Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010
Dans Le Noir? Uma experiência radical e inesquecível

 

O meu filho voltou de Praga com um dia de atraso porque perdeu o avião. À chegada contou naturalmente muitas coisas mas a que mais o interpelou foi ter ido pela primeira vez na vida a um restaurante da cadeia internacional Dans Le Noir? Para quem conhece o conceito, esta cadeia de restaurantes serve refeições na mais absoluta escuridão e emprega apenas pessoas cegas. Nunca fui a nenhum, mas já escrevi uma crónica há um par de anos (ainda para o Público) a partir do relato da experiência vivida em Paris por uma amiga minha. Desta vez foi o meu filho e percebo que aos 18 anos ir a um restaurante destes seja uma experiência radical, transformadora e inesquecível. Começamos por ter que deixar à entrada todos os objectos e relógios que brilhem no escuro; depois temos que confiar em quem nos guia para a sala; a seguir é preciso habituar os olhos à escuridão total e aos barulhos das outras pessoas presentes no restaurante. Uma vez sentados, há que acreditar no que os olhos não vêm e convocar todos os outros sentidos. No início pode haver momentos muito inquietantes e há quem volte para trás, em busca da luz. Ele diz que não teve essa tentação e nem sequer lhe passou pela cabeça ir à sala de meia penumbra onde os fumadores recuperam uma parte da visão, por assim dizer. O que mais o marcou foi essa escuridão tumular, esse negro total que faz com que se olhe para a vida com outros olhos e se dê ainda mais valor aos que caminham pela vida sem ver a luz do sol. Gostei muito de o ouvir contar a viagem e gostei deste episódio em particular. Faz-nos bem calçar os sapatos dos outros de vez em quando.

publicado por Laurinda Alves às 20:52
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Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
A vista do meu novo escritorio

 

A partir de hoje e ate sexta-feira, este vai ser um dos muitos escritorios que posso usar, a qualquer hora do dia. Este computador nao tem acentos nem cedilhas e, por isso, os posts vao sair com erros. Peco desculpa por isso. Cheguei a Fontainebleau de comboio, num domingo tranquilo e sem chuva. Preferi vir de Paris em cinco comboios (a serio!) do que apanhar um taxi ou vir de autocarro.

 

 

Apanhei comboios de dois andares completamente vazios e gostei de fazer uma viagem em cinco takes. Parecia um filme, as vezes mais urbano, outras vezes mais periferico, outras ainda mais provencal (ai a falta que as cedilhas fazem!). Ao meu lado foram-se sentando jovens casais e pessoas com ar de passeio. Foram cinco momentos de viagem que me fizeram sentir muito livre e me ajudaram a entrar no espirito universitario, digamos assim.

 

 

O horario das aulas vai ser apertado e os dias muito preenchidos e, por isso, nao sei se poderei dar muitas noticias de Fontainebleau. Hoje aproveito uma pausa da manha, enquanto as apresentacoes nao ficam concluidas, mas a partir de agora vou ficar imersa em trabalho. Ainda bem, pois foi para isso que aqui vim. Apetece muito, muito, aproveitar bem esta oportunidade e este tempo de aprendizagem. O lugar nao pode ser mais bonito nem mais inspirador e o grupo parece muito ecletico. Sou a unica potuguesa entre 40 pessoas.

 

 

Eis o terraco de uma das residencias de estudantes dentro do campus universitario. Apetece estar aqui e tudo parece mais bonito e maior do que nas fotografias, acreditem.

Hoje vim pelo caminho com a Kathrin, uma das tres alemas que estao no curso, e encontramo-nos aqui com os austriacos, ingleses e argentinos. Estar entre pessoas de todo o mundo, com vidas e experiencias profissionais tao diversas eh muito enriquecedor. Adoro estar aqui, insisto, e como tambem ja disse vou aproveitar tudo ao maximo. E vou dando noticias, claro. Cada dia tem o seu tema e somos levados a interrogar-nos profundamente sobre as materias em questao. Eh bom estar numa universidade onde ninguem brinca em servico! Ontem ah noite ja tive muita materia para ler e estudar e isso eh muito desafiador e estimulante. E pronto, por agora eh isto. Vou tentar acentuar usando "h", ah maneira antiga, quando escreviamos faxes e telegramas...

 

 

publicado por Laurinda Alves às 10:15
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Sexta-feira, 13 de Novembro de 2009
Uma exposição de fotografia que gostaria de ter visto

 

Transcrevo para aqui o post que Zilda escreveu no seu blog porque fiquei a conhecer a obra do fotógrafo através de um livro esteticamente muito bem cuidado, publicado no início deste ano. Tenho pena de não ter visto agora estas suas fotografias expostas mas parece que algumas estão na edição de Outubro/Novembro da revista BombArt, tenho que procurar.

 

"JORGE CARDOSO tratou fotografias suas de há muitos anos e transformou-as em arte.

Esta é uma de uma série apresentada em Ponte de Lima na Torre da Cadeia Velha no mês de Outubro. É um trabalho invulgar: o suporte da imagem é alumínio texturado, um grande painel, sobre o que estão afixadas com parafusos bem visíveis, a uma certa distância, placas de acrílico com imagens fotográficas geométricas ou não. O conjunto é tridimensional, um tanto sofisticado e propositadamente artesanal.

O painel lembra a fotografia antiga a preto e branco, mas tanto o suporte como o material acrílico a modificam de modo que outras imagens aparecem e se sobrepõem. O que fica são camadas, layers, e lying layers ou seja camadas aparentes, mentirosas. É também  referência à posição reclinada da Lolita no sofá, tal como se vê noutras obras expostas.

Há referências à técnica digital nas letras e nos números. Segundo Jorge Cardoso, letras e números são pistas para decifração de... mistérios, digo eu, existentes por ali, no belo espaço medieval.

As palavras mão não mente sim ou apenas mão não mente com a última palavra fugidia a vermelho alaranjado aparecem pintadas em todas as obras. É a ideia de que a fotografia não é necessariamente a verdade, mas pode ser arte possível de ser reproduzida automaticamente. Poderá falar-se de descontextualização, de ambiguidade e de abstraccionismo? Não sei.

Um elemento interessante da exposição (que não está aqui suficientemente explanada, lamento) é a música e uma voz off que repete certas palavras e dá à sessão um acentuado ar de humor inteligente e conhecedor de novas técnicas e novos conceitos de arte".

Obrigada, Zilda. 

 

publicado por Laurinda Alves às 14:00
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Quinta-feira, 6 de Novembro de 2008
Fotografias de viagens com histórias

 

Aterraram cá em casa embrulhos de plástico com bolhas a

proteger fotografias impressas e ampliadas para uma breve

exposição. O desafio de expor fotografias de amador, tiradas

por um adolescente de 17 anos, partiu de Catarina Flores, a

dona da Trattoria, em Lisboa, que aposta em criar múltiplos

espaços num espaço que começou por ser só restaurante.

 

 

Na semana passada a Trattoria foi palco de um exercício de

pintura de uma tela comum, orientada pelo pintor Diogo Guerra

Pinto que, por acaso, eu tinha entrevistado para o blog alguns

dias antes. A ideia de Catarina Flores é criar acontecimentos à

quarta-feira que envolvam artistas mais ou menos performativos

e que juntem amadores e profissionais num espaço criativo.

 

 

A sala ontem ficou um caos, com fotografias espalhadas no

chão enquanto eram catalogadas e seleccionadas. Só soube

desta exposição há dois dias e achei graça ao facto de tudo

aparecer feito, sem a ajuda de mais ninguém. Como mãe que

aposta em acompanhar de muito perto o crescimento de um

filho, confesso que senti uma consolação enorme ao perceber

que sou cada vez menos precisa e ele cada vez mais autónomo.

  

 

Vi que todas as fotografias escolhidas eram de viagens feitas

ao longos dos últimos anos e reparei que havia lugares onde

algumas coisas marcantes aconteceram. Falo de encontros,

de conversas, de coisas que pertencem à intimidade de uma

família mas também são suficientemente universais para se

perceberem sem ser preciso usar as palavras. Metade destas

viagens foram feitas comigo e a outra metade com o pai, e até

esse equilíbrio teve a sua graça. A exposição foi uma festa e as

fotografias ficam lá até 3ª feira, véspera de uma nova vernissage.

 

publicado por Laurinda Alves às 10:52
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Quinta-feira, 23 de Agosto de 2007
Dans le Noir?
 
Dans le Noir? é o nome de um restaurante muito especial que existe em Paris, onde tudo acontece na mais profunda escuridão. As pessoas que lá vão sabem que é uma experiência radical e, até, inquietante. Vão lá por isso e para isso, aliás. Para experimentar o que é viver durante um par de horas na ausência total de luz.
As trevas foram artificialmente criadas para dar uma ilusão de cegueira e para despertar todos os outros sentidos. A entrada deste restaurante é clara e está naturalmente iluminada mas as pessoas são obrigadas a deixar ali todos os objectos portadores de luz ou brilhos. Telemóveis, relógios, Ipods, tudo fica na recepção até ao fim da refeição.
Os clientes são servidos por cegos e encaminhados por eles para as mesas. A escuridão é gradual, ou seja, não é imediata. Há uma espécie de corredor por onde se avança já na penumbra e só depois se chega a uma sala onde se ouvem vozes mais altas do que o habitual, onde se sente que há gente mas onde não se vê rigorosamente nada nem ninguém.
Os cegos que trabalham no restaurante recebem as pessoas com naturalidade, pegam na mão de um dos que acabaram de chegar, põem-na sobre o seu ombro e aconselham os outros a imitá-los para se dirigirem à sala. E é em fila, de mãos dadas ou pousadas no ombro do que vai à frente, que se chega à mesa.
A primeira ida a este restaurante nunca é fácil porque a cegueira assusta, o escuro faz medo e a ausência de referências visuais provoca uma enorme ansiedade. Chega a ser claustrofóbico e a criar pânico, mesmo. Não sei se há muitas pessoas que repitam a experiência mas a verdade é que este restaurante tem sempre uma lista de espera de pelo menos uma semana. Nunca lá fui e confesso que a tentação não é grande mas tenho amigos que foram e me contaram o que sentiram. De certa forma é fascinante perceber como a cegueira induzida nos pode revelar tanto sobre nós e o mundo à nossa volta.   
Aquilo que porventura é mais marcante para quem vai a este restaurante é ser atendido, conduzido e servido por cegos. Há uma estranheza inicial que decorre da certeza íntima de nunca termos pedido a um cego para nos guiar ou para ser ele a mostrar-nos o caminho. Ali não só precisamos deles como são eles que devolvem a confiança, as certezas e as referências que se perdem por não haver luz.
O facto de não ser possível ver rigorosamente nada obriga a gestos e a expedientes que em circunstâncias normais não seriam usados. Falo do simples acto de pegar no copo de água ou vinho, de beber, de saber onde o pousar e quando deve voltar a ser cheio (usa-se o dedo ligeiramente dentro do copo para verificar o nível do líquido), falo de usar os talheres, cortar os alimentos, usar e voltar a usar o guardanapo, de ir à casa de banho se for preciso, de dar ou não as mãos sobre a mesa, de encontrar outras formas de cumplicidade que não passem pelo olhar, de falar mais ou menos baixo, de sentir a proximidade ou a distância a que estamos de quem nos acompanha mas, também, de quem está ao nosso lado mas não está connosco. Falo da escolha do menu, da confiança em quem serve à mesa, enfim falo disto e de tudo o que acontece habitualmente num restaurante dito normal onde nos vemos e reconhecemos e, por isso, nos esquecemos que há outras realidades radicalmente diferentes da nossa.
 
publicado por Laurinda Alves às 17:39
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