente mais agressivos quando estamos ao volante, e é interessante explorar o que dizem os especialistas em comportamento nesta matéria tão sensível como explosiva da fúria de guiar.

 

Dos mais pacatos aos mais nervosos todos temos alterações de comportamento quando guiamos um carro. Ninguém escapa à regra e, ao que parece, não há excepção.

 

Pais dedicados e tranquilos gritam obscenidades em frente dos filhos só porque o taxista da frente parou na berma sem fazer pisca; mulheres educadas e competentes perdem a cabeça e dizem palavrões de rajada porque um carro se atravessou no seu caminho; senhores todos postos por ordem fazem gestos ameaçadores quando se sentem pressionados por uma buzina mais insistente; jovens ditos normais transformam-se em seres coléricos quase bizarros se alguém não os deixa ultrapassar, e até velhinhos e velhinhas podem transformar-se em pessoas verdadeiramente hostis na estrada.

 

Feliz ou infelizmente ninguém é imune à raiva nem ao espírito de retaliação quando está ao volante. Todos somos vulneráveis à ira e todos somos capazes de fazer e dizer coisas que seriam inconcebíveis no nosso estado normal.

 

Há uns anos atrás escrevi sobre este assunto na revista XIS e agora retomo-o justamente pelas duas cenas de rua que presenciei em pleno centro de Lisboa e só não acabaram mal por absoluto milagre.

 

Leon James, psicólogo norte-americano que investiga as razões daquilo a que se convencionou chamar road rage e orienta cursos de traffic psychology há mais de 30 anos, tem um método de investigação, ensino e treino muito particular: pede aos seus alunos que instalem câmaras de filmar dentro do carro e propõe-lhes que gravem livremente e sejam actores dos seus próprios filmes.

 

Em sucessivos anos de gravações, Leon conseguiu resultados prodigiosos na medida em que consegue analisar com muita precisão a forma como cada um reage a pequenos e grandes acidentes de percurso.

 

O efeito espelho proporcionado pelas gravações é profundamente embaraçante mas altamente eficaz na correcção dos excessos. Isto porque devolve a cada um dos protagonistas e exacta medida da sua raiva, e revela até onde pode ir a sua agressividade. Mais, os vídeos permitem perceber a rapidez e a desproporção com que reagimos a estímulos insignificantes.

 

A teoria sobre o fenómeno road rage é vasta e abrangente e na impossibilidade de a resumir aqui, deixo as referências sobre a matéria e uma pista sugerida por Leon James que aconselha a adoptar uma atitude de latitude na estrada. Ou seja, a ganhar distância e a resistir ao desejo de vingança ou retaliação que tantas vezes nos assalta quando estamos ao volante e tudo nos parece uma provocação.

 

Esta atitude de latitude consiste em antecipar os erros dos outros, em concentrarmo-nos na eficácia e prudência das nossas próprias manobras em vez de nos desperdiçarmos a castigar perversamente os que se atravessam no nosso caminho.

 

Acima de tudo importa manter sempre uma certa distância de quem vai à nossa frente, ao nosso lado ou atrás de nós. Parece óbvio, não parece? Dito aqui, sim, mas vivido na estrada no cúmulo de nervos e stress habitual, as coisas não são assim tão fáceis.

 

Leon aconselha muito sentido de humor e uma capacidade de encaixe superiormente ensaiada, na certeza de que os erros que os outros fazem hoje não são maiores do que os que nós fizemos ontem ou faremos amanhã. 

publicado por Laurinda Alves às 01:13
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Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008
Que selvajaria!

 

Ontem dei-me conta de um buraco enorme feito no meu carro

onde há vestígios de cor verde que me levam a crer que pode

ter sido provocado por um camião do lixo ou coisa parecida já

que um carro normal não tem capacidade para perfurar desta

maneira tão devastadora o aço. Que selvajaria, meu Deus! E

claro que nem uma nota, nem um contacto, nem um cartão a

pedir desculpas ou a dar uma justificação. Ainda por cima ao

'puxar o filme para trás', dei-me conta de que isto só pode ter

acontecido numa noite da semana passada em que o meu

carro estava bem estacionado mas outro carro, deixado do

outro lado da rua a tapar a esquina, inviabilizava a passagem

do camião do lixo. Se assim foi não deixa de ser extraordinário

que o carro mal estacionado tenha saído incólume e que o

meu tenha ficado neste estado, com o buraco e mais um risco

grosso e fundo ao correr de toda a porta de trás. Que coisa esta!

  

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publicado por Laurinda Alves às 11:47
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Sexta-feira, 31 de Outubro de 2008
Proibido o barulho desnecessário!

 

Não faço a menor ideia da eficácia desta proibição numa cidade como Nova Iorque, nem consigo imaginar o que se pode considerar barulho desnecessário no meio de tantos ruídos e tanto movimento, mas percebo a ideia.

 

Apesar da ironia da coisa (do absurdo, talvez) concordo com uma proibição aos barulhos excessivos. Devia existir qualquer coisa parecida no nosso país que impedisse que fossemos assaltados por brocas e martelos às 8h da manhã todos os dias, excepto aos domingos.

 

Nunca percebi porque é que os homens das obras começam sempre o dia por fazer aquilo que é mais ruidoso. Parece de propósito pois à medida que a manhã avança e o dia corre, os martelos, as picaretas e brocas vão ficando mais silenciosos.

 

Vivo com obras no prédio, obras em condomínios nas traseiras e obras na rua em frente e reparo sistematicamente nesta coisa dos barulhos desnecessários. Dou comigo irritada pela perfuradora e brocas que inauguram o dia em todo o seu esplendor acordando a vizinhança inteira (parece que as obras são dentro do quarto, debaixo da almofada!) e depois ficam pousadas na pedra do chão durante mais de metade do dia.

 

Não compreendo a lógica da coisa mas agora, olhando para esta fotografia do João Francisco Moura, consola-me saber que algures no mundo alguém se preocupa e proibe o barulho desnecessário. Nice.  

 

publicado por Laurinda Alves às 08:53
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Quinta-feira, 30 de Outubro de 2008
Carro-bomba explodiu em Navarra

(esta imagem é de uma rua perpendicular à Clínica de Navarra) 

 

A notícia é de agora mesmo: um carro-bomba carregado com cerca de 100 kilos de explosivos, explodiu no parque de estacionamento da Universidade de Navarra, de onde acabo de voltar há dois dias. Que coisa sinistra, esta dos atentados a civis que nada têm a ver com as guerras destes guerrilheiros cobardes.

 

 

(esta imagem é de um dos edifícios centrais da Universidade de Navarra)

 

Dezassete pessoas ficaram feridas e deram entrada imediata nas urgências da Clínica de Navarra, onde muitos doentes (portugueses incluídos) estão internados. Custa perceber que estas pessoas que já sofrem penas indizíveis sejam o alvo escolhido para mais um atentado. Não há direito!
 
 

 

(esta é a imagem do Campus universitário, perto do local onde explodiu o carro-bomba)

 

publicado por Laurinda Alves às 12:57
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Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008
Não gosto nada da mudança da hora

 

Por mais exaltante que seja o entardecer e por mais que goste

destes breves minutos em que o dia se faz noite, detesto esta

mudança da hora. Não me conformo com a ditadura dos dias

cada vez mais curtos e a escuridão total às sete da tarde. Não

faço ideia do sentido que tem mudar a hora mas para mim não

tem lógica nenhuma. Alguém sabe a explicação da coisa? E os

princípios que regem uma alteração que mexe com o nosso ritmo

biológico e deixa alguns muito mais desconcertados?

Se puderem digam-me as vantagens, acho que isso me ajuda a

lidar com o facto incontornável de ter acabado de lanchar e já ser

quase noite. A vantagem da hora nova? Ficarmos mais inclinados

ao recolhimento, sim. Mas não acho assim uma grande vantagem...

  

publicado por Laurinda Alves às 17:20
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