Ainda a pensar na Isabel Mota e em tantas pessoas à minha volta que estão a atravessar tempos difíceis e de grandes sofrimentos, deixo aqui uma oração de que gosto particularmente e serve para crentes e não crentes na medida em que Deus (uma palavra tão difícil para tantos) pode ser subsituido pela palavra Vida. Experimentem.
Pai e filho. Um nasceu em 1924, o outro em 1946; um é filósofo, ensaísta, professor e ex-director do L’Express, o outro é cientista, especialista em Biologia Molecular e ex-investigador no Instituto Pasteur de Paris.
O pai, Jean-François Revel, pertence à Academia Francesa e foi premiado pelo conjunto da sua obra literária; o filho, Mathieu Ricard, abandonou uma carreira brilhante para se converter ao budismo, fez-se monge, tornou-se um dos maiores especialistas mundiais em matéria de espiritualidade tibetana e é há muitos anos o tradutor e acompanhante do Nobel da Paz.
Mathieu Ricard pertence ao círculo íntimo do Dalai Lama, fez incontáveis traduções de escritos tibetanos antigos e é autor de alguns livros de referência sobre o budismo.
Há cerca de dez anos pai e filho decidiram sentar-se juntos em Hatiban, no Nepal, no isolamento de um lugar único erguido no cimo da montanha que domina Katmandu, para uma longa conversa que haveria de ser gravada e depois editada em forma de livro.
Le moine et le philosophe não é um livro recente, portanto. Mas continua actual. Dolorosamente actual, para ser mais exacta. Os factos relativos às perseguições, extermínios e domínios permanecem na ordem do dia e revelam a atitude de impiedosa repressão exercida e mantida pelo governo chinês sobre o povo tibetano.
Ao longo do livro que agora leio com um olhar mais atento por ter acompanhado de perto os ensinamentos do Dalai Lama quando esteve em Lisboa no Verão passado, mas também por ter no meu círculo de amigos alguns budistas, esta realidade do genocídio e de todas as formas de opressão está muito presente e obriga a pensar.
Mas há uma outra realidade, infinitamente mais luminosa e inspiradora, que faz parar aqui e ali, sublinhar o que está escrito e até pousar o livro por breves momentos para conferir mentalmente teorias e práticas.
Não sou budista nem nunca serei mas esta certeza íntima não atrapalha em nada o meu fascínio pela espiritualidade tibetana e muito menos impede a minha adesão incondicional à personalidade e mensagem do Dalai Lama.
Mais, aproveito o facto de ter amigos budistas para perceber alguns mistérios existenciais e aceder a algumas práticas de meditação que, devo dizer, ajudam incrivelmente a calibrar as emoções e a aliviar o peso dos dias. Mesmo não sendo dada à meditação budista no sentido mais profundo e radical desta prática oriental, vou tentando perceber uma ou outra coisa que encaixo e adapto ao meu espírito de cristã que recorrentemente precisa de silêncio, contemplação e oração.
O livro foi-me oferecido pelo Pedro, o meu amigo budista que sabe e percebe que há mais coincidências do que divergências entre quem reza e quem medita. O gesto de me oferecer este e outros livros revela uma delicadeza enorme e uma amizade atenta ao essencial, aliás. Não se trata de uma tentativa de conversão mas antes de uma possibilidade de comunhão em questões fundamentais.
Vasco Pinto Magalhães, o padre jesuíta com quem faço muitos dos meus retiros de silêncio de uma semana, usa as técnicas de respiração e meditação dos budistas para nos ajudar a centrar no essencial. Não sei se os budistas usam ensinamentos cristãos para apurar a sua consciência universal e elevarem o seu patamar espiritual nem isso verdadeiramente me importa.
O encontro de religiões, o ecumenismo dos homens e a atitude de abertura espiritual é que fazem a diferença no mundo. Hans Kung, filósofo alemão contemporâneo de Jean-François Revel, diz que é pela ética que vamos e eu acredito que sim, que a ética é um grande caminho para a humanidade.
Acima deste caminho há um outro que nos pode juntar e aperfeiçoar, que é o do encontro de religiões. Acredito que o altruísmo, a bondade e a sinceridade são as rectas dessa longa e sinuosa estrada e sei que não são exclusivos de nenhuma fé, culto religioso ou prática espiritual. Melhor assim.