Quinta-feira, 9 de Agosto de 2007
Estrelas cadentes
 
 
E foi quando a lua se apagou e mais estrelas brilharam no alto do céu, que voltamos a deitar-nos ao comprido da terra, sobre a pedra quente do terraço, para descobrir no azul-noite o rasto luminescente dos astros, os planetas exactos, as constelações míticas e as nebulosas remotas.
No calor da noite estrelada as vozes baixam, tornam-se mais íntimas. Na observação demorada deste céu de verão há longos silêncios. Pausas absortas e cúmplices de quem permanece suspenso do mistério do reconhecimento absoluto de alguns pontos de luz no infinito cintilante.
- Está ali o Triângulo de Verão, vês?
Uma vez interrompido o silêncio cósmico, as conversas sucedem-se e as dúvidas também.
- Quantas das doze constelações do Zodíaco podemos ver numa noite inteira?
- No Verão dá para ver nove mas no Inverno dá para ver mais porque a noite é maior. Nunca passei uma noite inteira de Inverno a ver estrelas mas no Verão já. Foi numa serra.
- Eu também, no Brasil, numa noite muito quente.
- No céu do Brasil podemos perder-nos.
Cai um silêncio interrogativo. Alguém saberá ao certo o que é perder-se ou encontrar-se no céu do Brasil?
- Lá, em vez das Ursas com a Estrela Polar, vemos o Cruzeiro do Sul com a Estrela de Magalhães. É o oposto, não estamos habituados.
Compreendo, uma indica o norte e outra o sul. Também por isso (mas não apenas por isso) a memória do céu do Brasil perturba e confunde. É verdade.
Voo para longe mas volto a aterrar aqui. Ao meu lado, as conversas evoluem. Ouve-se, muito perto, o rumor do mar. No ar quente e leve desenham-se gestos de surpresa por cada estrela cadente que rasga o céu. Ouço explicações mágicas, nomes fascinantes, teorias antigas, definições científicas. Deixo-me embalar quando começam a falar de berços de estrelas, de adivinhadores do futuro, de galáxias e constelações, de lendas e mitos extraordinários, de cavalos alados, de musas inspiradoras mas traiçoeiras, de mulheres com cabelos de serpente, de guerreiros com escudos de espelho, de criaturas espantosas e seres inimagináveis que se convertem em deuses poderosos. Alguém ensaia ainda uma breve teoria sobre a sincronicidade planetária mas já não consigo prestar atenção. Adormeço na pedra quente a meio de um sonho bom.
 
publicado por Laurinda Alves às 17:28
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