Adoro este Adagio de Bach tocado por Glenn Gould e em certos dias ouço-o repetidamente, vezes sem conta. Se tiver auscultadores e for de Metro ou a pé pelas ruas, sinto-me imediatamente transportada para outro tempo, outro filme, outra cidade. Como se tudo à minha volta fosse cinema e esta música tivesse o condão de transformar a realidade. Experimentem e verão que é uma experiência maravilhosa. Se a esta peça juntarem um poema de Novalis, por exemplo, tudo fica mais que perfeito. A sério.
Passados vinte e cinco anos voltei a uma casa que foi a retaguarda de uma outra casa radicalmente importante na minha vida. Falo no sentido literal e metafórico pois esta casa ficava atrás da outra, num pátio de casas recuperadas pela mesma família. Agora que lá voltei e a senhora Maria me abriu a porta, com este imenso molho de chaves, senti uma nostalgia profunda de um tempo muito feliz e muito bem vivido. Ainda bem que a memória não é uma paisagem assim tão distante.
O casão, como é conhecida esta espécie de sótão onde cabe um mundo de coisas mais ou menos avulsas mas todas cheias de histórias, permanece intacto como se os anos não tivessem passado. Esta sensação de tempo suspenso, parado (ou apenas demorado), parece um sonho. Notei diferenças nas janelas do tecto, que não existiam, e na escala do casão. Não sei se me pareceu maior ou menor, só sei que o achei diferente. Gostei da luz de cima e do cheiro das madeiras enceradas.
Gostei particularmente de ver que os livros continuam suspensos, como o tempo, amparados uns nos outros. Como todos nós, ao longo dos tempos. Que seríamos uns sem os outros? Tive saudades da Helena, da sua voz alegre e da sua presença forte. Nada disto teria a mesma beleza se ela não tivesse existido nesta casa.
O movimento perpétuo dos astros e os ciclos da lua fascinam os homens desde que o mundo é mundo. Inspiram filósofos, pensadores e pastores. Nos livros de todos os séculos existem descrições prodigiosas, definições poéticas, impressões mais ou menos científicas sobre a lua e a sua influência. Sobre a luminescência das águas, sobre a luz que ilumina os montes e os vales e se derrama sobre as cidades nas noites de luar.
Nas janelas altas da casa onde moro existe um degrau de pedra onde me sento todas as noites. No silêncio observo ‘a espantosa realidade das coisas’ e essa é também ‘a minha descoberta dos dias’, como escreveu Alberto Caeiro.
Acompanhar a lua acesa no céu, ver a esteira de luz que estende sobre o rio e sobre as casas e seguir o seu rasto lento até desaparecer no horizonte escuro é uma experiência exaltante e um tempo sagrado. Amanhã é noite de lua cheia e, por isso, hoje escolho e deixo aqui uns breves versos de Homero, depois do discurso de Heitor aos Troianos, feito ‘em sítio puro’, após o anoitecer.
“(…)quando no céu os astros em torno da lua luminosa
aparecem com nitidez, quando o ar não tem sopro de vento,
e à vista surgem todos os cumes, os altos promontórios
e as florestas; do céu se rasga o éter infinito, todos os astros
se tornam visíveis e em seu coração se alegra o pastor”.
Quando já não há vozes na rua e em casa não se ouvem barulhos mas apenas o silêncio, abro todas as janelas e deito-me ao comprido na cadeira preta para ver a lua descer no céu. Lento, demorado e íntimo, o movimento perpétuo dos astros dá a ilusão de que é a lua que sobe, desce e desaparece. Gosto de seguir a lua e preciso da deriva nocturna.
Numa destas noites de lua crescente fazia calor e havia um sopro quente no ar. O rio estava muito liso e nada perturbava a quietude da noite. À primeira hora, a água ondulou levemente porque o veleiro de cinco mastros todos iluminados, iniciou a sua marcha lenta rumo ao mar. Devagarinho, deu a volta ao largo do rio e apontou ao infinito. Segui-o no silêncio e na noite até as luzes se confundirem com as estrelas.