Quinta-feira, 31 de Maio de 2007
Escravatura infantil
 
Na esteira da minha indignação por não ver devidamente defendidos os direitos dos mais fracos, não resisto a lembrar que esta noite a SIC passa um documentário que vale a pena ver porque mostra uma realidade igualmente actual, dura e injusta para crianças e menores: a exploração do trabalho infantil.
Noutra latitude e com outra amplitude, esta supremacia dos mais fortes e dos mais poderosos leva milhares de crianças a uma luta desigual e permanente que as obriga a viver em condições infra-humanas.
Vi alguns fragmentos desta grande reportagem feita pelos repórteres da BBC com incrível precisão jornalística, num estilo contido, sóbrio, sem devassas de intimidade nem a exibição gratuita do sofrimento das crianças. Os ingleses filmaram tudo com um sentido estético, e até poético, que comove muito mais do que se o tivessem feito à maneira ‘reality show’ muito em moda.
Esta reportagem é mais um suplemento de consciência (ler: um murro no estômago) sobre a adversidade de certas vidas. Remete-nos fatalmente para outros exemplos e outros testemunhos que não conseguimos esquecer mas que não são assim tão remotos.
Falo, por exemplo, do rapazinho paquistanês que denunciou ao mundo as atrocidades a que muitas crianças eram submetidas diariamente para fazer prosperar o negócio de tapetes. A imagem de um rapaz muito pequeno que se levantou da enorme cadeira, em plena Assembleia Geral das Nações Unidas, para explicar com voz e gestos infantis como é que ele e outros como ele eram obrigados a permanecer de cócoras durante horas a fio, dia após dia, ano após ano, a tecer e entretecer fios e a dar nós nos tapetes é uma imagem que fica gravada para sempre.
O rapazinho disse que o trabalho das crianças era muito procurado por terem mãos pequeninas e por conseguirem dar nós mais perfeitos nos teares. Contou que muitas crianças iam ficando sem dedos e, com o tempo, as suas mãos se transformavam em cotos por darem tantos nós e trabalharem sem descanso. Perante uma assembleia abismada num doloroso silêncio, declarou que as crianças só eram dispensadas do trabalho quando perdiam ambas as mãos. Depois sentou-se e adormeceu.
Passado pouco tempo o rapazinho foi morto mas a sua voz e o seu testemunho continuam vivos.
 
publicado por Laurinda Alves às 20:59
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Ser violado aos treze anos
 
Conheci, há muitos anos, um rapaz que tinha sido violado aos 13 anos. Tinha, na altura, 17 e era um rapaz de olhar esquivo, solitário, muito tenso, cheio de raiva e desejos de vingança.
O pai deste rapaz era um homem de ombros caídos, vergado pelo desgosto e consumido por um ódio cego e surdo. Falava entre dentes, dizia coisas duras, ameaçava o ar com as mãos em punho e tinha gestos agressivos. Lutava contra moinhos de vento, sentia-se sozinho e perdido. Culpado de uma culpa que não era dele.
Moravam os dois numa pequena aldeia perto do mar, num lugar próximo de Lisboa onde todos conheciam a história do rapaz. O violador nunca foi apanhado nem expiou o seu crime e, também por isso, a realidade era mais dura de aceitar.
Voltei a lembrar-me deste rapaz (de quem verdadeiramente nunca me esqueci) por causa do polémico acórdão dado esta semana pelos juízes do Supremo Tribunal de Justiça que, num acto de inconcebível benevolência, decidiram reduzir em um terço a pena do violador de um menor de 13 anos.
Vi, ouvi e li o que todos vimos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar nem é possível aceitar que a atenuante invocada para aliviar a pena do criminoso seja o facto de a vítima ‘já’ ter 13 anos, uma maturidade física muito diferente de uma criança de 5,6 anos e por aí adiante…
Recuso-me a reproduzir mais uma vez os impensáveis argumentos ditos e repetidos para justificar o acórdão porque estes argumentos me enchem de náuseas. Ver, ouvir e ler toda esta história trouxe-me de volta o olhar e o sofrimento, sem nome nem tamanho, do rapaz e do seu pai. Revolta-me a injustiça e repugna-me a ligeireza com que se presume o impresumível.
Pergunto-me se os doutos juízes não têm filhos, sobrinhos ou amigos com filhos de 13 anos? E se têm, como é que conseguem adormecer e acordar em paz? É que eu posso-lhes garantir que nem aquele filho nem aquele pai, nem os outros filhos e os outros pais do mundo inteiro, a quem acontece semelhante tragédia, voltam a ter noites de paz.
 
publicado por Laurinda Alves às 20:57
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