É incrível, mas é verdade. Ou melhor é impensável, mas real. Incrível, porque não parece ter 80 anos; impensável porque nunca pensamos nestas idades e assim como os filhos permanecem eternas crianças para os pais, também os pais a partir de certa altura na vida deixam de ter idade aos olhos dos filhos. Eu, pelo menos, sinto isso. Hoje o meu pai faz 80 anos e celebramos com ele o seu dia e a sua vida. É uma verdadeira felicidade ter os pais vivos, presentes, próximos, disponíveis e autónomos. Dou-me conta do privilégio e gostava de estar à altura de o merecer. A surpresa do fim-de-semana passado foi festejar com a família alargada este aniversário e terem vindo todos os que vivem fora de Portugal. Hoje estamos só os 'da casa', mas a festa não é menor. Neste dia, em que a minha mãe tira finalmente o gesso do braço direito, agradeço aos meus pais o seu testemunho de fidelidade e de amor; a sua infinita capacidade de fazer das fraquezas, forças; a bondade e a paciência para com filhos e netos; a maneira leve e alegre como aliviam pesos e fardos das nossas vidas; a inteligência com que acolhem as ideias dos outros; a luz com que apagam as sombras do mundo; a serenidade com que atravessam a vida e a inteireza com que vivem todos os desafios. A integridade e a generosidade dos meus pais é uma marca profunda, indelével. A melhor herança que nós, filhos e netos, podemos receber. Obrigada, mãe. Obrigada, pai. Muitos parabéns!
Hoje uso uma fotografia de Manuel Correia para contar um pequeno episódio eloquente do caracter de alguém que tenho como exemplo de vida, de generosidade e de bondade, alguém que amo com todo o coração, mas com quem nem sempre tenho um diálogo fácil. Falo do meu pai, que é uma das melhores pessoas que conheço, que consegue superar todas as barreiras e os obstáculos, transcendendo-se em cada dia. Como todos os bons pais, o meu está sempre atento aos filhos e cuida dos mais ínfimos detalhes. Por vezes exagera e nós reagimos. Neste fim-de-semana estávamos em família à lareira, mais ou menos calados, num daqueles serões em que uma filha lê, a outra conversa, os pais estão por ali e chega. De repente apeteceu-me engraxar as minhas botas e pedi-lhe a caixa de madeira com as graxas. Ele, igual a si próprio, trouxe tudo, mas foi-me dizendo que não devia fazer isso à noite, porque de dia se vê melhor e por aí adiante. E eu: "mas está-me mesmo a apetecer fazer isso agora, pai. Vá lá, não esteja sempre a dizer-me o que devo fazer, já não sou uma criança" (esta minha versão é muito chata, devo dizer. Tenho pena mas é verdade). E o meu pai a insistir: "de dia vê-se muito melhor, mas tu é que sabes." E eu, achando que sim que sabia, lá ia espalhando graxa nas botas de que mais gosto, que são pretas e uso quase todos os dias. Ele calado e eu também. Até que a luz das chamas fez rebrilhar uma cor esquisita na bota que eu estava mesmo a acabar de engraxar. De repente olhei e num sobressalto vi o desastre que acabara de acontecer: a bota estava impecavelmente engraxada de castanho! Nem queria acreditar. Olhei para o meu pai a tentar avaliar se ele estava a ver o mesmo que eu, mas ele continuava a ler o jornal aparentemente esquecido do nosso diferendo e da minha teimosia. Por breves segundos ainda pensei esconder as botas e fingir que estava tudo feito e bem feito, mas não fui capaz. Acabei por interromper a sua leitura. "Pai, tinha razão, olhe o que aconteceu: agora tenho uma bota preta e outra castanha!". E ele, sem me condenar, levantou os olhos do jornal e viu o que estava à vista. Não disse uma única palavra, nem lhe passou pela cabeça lembrar-me que me tinha avisado, e é essa a sua grande lição. Não só não condenou, como na manhã seguinte pegou no carro para me levar a uma drogaria da sua confiança para comprarmos uma graxa suficientemente forte e preta para apagar todos os vestígios de castanho. Lá fomos, mesmo em cima da hora do almoço e do fecho da drogaria, eu ainda relutante e meio chateada, ele com aquela atitude querida e verdadeiramente paternal de quem só está ali para ajudar. Comprou a super graxa preta, pagou tudo e viemos embora sem uma palavra de recriminação ou ironia. Grande pinta. Quando for crescida quero ser como ele.
Parabéns, pai. Falta um ano para celebrarmos os seus oitenta, grande pinta. Uso o seu computador, em sua casa, às escondidas para deixar aqui uma fotografia nossa já com quase dois anos (foi a única que encontrei aqui sem ter que lhe pedir outras, para não me denunciar). Obrigada hoje e sempre pelo seu exemplo, pela sua integridade, pela sua bondade, pela sua atitude, pelo seu amor sem limites, pela sua disponibilidade e pelo humor sempre tão presente. Posso viver cem anos que nunca esquecerei cada um dos seus gestos queridos ao longo destes nossos anos em família.

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