Sábado, 25 de Abril de 2009
A minha última crónica no jornal Público

 

Não gosto particularmente de despedidas mas concedo que,

por vezes, são inevitáveis. Foi o caso, hoje. Despeço-me do

jornal Público com esta última página de crónicas. As Coisas

da Vida acabam por aqui e não volto na próxima sexta-feira nem

nas semanas seguintes. Não volto a escrever no jornal e tenho

pena, claro, mas a escolha não foi minha. Escrevo no Público, o

‘meu’ jornal, há mais de uma década. Comecei aos domingos,

na revista Pública, depois fiz a XIS e agora escrevia as Coisas da

Vida há dois anos. É muito tempo, foi muita vida vivida e partilhada,

e é muito caminho percorrido com o Público. Na semana passada

recebi um sms do José Manuel Fernandes a perguntar quando

podíamos falar. Estava fora de Lisboa e liguei-lhe de volta. Percebi

que havia um embaraço do outro lado da linha e que o que ele tinha

para me anunciar não era fácil de dizer nem de ouvir. Ele insistia em

falarmos pessoalmente mas eu estava sem tempo e com uma agenda

milimetricamente preenchida. A conversa ficaria fatalmente adiada para

demasiado tarde e, por isso, pedi-lhe que me dissesse por telefone. A

muito custo, ele disse. A notícia era a minha dispensa como colunista

do Público já a partir do fim do mês. A razão, disse ele, é a contenção de

custos. Acredito. Não faço ideia se há outros argumentos nem sei se vai

haver mais despedimentos a curto ou médio prazo no Público. Espero

sinceramente que não. Sei que é difícil estar no papel de quem dispensa

colaboradores, de quem faz contas, de quem gere critérios editoriais e de

quem concerta estratégias e políticas. As conversas finais exigem coragem

e, até certo ponto, houve coragem dos dois lados. Depois a vida seguiu, houve

um telefonema muito rápido e algumas perguntas que ficaram sem resposta.

Mais nada. Assim sendo, aqui fica a minha última crónica do Público com

um agradecimento sincero a todos os que fizeram equipa comigo ao longo

destes anos todos. Muito obrigada.

 
As crónicas que gostaria de escrever no jornal
 
A partir de hoje, e nos próximos tempos, as crónicas semanais que
gostaria de escrever no jornal serão publicadas no meu blog, onde
a equipa da Maria João Nogueira, do Sapo.pt, já está a redesenhar
um espaço onde caibam estes textos que escrevo semana após
semana, mês após mês, há anos a fio. A escrita diária num blog é
radicalmente diferente da escrita semanal num jornal e não é apenas
por uma ser mais telegráfica ou a outra mais detalhada. Ambas podem
ser profundas e elaboradas, mesmo quando parecem repentistas ou
mais imediatas. Gosto desta complementaridade da escrita e, por isso
mesmo, vou manter as crónicas semanais no meu blog à sextas. Assim
nem eu perco o ritmo, nem os que me acompanham à semana perdem
o contacto. Boa para mim e para os que gostam de me ler, portanto!
 
Estas e outras Coisas da Vida
 
Curiosamente a semana começou com o lançamento de Coisas da Vida,
o meu novo livro de crónicas com textos do Público e fragmentos do blog,
e acaba agora com o fim desta página. Acho graça à amplitude de estados
de alma que uma coisa e outra provocam em mim e à minha volta. E acho
extraordinária a maneira como a vida se tece. Por um lado, alguém insiste
em perpetuar as Coisas da Vida quando decide publicar mais uma colecção
de crónicas que se destinavam a ser efémeras. Por outro, alguém é obrigado
a suspender a elaboração dessas mesmas crónicas e a dar-lhes um fim
definitivo. Ram Charan, o guru dos maiores CEO de algumas das maiores
empresas do mundo, esteve em Lisboa recentemente e falou da possibilidade
redentora que a estratégia ‘killing projects’ encerra. Tenho a certeza de que está
certo e que, às vezes, é preciso matar coisas antigas para nascerem coisas novas.   
 
publicado por Laurinda Alves às 01:00
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Sábado, 28 de Março de 2009
Carta ao Presidente da Câmara de Viseu

 

(crónica escrita para o jornal Público de ontem)

 

Visitei recentemente o CAT, Centro de Acolhimento Temporário

para bebés e crianças em risco que foram retirados às famílias

por terem sido vítimas de maus-tratos, abusos, negligências ou

abandono, e conheci nesta pequena-grande casa em Viseu uma

equipa extraordinária dirigida por Paula Menezes que me abriu a

porta com uma das crianças ao colo, com a naturalidade que só

as mães têm com os seus filhos. Paula Menezes não teve filhos

mas conhece cada uma das trinta crianças como se fossem suas.

 

 

No dia em que visitei o CAT uma das crianças estava mais chorosa

e como também é uma das mais problemáticas, com uma história

de vida terrível, Paula dedica-lhe mais atenções porque sabe que é

disso mesmo que precisa para se sentir amada e acolhida no sentido

mais profundo e radical do termo. Esta criança tinha pouco mais de dois

anos e foi abandonada pela mãe que, pouco tempo depois, abandonou

um segundo bebé, que também já dorme num dos berços deste berçário.

 

 

 
Conheci a instituição de uma ponta à outra, ouvi as histórias de
algumas crianças e passei tempo com elas. Por razões óbvias,
tudo o que vemos e ouvimos dentro de casa não pode ser contado
cá fora mas posso garantir que foi um CAT que me comoveu muito.
E conheço muitos, há muitos anos... Comoveram-me os bebés que
chegam com marcas, cicatrizes e sinais de desamor (para não falar
em abuso, que é obviamente a palavra mais certa); comoveu-me o
olhar de um deles que está cego e procura incessantemente a luz
com os olhos que não param de mexer; comoveram-me os da sala
dos dois anos todos ordeiramente sentados nas suas cadeirinhas
à mesa prontos para almoçar (um deles tem Trissomia 21, outro é
paraplégico e outro ainda tem uma deficiência mental que parece
ligeira mas pode ser grave); comoveram-me os dos 4 e 5 anos a
dormir nas suas caminhas, uns já acordados no fim da sesta mas
obedientes sem sair da cama antes de alguém os ir chamar e,
finalmente, comoveram-me os dos 6, 7 e 8 anos a brincar na sala
luminosa ao fundo da casa, onde funciona o único recreio do CAT.
 
 
Se sublinho a maneira como toda esta realidade me tocou é
porque, insisto, conheço muitas instituições desta natureza
e com esta vocação, e esta é seguramente uma das mais
familiares de todas. A casa é uma verdadeira casa, cada quarto
foi decorado com simplicidade e muito bom gosto, nos cantos e
recantos há luz e tranquilidade, nas salas há conforto e respira-se
uma atmosfera de intimidade e aconchego. E note-se que falo de
uma casa de família com 30 filhos, alguns deles doentes, outros
deficientes, e todos com um passado marcante, inquietante e, em
casos particulares, trespassado de episódios aterradores que nunca
saberemos ao certo se serão apagados da memória.
 
 
Nas casas das famílias ditas normais não há trinta filhos à mesa,
trinta crianças com menos de 10 anos todas a precisar às mesmas
horas de biberons e papas, de fraldas e banhos individuais, de colo
e mimos ao mesmo tempo. Para nós, que não vivemos esta realidade,
é impensável imaginar a lendária ‘síndrome do fim do dia’ (a hora a que
todas as crianças se tornam birrentas, choram de exaustão ou requerem
mais atenções) numa casa com tantos bebés e crianças.Mas eu, que estive
nesta e noutras casas parecidas, posso assegurar que há muitos choros e
muitos pesadelos mas também muita arte, paciência e carinho para manter
a ordem e a alegria. E essa é, também, a verdadeira surpresa que encontro
neste e noutros CATs. Se falo deste é porque o achei particularmente bonito
e familiar. O único detalhe que magoa no CAT de Viseu é ver que todas estas
crianças são obrigadas a brincar dentro de casa por não poderem aproveitar
o imenso terreno exterior que existe à volta da casa e dava um óptimo recreio!
 
 
Se não fossem dois enormes tanques de pedra que lá estão, cheios
de água, as crianças poderiam brincar livremente por ali. Consciente
de que uma criança se afoga em três minutos e que a equipa do CAT
é pequena e não tem capacidade para vigiar um recreio de 30 miúdos
em corridas e brincadeiras lá fora, com o perigo real dos dois tanques,
Paula Menezes criou alternativas dentro de casa. Mas é pena. Daí esta
minha carta aberta ao Presidente da Câmara de Viseu no sentido de lhe
expor uma situação que se resolve em dois tempos, sem grandes gastos. 
 
 
 
Para que aquelas crianças não tenham que estar sempre a ver a
a rua através da janela e para que possam viver com mais alegria
e liberdade basta esvaziar a água dos tanques e enchê-los de areia
ou de terra. Apenas isto. Será possível, Sr. Presidente? Obrigada.
 
publicado por Laurinda Alves às 10:24
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Sábado, 14 de Março de 2009
Crónicas do Público, ontem

 

deixo aqui hoje o que escrevi para o Público de ontem e veio na sequência da minha ida à cadeis de Tires na segunda-feira passada. Bom sábado!
 
 
O lado de lá e o lado de cá das grades
 
Vou e volto aos estabelecimentos prisionais com alguma regularidade. Convidam-me a estar e a falar com reclusos e reclusas e acho um privilégio sem tamanho poder passar tardes e manhãs com eles em conversas demoradas sobre tudo e nada. Conheço quase todas as cadeias deste país e guardo de cada uma delas a memória de um espaço onde a liberdade física está muito condicionada mas também a certeza de que apesar das grades, dos muros altos, dos portões de ferro e do tamanho das celas, há por ali muita gente com muita liberdade interior.
 
Surpreendem-me as perguntas que me fazem quando tocam matérias mais sensíveis e profundas porque revelam a sensibilidade e a profundidade de quem pergunta. Lembro-me de ter estado em Vale de Judeus, a cadeia onde as penas são mais pesadas (há ali condenações perpétuas) com uma roda de reclusos à minha volta, numa proximidade perturbadora mas não inquietante. Havia guardas na sala, como é evidente, e senti-me naturalmente protegida mas na verdade aquilo que me tranquilizou foi a simplicidade com que homens mais velhos e mais novos falavam sobre o sentido da vida.
 
Estes homens cumprem penas de mais de vinte anos e alguns, insisto, jamais voltarão a sair dali e a ver o mundo, mas uns e outros falavam com essa tal liberdade interior que interpela e obriga a pensar.
 
Nem todos falaram. Houve os que se mantiveram calados do princípio ao fim, sentados nas últimas filas de cadeiras. Alguns tinham a cara fechada e o olhar duro mas estavam ali a ouvir e ninguém os obrigava a estar. Também o silêncio deles me marcou e por incrível que pareça, não esqueci as suas caras nem o seu olhar.
 
Nunca pergunto a um recluso porque é que está na cadeia. Não me passa pela cabeça fazê-lo porque não me cabe a mim julgar e, muito menos, condenar. Os que ali vão parar já foram julgados e condenados e já estão a cumprir a sua pena. Melhor ou pior, já estão a dar passos no sentido de recuperar parte daquilo que todos perdemos por cada crime que cometeram. Jamais conseguirão devolver a vida aos que mataram e talvez não consigam reparar nunca os danos dos que roubaram ou ofenderam, mas quem sabe se não vão a tempo de resgatar a sua própria vida e de recomeçar mais à frente. Mesmo em Vale de Judeus, de onde muitos não voltarão a sair, é possível recomeçar. É extraordinariamente duro e difícil, admito, mas não é impossível.
 
Percebi ali e noutras cadeias, em conversas que jamais esquecerei, que não há mérito nenhum em ter nascido deste lado da vida. Do lado dos que não matam, não traficam, não escravizam nem roubam, quero dizer. Há apenas sorte e um cúmulo de oportunidades. Do outro lado, pelo contrário, há uma sucessão de azares e um crescendo de revoltas. É quase sempre assim e salvo excepções mais ou menos raras, mais ou menos patológicas, fere quem está ferido, magoa quem foi magoado, rouba e mata quem sente que a vida também lhe foi roubada.
 
 
As mulheres de Tires
 
Vem tudo isto a propósito da minha ida a Tires esta semana. Tratava-se de celebrar o Dia da Mulher na cadeia e fui a pedido de um conjunto de professoras e reclusas que frequentam o Curso de Eventos neste Estabelecimento Prisional. Estava um dia de céu azul, limpo, e sol luminoso, um destes dias que anunciam a Primavera e apetece viver intensamente.
 
Passei o primeiro portão de ferro da entrada e fui pelo caminho de asfalto até ao pavilhão do fundo acompanhada pelas professoras que me iam mostrando os lugares e explicando a natureza e função de cada pavilhão. À minha direita a célebre creche-escola para os filhos das reclusas (neste momento é frequentado por 22 crianças), à minha esquerda a casa das que vivem num regime semi-aberto, mais à frente a casa onde se juntam as famílias de mulheres que se cruzam na prisão a cumprir penas ao mesmo tempo (desta vez conheci uma mãe e uma filha mas há sempre por ali mães, filhas, avós, netas, primas, tias e mulheres ligadas por laços de família), do outro lado um edifício antigo que já não me lembro para que serve nem quem acolhe e ao fundo, muito ao fundo, um pavilhão onde há homens que cumprem penas específicas que agora também não recordo porque no momento aquilo que mais prendeu a minha atenção foi a creche-escola e a tal casa das mulheres que vivem em família.
 
Absorvi as explicações que me iam dando à medida que íamos caminhando em frente debaixo daquele sol luminoso, sempre com as interrogações de fundo que tenho nas alturas em que estou do lado de lá das grades. Ouvi em silêncio e com a naturalidade possível o que me contavam sobre as reclusas mas o eco que estas conversas têm em mim enche-me fatalmente de tristeza e de pensamentos impossíveis de gerir no momento.
 
Para não entrar na sala de lágrimas nos olhos invento perguntas banais e mantenho a conversa a um nível aceitável. Acontece-me o mesmo quando visito centros de acolhimento de crianças maltratadas e também me acontece chorar por dentro quando saio da Unidade de Cuidados Paliativos onde faço voluntariado, e onde o sofrimento dos doentes e das suas famílias me interpela e toca em fibras mais sensíveis.
 
Na sala havia uma roda enorme de cadeiras dispostas em três ou quatro filas e uma mesa de frente para elas com uma cadeira onde eu deveria ficar sentada. As reclusas entram depois de mim e ficam de pé. Sentamo-nos todas mas, logo a seguir eu levanto-me porque gosto de ver os olhos das pessoas com quem falo. E peço-lhes que se apresentem, que digam o nome e a idade e se têm filhos. E elas dizem e eu fixo-as uma por uma e guardo o nome de cada uma. Depois, falamos sobre mil e um temas, elas fazem perguntas e eu respondo. Rimos de coisa nenhuma mas também somos capazes de ficar em silêncio porque alguém disse alguma coisa que nos faz pensar ou ficar a remoer.
 
Acabamos sempre aos abraços e esta certeza de nos podermos abraçar e de nos podermos tratar pelo nome próprio enche-nos de outras certezas.
 
Maria Irene
 
No meio do grupo de reclusas de Tires havia uma que já tinha conhecido em Leiria, numa outra visita recente. Há cerca de um ano fui lá para um encontro semelhante ao desta semana e a conversa foi igualmente calorosa e marcante. Maria Irene ou apenas Irene para quem a conhece bem, estava lá e foi das que mais falou. Gosta de escrever e de ler e, na altura, falámos de livros, leituras e escritas.
 
O grupo de Leiria era um grupo de ‘preventivas’ e, por isso, ao fim de algum tempo cada uma destas mulheres é julgada e mandada em liberdade ou condenada e enviada para outro estabelecimento prisional. Irene veio parar a Tires e eu não estava à espera de a encontrar mas quando nos vimos foi um verdadeiro reencontro. Uma surpresa feliz se é que assim posso falar, dada a infelicidade das circunstâncias que a fazem estar ali.
 
Demos um longo abraço e pusemos a conversa em dia. Perguntei-lhe pelas outras reclusas, pela Delmina, pela outra Laurinda, pelas irmãs de etnia cigana, por todas as que estiveram presentes na tarde de chuva diluviana em Leiria. E ela respondeu e esclareceu que uma estava ali outra acolá e disse-me inclusivamente que a carta da Delmina que eu recebi depois da minha visita, tinha sido escrita pela sua própria mão, pois a Delmina tem dificuldades em escrever.
 
No fim da tarde de conversa em Tires, Irene ofereceu-me um presente. Um texto escrito ali por ela e lido em alto perante a plateia de mulheres com quem passei a tarde. O texto comoveu-me e o gesto também. Irene leu devagar, com voz alegre e sincera mas também comovida. Agradeci sem palavras porque as palavras de Irene calaram muito fundo.
 
“Muito obrigada por nos ter trazido histórias de vida, de luta e de coragem e, com muito carinho, nos fazer sentir que somos Mulheres privadas de liberdade, mas com dignidade, valores e ambições. Deixou-nos a todas uma lufada de ar fresco, um recarregar de baterias para seguirmos em frente e…mostrarmos à sociedade que somos mulheres dignas e de coragem.” Obrigada, eu, Irene!            
publicado por Laurinda Alves às 12:41
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Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009
Maravilha, hoje só tive boas notícias!

 

Hoje excepcionalmente republiquei a minha crónica do Público

de sexta-feira passada apenas no blog Crónicas de Campanha

por ter conhecido o António e o seu grupo na minha ida ao Minho

em campanha pelo MEP. A história do António comoveu-me pela

adversidade mas, acima de tudo, pelo testemunho de dignidade

que ele e os que estão à sua volta dão. Agora importo para aqui

também esta crónica porque acabei de receber um telefonema

do irmão do António a dizer-me que tinha sido contactado pelo

deputado João Rebelo, vice presidente da Comissão de Defesa,

no sentido de apurar os factos e dar sequência ao processo que

está suspenso há 5 anos. "Só" por isto já valeu a pena ter ido ao

Minho e que me perdoem os mais cépticos, também já valeu a

pena ter dito sim ao MEP, ser candidata ao PE e fazer campanha.  

O António é o que usa óculos e está sentado. Tem uma cabeça 

brilhante e uma memória prodigiosa. E uma alegria contagiante! 

 

A (até agora) triste história de António Garcia

 

António Garcia, 33 anos, 2º Sargento Paraquedista com uma folha de serviço irrepreensível e missões cumpridas na Bósnia e em Timor de onde voltou com louvores, regressou à base de S.Jacinto, em Aveiro, onde prosseguiu a sua carreira até à data de 26 de Novembro de 2002, dia em que se sentiu mal logo pela manhã. Como estava de serviço permaneceu firme no seu posto até ao hastear da bandeira e só depois pegou na bicicleta para se ir queixar ao oficial de dia de tremuras numa perna e visão desfocada. Nem os tremores nem o olhar turvo o impediram de cumprir as suas obrigações matinais mas uma vez chegado ao gabinete do oficial de dia era mais que evidente que já estava em grande sofrimento. Sem hesitações o superior mandou chamar uma ambulância e António Garcia foi internado com um diagnóstico de aneurisma e um prognóstico reservado.
 
Durante o mês de Novembro e Dezembro a situação clínica de António era de tal maneira grave e delicada que os médicos hesitaram na decisão de o operar. Sabiam que António corria perigo de vida e tudo indicava que podia não sobreviver à intervenção cirúrgica. Depois desta longa ponderação, António foi operado no dia 8 de Janeiro de 2003 no hospital de Sto António, no Porto, onde permaneceu em coma durante algumas semanas.
 
Cinco dias antes de ser operado o pai de António morreu e a mãe ficou viúva com dois filhos, um deles entre a vida e a morte. Abreviando a história, António sobreviveu à operação e regressou à vida com sequelas físicas muito graves e uma incapacidade na ordem dos 93%. Intelectualmente não foi afectado e continua a ter o mesmo espírito brilhante e a mesma memória prodigiosa que sempre teve mas fisicamente está muito limitado.
 
Desloca-se em cadeira de rodas, precisa de adaptações permanentes para viver uma vida razoavelmente integrada e tem graves dificuldades na expressão verbal. Embora fale mais devagar, percebe-se tudo o que diz mas é muito evidente a limitação na comunicação.
Conheci o António Garcia no fim-de-semana passado em Guimarães, numa visita à CERCIGUI, no centro de reabilitação e formação profissional onde ele e muitos outros frequentam cursos que lhes permitem tentar uma integração no futuro próximo.
 
O António chama a atenção pelo espírito vivo, pela inteligência dos seus comentários, pela alegria do sorriso mas, também, pela imensa tristeza no olhar que contrasta com a atitude aparentemente positiva e descontraída. Os olhos do António gritam no silêncio e não percebi logo porquê. Sentei-me ao seu lado para conversarmos e ele contou-me a história que agora conto e que infelizmente tem contornos muito feios que envergonham fatalmente todos os responsáveis militares e civis que até hoje se recusaram a prestar qualquer apoio ou a dar qualquer informação ao António.
 
Por incrível que pareça, nestes 6 anos que se seguiram ao episódio do aneurisma que, sublinho e insisto, aconteceu quando António estava de serviço no seu posto, na Base Militar de São Jacinto, em Aveiro, ninguém deu um passo para saber o que era preciso fazer e, muito menos, para dizer como o António Garcia e a sua família poderiam ser ajudados, apoiados ou encaminhados. Pior, nem as cartas escritas ao Chefe do Estado Maior do Exército, nem os pedidos de informação feitos à própria hierarquia da Base de S.Jacinto, nem a exposição dirigida ao Ministro da Defesa nem a carta escrita ao presidente da república tiveram outro eco para além de uma nota oficial de que tinham sido recebidas. Mais nada.
 
A mim, que só o conheci há uma semana, choca-me esta realidade e tira-me o sono saber que há quem acorde e adormeça todos os dias sem cumprir o seu dever perante um militar que cumpriu escrupulosamente o seu. António Garcia prestou serviços à nação com louvores e mérito, tem uma folha impecável onde constam 63 saltos e um acidente que lhe provocou um traumatismo craniano (um acidente de trabalho, note-se!) e apesar de estar ao serviço da Instituição Militar no dia em que ocorreu o episódio do aneurisma que o atirou para uma cadeira de rodas e o deixou gravemente incapacitado, não recebe um cêntimo do Estado nem o mais vago apoio das Forças Armadas. Bonito serviço!
 
A mim choca-me e envergonha-me esta triste história e como não acredito que seja só a mim, deixo aqui o telemóvel do irmão de António, que se chama Ricardo, é polícia e trabalha incessantemente para sustentar o irmão, para o caso de alguém querer e poder dar as respostas a tantas perguntas que continuam sem resposta. As tais de que falo no texto anterior. Não se trata de angariar fundos nem de dar dinheiro, mas sim de responsabilizar quem é responsável. Só isso. Aqui fica o número: 960479793.
publicado por Laurinda Alves às 18:03
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Sábado, 7 de Fevereiro de 2009
Crónicas do Público à sexta

Morrem jovens os que os deuses amam?

 
“Coordenava os meus pensamentos: Antínoo estava morto. (…) Lembrava-me dos lugares-comuns frequentemente ouvidos: em todas as idades se morre; os que morrem jovens são amados pelos deuses. Eu próprio participara nesse infame abuso de palavras; falara em morrer de sono, morrer de aborrecimento. Empregara a palavra agonia, a palavra luto, a palavra perda. Antínoo estava morto”.
 
As memórias de Adriano, o Imperador romano, fazem um eco especial nos dias de sol e chuva no cemitério em que caminhamos devagar, ombros vergados e olhos no chão. Nestes dias percorremos às cegas os labirintos de pedra e as estranhas alamedas de árvores sombrias que escurecem o horizonte e têm raízes atormentadas.O frio que fica depois dos enterros demora a desaparecer. Parece um casaco pesado, gelado, que se cola à pele e não se consegue despir.
 
Vamos e voltamos pelas alamedas mas também por caminhos rectos desenhados na terra rasa de campas e pisamos tudo com extremo cuidado, num silêncio grave e cerimonioso de quem não quer despertar sequer a borboleta que pousou na pedra branca com inscrições douradas e a fotografia antiga de uma cara nova que prende a atenção por ser mais alguém que morreu cedo demais.
 
Não há palavras para exprimir a dor dos pais que enterram os seus filhos. Não sabemos nem saberemos nunca porque é que uns vão primeiro que os outros e custa permanecer de pé naquele silêncio chorado, naquele lugar sagrado onde depositam o seu corpo frio e se despedem com gestos contidos.
 
Dói ver um pai e uma mãe muito quietos, parados em frente daquela que é a última morada dos seus filhos neste mundo, a despedirem-se deles num silêncio demorado, cheio, repleto de memórias e imagens que o tempo não apaga. Esse tempo demorado da despedida deixa-nos a todos suspensos sem saber o que fazer nem o que dizer. Baixamos os olhos, limpamos as lágrimas, olhamos para o céu, guardamos todas as perguntas sabendo que jamais saberemos as respostas.
 
E permanecemos de pé, uns passos atrás, para não devassar a intimidade do último abraço de um pai ao seu filho. De uma mãe ao seu bebé. E depois voltamos pelo mesmo caminho que percorremos e sentimos que embora os ombros nos pesem e os passos nos custem, há uma luz que nos guia e um brilho que nos conduz. E é nessa estrela que acreditamos.   
 
 
As cores das flores
 
Há no chão de madeira um rasto de pétalas de flores que foram pisadas mas ainda não varridas porque os homens de fato escuro e gestos solenes continuam a arrumar as coroas, os ramos e as braçadas de flores de todas as cores que a família e os amigos oferecem sempre a quem parte. Os homens não fazem barulho, têm sapatos leves e gestos delicados. Fazem o seu trabalho com a perfeição que se espera e quase nem damos por eles. Levam tudo para um carro de vidros muito grandes e não trocam palavras entre si, apenas olhares e acenos ligeiros. O único som que fica no ar é o do celofane que envolve as flores. E é essa transparência luminosa e quase musical que acompanha as orações dos que rezam sem palavras ditas e dos que ficam para trás por não saberem para onde ir nem como recomeçar.
 
publicado por Laurinda Alves às 10:42
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Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009
Coisas da vida de hoje no Público

Publicar aqui as crónicas que escrevo às sextas no jornal Público já é um clássico. Aqui ficam as de hoje, já a mais de meio da tarde. Habitualmente os temas do Público não cruzam os do blog, para evitar redundâncias ou para não escrever 'mais do mesmo' mas esta semana foi impossível não ir falando aqui destes dois temas e porque desta vez as histórias são familiares aos leitores do blog, publico hoje as crónicas de hoje. Aqui ficam, enquanto eu ando entre Coimbra e Leiria a defender outras causas em que acredito. 

 
Um grito de raiva!
 
Na semana passada escrevi aqui sobre dois cegos que vi uma vez no Metro e hoje retomo o tema porque por coincidência (ou não) no próprio dia em que a crónica foi publicada voltei a vê-los. Estavam na plataforma oposta à minha e fui ter com eles pelo túnel para lhes dizer que me tinham inspirado um dos textos desse dia.
 
Apresentei-me e eles fizeram o mesmo. Um chama-se Paulo e outro Pedro, quiseram saber em que jornal e porquê. Abreviando um encontro breve mas marcante, expliquei-lhes que me prendeu a alegria e a cumplicidade entre os dois e a falta de pressa com que caminhavam entre a multidão apressada. Não por serem cegos mas por terem outro tempo interior, acho eu.
 
Eles gostaram da ideia de se verem retratados, ainda que de forma breve e partindo apenas de uma cena aparentemente sem história, e decoraram o meu mail para me dizerem depois o que tinham achado. Disseram-me que iam pedir a alguém que lhes lesse o texto e assim fizeram.
 
Mais tarde recebi alguns mails do Paulo e pedi-lhe autorização para os usar. Ele começou por justificar que me trata por tu porque não lhe dá jeito de outra maneira e disse que os podia usar até porque a substância dos mails é um grito de alerta e um pedido de socorro. Aqui ficam dois fragmentos desses mails tão eloquentes da cegueira geral: 
 
“A maior parte dos cegos em Portugal passa fome. Algumas cegas já se prostituem para alimentar os filhos. Muitos estão na mendicidade. Isso tem que acabar. Pessoas como tu podem ajudar informando que existem problemas. Muitos cegos têm não só problemas visuais mas do foro neurológico, ortopédico, etc. A sociedade pensa que a ACAPO pode ajudar mas a associação está na miséria, nem dinheiro tem para pagar aos funcionários quase.
 
Precisamos tirar a mendicidade das ruas e do metro. Existe uma petição liderada pelo doutor Mário Garrote de Coimbra, para pedir a lotaria para os cegos. Por favor eu peço socorro em nome de todos os cegos de Portugal que passam fome. Porque eu costumo dizer, ser cego não é defeito a sociedade é que nos faz passar pelo canal estreito.
 
 
Somos seres humanos temos sangue nas veias, temos alma, temos sentimentos, também choramos e sorrimos, amamos e odiamos. Temos fé. Enfim minha amiga somos seres humanos mas seres humanos sofridos”(…)
 
“Um pensionista cego em Portugal ganha em média cerca de 200 euros e tem quase sempre medicação para pagar. Roupa, luz, água, gás. Também existe quem coma comida por cozinhar.Cegos que comem uma refeição por dia. Vou confessar uma coisa cara amiga eu passo fome. Evito tomar medicação que me faz falta. Anti-depressivos e medicação para dormir.
 
 
Eu tenho tendência para me suicidar. Pois não tenho dinheiro para comer nem para os anti-depressivos quem me paga a net é um amigo. Mas não pode ajudar em tudo. Qualquer dia apareço morto Laurinda. Como só à noite e chega. A segurança social só tem dinheiro para os ciganos. Tenho esperanças que um dia venhamos a ter o subsídio de cegueira que a União Europeia deu e Portugal recusou.
 
 
E insisto: Portugal não quer dar a lotaria para os cegos! E a única cidade que tem os transportes gratuitos para os cegos é a cidade de Braga. Porque não existe em todo o país? Pronto aí está não só eu mas muitos Paulos e Paulas deste país que não têm culpa de serem cegos. E pedem esmola sem terem feitio para isso.
 
Eu nasci para amar e ser amado. Mereço dar e receber. Portanto sou um cidadão como outro qualquer, mereço respeito. Por isso peço a tua ajuda e se for possível passa esta mensagem aos teus colegas para que eles se tiverem consideração pela raça humana a espalhem e com o título: um grito de raiva! Eu também sou gente!
 
 
Licença para guiar
 
Quarta-feira, dia de chuva e nuvens cinzentas, pesadas. Dia de acordar cedo para chegarmos a horas à Escola de Avelar, onde centenas de alunos esperam pacientemente a chegada de um convidado especial. Salvador Mendes de Almeida, presidente da Associação Salvador, aceitou o desafio de Lurdes Cotovio, professora atenta às grandes causas, para ir a esta escola falar da sua experiência de vida depois do acidente de mota que o deixou tetraplégico aos 16 anos.
 
Salvador fundou a Associação com o objectivo de tornar Portugal um país acessível às pessoas portadoras de deficiência ou com dificuldades de locomoção e, ao mesmo tempo, sensibilizar a sociedade para os perigos na estrada. Nesta lógica programou uma série de acções em escolas onde há alunos em idades próximas de terem licença para guiar.
 
As ‘aulas’ que Salvador dá nas escolas marcam os alunos para sempre. É impossível esquecer as coisas que ele diz, os filmes que mostra e a verdade com que fala sobre tudo a todos. Não há temas tabu para o Salvador nem há assuntos proibidos. Se os adolescentes querem falar sobre namoradas, sobre sexualidade, sobre o que ele pensa sobre a vida ou saber exactamente o que sentiu depois do acidente, se chorou, se ficou revoltado ou se teve medo de morrer, ele responde e conta com detalhes expressivos tudo aquilo por que passou imediatamente a seguir e, também, nestes últimos 10 anos como tetraplégico.
 
Salvador vive a dar testemunho e a falar de um acontecimento dramático que mudou radicalmente a sua vida mas por incrível que pareça fala sempre de tudo como se fosse a primeira vez. Eu própria, que o conheço e acompanho, comovo-me invariavelmente com as suas palavras. Os alunos, os professores e os pais presentes nestas sessões ficam igualmente suspensos do seu testemunho e da sua atitude, sempre tão extraordinários e transformadores. Salvador é, na verdade, uma luz no mundo. Tudo fica incrivelmente mais definido e luminoso à sua passagem e nem sequer sei se ele se dá conta deste efeito iluminante, por assim dizer.
 
Salvador teve um impacto brutal nos 250 alunos da Escola de Avelar que assistiram à sessão dentro do ginásio. Mostrou filmes que valem por mil palavras, enunciou estatísticas e perguntou quem, entre eles, tinha menos de 16 anos. Mais de metade pôs o dedo no ar e Salvador, com um sorriso, disse:
 
- Com a vossa idade eu também era como vocês. Jogava futebol, ia à praia, corria, andava, vestia-me sozinho, estudava, começava a sair à noite, já tinha namoradas e a vida corria-me bem. Gostava de andar de mota e achava que os acidentes só aconteciam aos outros. Numa noite de Verão, no Algarve quando estava de férias, adormeci ao volante quando voltava de uma discoteca. Tinha bebido uns copos e estava cansado. Não me lembro do acidente nem recordo bem os primeiros dois meses mas depois percebi que tinha ficado tetraplégico e na noite em que o médico me disse que ia ficar numa cadeira de rodas para sempre chorei. Foi a pior noite da minha vida.
 

Os alunos ouvem estas e outras palavras de Salvador sem se mexerem nas cadeiras. Apesar de o ginásio estar a transbordar de adolescentes de várias turmas e idades, não há um único barulho. Apenas o silêncio e a chuva lá fora.

 

publicado por Laurinda Alves às 18:00
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Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009
E finalmente a entrevista de Jorge Colombo

 

 

Aqui fica, finalmente a pequena entrevista que fiz a Jorge Colombo na semana passada, na noite da inauguração da sua exposição Lisboa Revisitada. Deixo também as crónicas do Público de sexta, que começam justamente por um texto sobre o Jorge e esta exposição. O outro blog está em fase de acabamentos...

 

Crónicas do Público

 

Na semana passada escrevi um post scriptum sobre Jorge Colombo a propósito da iniciativa Urban Sketchers e esta semana dei comigo a reparar nesta espécie de convocação cósmica que de alguma forma o trouxe a Lisboa uma semana antes de ele próprio chegar para a inauguração da sua exposição de fotografias na Casa Fernando Pessoa.
 
Jorge Colombo é um artista versátil e performativo que nunca deixa de surpreender, seja quando desenha, quando escreve, quando filma ou quando fotografa. Conheço bem a sua obra nestes quatro modos e assumo a minha devoção pela sua arte. Gosto da impressão digital que Colombo deixa em tudo o que faz e da diferença que marca num mundo cheio de artistas mais ou menos talentosos.
 
Conheço o Jorge há quase trinta anos (meu Deus!) e acompanho o seu percurso desde que nos tornámos amigos. Em Lisboa, no jornal Independente onde trabalhamos juntos, em Chicago onde fui ‘morar’ uns tempos em sua casa, ou depois em N.Y onde ainda este ano passeámos juntos pelas avenidas e jardins, existe sempre entre nós a proximidade real dos amigos antigos para quem o tempo, a ausência física ou a distância geográfica jamais se traduzirão por perdas. Muito pelo contrário.
 
Jorge Colombo veio a Lisboa inaugurar a exposição Lisboa Revisitada, 52 fotografias inspiradas em poemas de Álvaro de Campos e vale a pena passar por lá e rever esta cidade pelo olhar de Colombo, inspirado na poesia de um dos heterónimos de Pessoa (www.jorgecolombo.com/lisboarevisitada)
 
Quem lê o quê
 
Nestes tempos em que nos oferecem um jornal em cada esquina e nos estendem o braço para dentro dos carros, e até dos táxis, para deixar umas folhas impressas com as últimas do dia ou da semana, confesso que sou das que recusam educadamente as ofertas e continuam a ir à banca dos jornais comprar aquilo que me interessa.
 
Fiel ao Público (e não apenas por ser colaboradora, note-se!), a alguns semanários e revistas nacionais e estrangeiros, prefiro ler segundo os meus critérios do que seguir os dos outros. Não que os meus sejam melhores que os deles mas simplesmente porque são os meus.
 
Nesta lógica sigo a actualidade através dos jornais e telejornais que escolho e não pelos que me escolhem. Gosto mais assim. E dou-me bem com o sistema. Prefiro duas boas páginas com textos factuais e analíticos sobre os acontecimentos e protagonistas do momento do que o condensado de notícias avulsas e tantas vezes acríticas que abundam na maior parte dos gratuitos.
 
Não tenho nada contra esta versão de jornais e jornalistas que escrevem pequenos textos anónimos, simplesmente pertenço a uma geração que gosta de ler o que está escrito e saber quem o escreveu. E gosto de editoriais, crónicas e polémicas assinadas com aquela assinatura que sublinha o que fica escrito. Sei que corro o risco de parecer que sou contra os gratuitos mas não sou. Sou é radicalmente a favor dos jornais pagos e do jornalismo com cara e nome próprio.Embora haja muitos nomes e caras que admiro e respeito nos gratuitos continuo a preferir os que são pagos. Manias.
 
O sono, os sonhos e outras felicidades
 
O sono e os sonhos são temas recorrentes de conversas entre quem se conhece mas também entre quem se desconhece. É curioso ver como um e outros prendem a atenção das pessoas em lugares públicos. Nas filas para chegar aos guichets das repartições, nas salas de espera de consultórios e no Metro ouço fragmentos de conversas sobre o sono e os sonhos.
 
Fascina-me a matéria mas ainda mais a facilidade com que se estabelece um diálogo a partir destas duas palavrinhas mágicas. Prefiro os sonhos mas raramente encontro quem os saiba decifrar e por isso acabo por me deter mais no sono. Ou nas insónias, que é um sub-tema que acaba sempre por minar as conversas e desvalorizar o tema principal.
 
Antigamente as pessoas falavam com naturalidade do estado do tempo e a amplitude meteorológica parecia ser o assunto que mais as apaixonava nas conversas de ocasião. Agora não. Os sonhos e a tal decifração cósmica vão muito à frente. Ainda bem, prefiro explorar a substância desta sub-existência do que divagar sobre o nevoeiro da manhã e a chuva da tarde.
 
A propósito desta sucessão extraordinária de conversas a que tenho assistido sobre estas e outras felicidades, deixo aqui os pensamentos de Adriano sobre o mistério específico do sonho. Já que não posso entender todos os sonhos da humanidade, gosto de aceder aos pensamentos dos homens. De alguns homens.
 
“O que me interessa é o inevitável mergulho a que se aventura todas as noites o homem nu, sozinho e desarmado, num oceano onde tudo muda, as cores, as densidades, o próprio ritmo da respiração, e onde encontramos os mortos. O que nos tranquiliza no sono é que se sai dele, e que se sai sem qualquer mudança, pois que uma extravagante interdição nos impede de trazer connosco o resíduo exacto dos nossos sonhos. O que nos tranquiliza também é que ele cura a fadiga, mas cura-nos, temporariamente, pelo mais radical dos processos, arranjando as coisas de maneira que deixamos de existir.” (in Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar).
 
Green Gym
 
A Green Gym é uma ideia verde, fresca e musculada, inventada pelos ingleses há dez anos que começa a ter cada vez mais adeptos. Concebida pela British Trust for Conservation Volunteers, uma organização de preservação da natureza cujo site é www2.btcv.org.uk/display/greengym, esta forma de ginástica ao ar livre é, ao mesmo tempo, uma forma de voluntariado e contributo social.
A Green Gym aposta nas pessoas que querem manter-se em forma mas detestam ginásios, máquinas e fatos de lycra. “You could be helping the environment as well as yourself!”, é um dos lemas desta organização que sabe que a esmagadora maioria das pessoas deveria fazer mais exercício físico e passar mais tempo ao ar livre.
Especialistas em ambiente, jardins e espaços verdes treinados em modelos de ginástica muito completos orientam os voluntários da British Trust for Conservation e estabelecem esquemas de trabalho físico e ‘agrícola’ por assim dizer. A jardinagem é cientificamente feita a pensar nos movimentos de aquecimento, de alongamento, de treino cardiovascular e de relaxamento. Parece impossível? Parece, pelo menos estranho mas a verdade é que funciona.
Os parques ingleses supervisionados por esta instituição estão impecavelmente cuidados e os voluntários incrivelmente em forma. As sessões duram 3h e qualquer pessoa se pode inscrever desde que não tenha alergias a plantas. Gira, a criatividade destes ingleses.     
  
publicado por Laurinda Alves às 13:23
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Sábado, 27 de Dezembro de 2008
Crónicas do Público de sexta-feira

 

Coração africano I
 
A sala parece demasiado pequena para uma mesa tão comprida mas era preciso sentar mais de vinte pessoas naquela noite e alguém fez o improviso de ir acrescentando mesas e cadeiras para cabermos todos. As janelas e as portas estão abertas porque está muito calor e de vez em quando sente-se um vento quente a entrar, um sopro que se eleva no ar e se espalha em todas as direcções, empurrado pelas pás de uma ventoinha que roda devagar.
 
As pessoas vão entrando e escolhendo o seu lugar. Uns conhecem-se, outros não. Em frente ao restaurante existe um largo de pedra antiga recém-lavada, muito branca quase imaculada. O largo é grande, imponente, com fonte e escadarias, árvores alinhadas aos lados e bancos da mesma pedra dos muros. Das janelas abertas vemos a pedra iluminada pela esteira luminescente da lua cheia e as copas dos ciprestes mais altos projectam sombras oblíquas no passeio.
 
A sala é muito pequena mas o largo em frente torna-a grande, quase desmedida. Quando todos estamos sentados alguém sugere que cada um se apresente de pé e é assim que um por um, todos dizemos de nós. Mais de vinte pessoas numa mesa de empreendedores sociais que cruzam ideias e caminhos, que trocam contactos e tecem laços, que apostam em mais uma rede de agentes de transformação social. Cada um diz o essencial e todos ficamos a perceber melhor as razões que nos juntaram ali.
 
Há quem tenha dirigido uma escola de ciganos; há quem dê aulas no perímetro mais adverso da Quinta da Fonte e apesar da adversidade consiga mobilizar alunos rebeldes para causas solidárias; há quem dirija institutos de inovação e criatividade; há quem tenha posto de pé ONGs; há quem crie empresas com o objectivo de apoiar projectos de desenvolvimento e sustentabilidade; há quem se dedique a potenciar os talentos dos outros; enfim há uma variedade notável de gente para quem o lucro se mede mais pela quantidade de riqueza social e humana que são capazes de gerar e menos pelo dinheiro que conseguem ganhar ou acumular, e isso é o que mais impressiona nesta rede de empreendedores sociais que está a cumprir meio ano de existência mas começou ali, naquela noite de calor e lua cheia.
 
No fim, quando quase todos se tinham apresentado e faltava apenas um, eis que se levanta o mais novo de todos e dá um passo atrás para poder falar olhos nos olhos com todos. Sem pressas e com aquela cerimónia natural mas rara dos grandes quando se fazem pequenos, começou a sua apresentação. Primeiro o nome e depois o país de origem.
 
- Venho da Guiné. Casado? Não sou. Filhos? Não tenho. Curso? Estou a completar. Experiência? Vou contar.
E contou. E encantou-nos a todos com aquela sua maneira de enunciar uma vida, começando primeiro pelo conceito e depois desfiando tudo com preceito. E foi naquela sua voz pausada, meio cantada, que revelou o seu coração africano.
 
 
 
 
 
Coração africano II
 
E agora que escrevo sobre o rapaz guineense lembro-me de outro homem que conheci há muitos anos numa praia remota de Zanzibar, e veio ter comigo pela mão de um amigo. Vinham os dois de mãos dadas pela areia, com os braços a balançar para a frente e para trás como fazem naquela ilha os homens que são muito homens. Vestidos com longas túnicas azuis de uma costura só, caminhavam descalços e sem pressas.
 
Conversavam e riam sem desfazer o nó das mãos entrelaçadas que prende o olhar ocidental e fere todo o nosso preconceito. Rasga e desfaz, para ser mais exacta.
Pararam a um passo de distância e cumprimentaram-me com um aceno largo e um sorriso contido permanecendo de mãos dadas. As mulheres ali têm uma importância diferente da que têm as mulheres aqui e os homens nem sempre sabem por onde começar. Preferiram esperar e o silêncio deles obrigou-me a falar. Se eu não começasse eles saberiam esperar.
 
Tinha percebido isso na véspera, ao balcão do hotel onde pedi um extra sem ter qualquer resposta. Perplexa com o silêncio procurei pelo corredor alguém que me percebesse e vi reflectidas no espelho dos vidros que davam para o terraço, as sombras inclinadas dos homens que espreitavam os meus passos e comentavam entre si a resposta que me haviam de dar.
 
Vi-os espreitarem-me primeiro e conferenciarem depois e percebi que era essa a regra. Nunca davam uma resposta directa, nunca começavam uma conversa com uma mulher porque não estavam habituados a esse diálogo nem sabiam como mantê-lo. Era estranho mas era assim há vinte anos. Agora não sei, as coisas mudam e o mundo já não é o que era.
 
Na praia os dois homens esperavam que eu falasse para avaliarem o que haviam de responder. Começámos pelo céu que é sempre tão baixo e tão luminoso naquela ilha. Eles olharam para trás e para cima, como se medissem pelo ombro, e explicaram o reflexo da água e a química dos corais. Não precisei de dizer mais nada. Eles contaram a sua história, falaram dos pescadores naqueles barcos primitivos de vela branca e das suas famílias e acabaram por desfazer naturalmente o nó das suas mãos. Convidaram-me a sentar-me com eles num velho barco de madeira encalhado na areia e ali ficámos horas esquecidos.
 
Um deles, o que guardo na memória até hoje, era descendente de antepassados ligados a Gungunhana, coisa improvável naquelas paragens achava eu. Contou histórias que conferem com a História e detalhou conversas e gestos que ficaram gravados para sempre. Mas o que verdadeiramente me marcou foi a inesperada maravilha do seu português antigo e aquela mesma cerimónia natural e rara dos grandes quando se fazem pequenos, especialmente quando falava de homens que não eram de África.
 
- Sabe, ele era um ‘branco’, perdoe a expressão.
E é este ‘perdoe a expressão’ proferido com distinção e reverência a uma mulher branca numa praia de areia muito limpa e muito fina, quase branca, de frente para o Índico, que nunca mais esqueci. Esta e outras frases foram, para mim, a expressão do coração de um homem bom.  
 
 
 
Coração Africano III
 
O hotel fica de frente para a praia e para a imensidão de um oceano cujas marés avançam e recuam quilómetros impensáveis, revelando ao mundo alguns mistérios dos homens. Barcos naufragados, árvores plantadas em seco que ficam submersas metade dos dias, casas ao fundo erguidas com restos de navio e madeiras que resistem à água e às tempestades, caminhos que parecem estradas por onde passam mulheres elegantes vestidas de panos coloridos, com filhos pesados às costas e cestos cheios na cabeça que elas amparam com mão leve e pulso fino, tudo isto emerge quando o mar recua quase até ao fio do horizonte.
 
As marés do Índico são uma paisagem inesquecível e visto daquele terraço do hotel, o mar turqueza-transparente apetece ainda mais. O hotel é grande, desmedido, e foi herança de ingleses e alemães que há muito deixaram aquelas paragens. Decadente mas digno, alberga os turistas que chegam a uma ilha que é um misto de poesia e aventura, onde os táxis têm buracos no chão e as pessoas têm memórias antigas e sabem coisas primordiais. Uma ilha onde os corvos cantam o entardecer e os pescadores louvam o amanhecer. Zanzibar é um interminável devaneio onde volto vezes sem conta nos meus sonhos.
 
No terraço do hotel há muitas mesas espalhadas, desalinhadas, que nunca ninguém conseguirá arrumar de outra maneira. O desalinho é fascinante, não perturba o olhar, e a ordem natural ali é cada coisa ocupar o seu lugar.
Os rapazes de calças pretas e camisa branca com laço que atendem os turistas andam para trás para a frente numa dança impossível sem nunca chocar ombros nem bandejas. Antecipam passos e gestos com alegria e elevam as bandejas ao ar antes de se cruzarem. Todos atendem todos e há quem chegue a atravessar o terraço de um lado ao outro para responder a um aceno longínquo.
 
Alguém lhes tenta demonstrar que, com método e uma matemática simples, podem caminhar menos e ser mais eficazes. Cinco mesas a cada um em vez das quarenta mesas servidas por todos bastaria para ficarmos mais bem servidos mas eles têm dúvidas. Preferem o caos e a multiplicação dos caminhos.
À mesma mesa podem servir sete ou oito e demorar uma eternidade a cumprir o serviço mas eles pouco importa, a vista é bonita e a espera não custa.
 
Um dos rapazes fardados, conhecido pela colecção de sapatos extravagantes de pele de crocodilo de cores berrantes que tem, ali usa sapatos discretos e sem história. Alguém repara no pormenor e pergunta pelos outros sapatos.
- Aqui não, senhor. Não dão com o pavimento!
 
publicado por Laurinda Alves às 01:04
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Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008
Os pedófilos 'amigos' das crianças

(Imagem de uma campanha recente feita no Brasil

 
Há nomes que vale a pena fixar e o de João Sarmento Pereira é um deles. Neste caso pelas piores razões. Ouvi este nome no Telejornal no princípio da semana, no mesmo dia em que foram presos em Espanha 121 suspeitos de envolvimento numa das maiores redes de pornografia infantil.
 
A rede é um terrível polvo de mil tentáculos que espalha o mal pelo mundo e a própria polícia espanhola revelou que o material apreendido continha fotos e vídeos arrepiantes feitos com bebés e crianças muito pequenas.
 
A sequência de notícias relativas a abusos de menores neste dia começou com a divulgação das prisões feitas pelas autoridades espanholas e seguiu para o caso português de João Sarmento Pereira, de 21 anos, acusado de 6 crimes de abuso sexual a menores e condenado a dois anos e meio de cadeia, a quem foi concedida a liberdade a troco de tratamento psiquiátrico.
 
Por razões que ultrapassam o entendimento do comum dos mortais, este abusador de crianças retomou a sua vida normal e cumpre agora uma pena suspensa com toda a liberdade e apenas a obrigação de ir a umas consultas no psiquiatra. Acho extraordinário que assim seja e acho muito grave que este homem possa continuar a exercer a sua profissão de professor primário.
 
Para percebermos o que está em causa e avaliarmos a extensão deste fenómeno de benevolência judicial vale a pena voltar aos factos e apresentar o professor. A acreditar no que vi e ouvi na televisão e não vi desmentido depois em lado nenhum, este rapaz começou aos 18 anos a estagiar num colégio em Carcavelos onde tinha um contacto diário muito próximo com as crianças. Um contacto muito íntimo, para sermos mais exactos.
 
O rapaz ajudava as crianças a vestirem-se e despirem-se para as aulas de ginástica e fazia-se valer da sua supremacia física para abusar das crianças e as assustar ao ponto de elas não serem capazes de contar em casa o que lhes acontecia na escola. Tanto quanto percebi houve abusos mais graves e menos graves mas eu, que não sou juiz mas sou mãe, considero tão grave a ‘manipulação dos genitais’ de uma criança como a violação ou ‘tentativa de penetração’.
 
Admito que os que julgam precisem de evidências físicas de violação para condenar mas sei (todos sabemos!) que não é preciso haver consumação da violação para deixar marcas indeléveis numa criança e traumatizá-la para sempre. E este é o ponto sobre o qual assenta a minha argumentação sobre um caso que me parece eloquente de uma brandura excessiva e de uma leviandade intolerável.
 
Falo da brandura dos juízes e da leviandade de quem permite que este homem mantenha a sua carteira profissional de professor primário, podendo exercer a profissão num meio em que a proximidade física de crianças pequenas pode potenciar situações de abuso como as que ficaram provadas no passado recente.
 
Compreendo as mães e pais das crianças abusadas que foram ouvidas pelo jornalista e apareceram na televisão em contra-luz para não se ver a cara. Estou solidária com a sua indignação e a sua dor porque não se trata de uma vingança mas sim da mais elementar justiça. Como é que um rapaz que fez o que fez aos seus filhos pode estar em liberdade e continuar a ser professor primário?
 
Será que os juízes e os especialistas que os aconselham não sabem que o pior pedófilo é sempre o ‘maior amigo das crianças’? É sempre o que parece bom, que se faz amigo, que se torna confiável e depois usa todo este capital de simpatia e proximidade para actuar com frieza, premeditação e perversidade.
 
Ou será que os juízes acreditam sinceramente que o rapaz está profundamente arrependido e não vai repetir? Há estudos científicos que provam que esta compulsão para o abuso sexual de menores pode durar uma vida inteira e mesmo que neste caso haja um forte arrependimento é inquietante saber que alguém condenado por seis crimes de abuso sexual anda por aí à solta e mais tarde ou mais cedo vai voltar à escola e ao contacto com as crianças que, por definição, são o seu alvo preferencial e as potenciais vítimas.
 
Quem nos garante que este homem fica curado com um tratamento psiquiátrico? E quem se responsabiliza pelo seu acompanhamento, pela sua evolução mental e moral, e se responsabiliza por ele no futuro? É essencial fazer as perguntas porque alguém tem que ter as respostas para o deixar em liberdade permitindo-lhe continuar a ser professor primário.
 
Se insisto em deixar escrito o nome deste homem não é para o voltar a condenar pois não me compete a mim fazê-lo, mas para que mais pais e directores de escolas saibam com o que contam se lhes bater à porta um homem que sendo professor traz consigo outras credenciais.
 
Como cidadã e como mãe tenho o dever e o direito de sublinhar as minhas reservas quanto a casos destes, em que aparentemente não houve reparação dos danos nem sequer a obrigatoriedade de prestar serviço cívico na comunidade para dar de volta parte daquilo que roubou.
 
Na impossibilidade de devolver a integridade física, moral e emocional às crianças que abusou e de reparar o sofrimento que lhes provocou a elas e às suas famílias, devia existir a obrigação de cumprir uma pena cívica que o reabilitasse a ele e, ao mesmo tempo, nos desse a nós a certeza de que este homem está apostado em regenerar e em conquistar a confiança que neste momento ninguém pode ter nele até conseguir provar o contrário.
 
Repugnam-me os pedófilos e tarados cuja compulsão é repetir o crime de abuso sexual a menores. Nesta lógica confesso que defendo a castração química para alguns dos condenados por este tipo de crime. Mais do que uma medida de protecção para os nossos filhos e ainda mais do que um castigo aos abusadores é um favor que lhes fazemos pois é raro o que não volta ao local do crime mais do que uma vez.
 
Há quem ache uma medida excessiva mas assumo que, para mim, seria a medida certa. Não percebo porque é que havemos de continuar a acreditar mais na voz de um criminoso do que nas das suas vítimas. 
 
     
publicado por Laurinda Alves às 18:15
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Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008
Ainda o concerto de Alfred Brendel em Barcelona

(crónica escrita para o Público de sexta-feira passada) 

 

Sei que devia resistir mais uma semana e publicar só na próxima sexta este texto sobre Alfred Brendel mas não consigo esperar mais. Desde que o ouvi em Barcelona, na derradeira digressão da sua vida e num dos seus últimos recitais públicos, neste countdown ao mesmo tempo exaltante e triste, que me apetece escrever sobre este homem apaixonante.

 

Brendel é, como sabemos, um dos maiores pianistas contemporâneos mas como não ‘reduz’ a sua arte à interpretação musical e tem um leque amplo e variado de interesses, decidiu acabar a sua carreira pública de concertista e dedicar-se à poesia e à literatura. Um homem que transporta consigo o rótulo de “pianista intelectual”, que na década de 60 foi o primeiro a gravar a obra integral de Beethoven e depois construiu uma imensa obra discográfica que se converteu num monumento artístico colossal do séc.XX; um intelectual que publicou ensaios e poesia (alguma dela humorística, note-se) e que confessou aos jornalistas da BBC que um dos seus passatempos preferidos é o riso, só pode ser um homem muito completo e especial. Um portento musical e um talento cheio de talentos.

 
Na próxima sexta-feira Alfred Brendel dá o último recital da sua vida em Viena e, daí, a minha ideia de esperar pela próxima semana para aproveitar o clima emocional desse dia. Gostava de conseguir, mas não consigo. A homenagem que gostaria de lhe prestar no dia 18 vai com uns dias de antecedência mas a culpa não é minha, é dele.
 
Ouvi-lo tocar, vê-lo ao piano naquela proximidade íntima de quem se senta à sua volta para escutar a sua música e ver como dançam os seus dedos e se inclinam os seus ombros, sentir o silêncio solene de uma sala enorme cheia de pessoas comovidas com a presença do pianista, fechar às vezes os olhos enquanto ele toca e abri-los no momento exacto em que levanta as mãos depois do último acorde, ainda com o som a elevar-se no ar, foi uma experiência de quase transcendência.
 
Brendel nunca quis sobrepor a sua arte à dos compositores e, por isso, foi rigoroso no escrúpulo com que os interpretou e trouxe até nós a música que eles queriam que se ouvisse. Esta forma de tocar os grandes, fazendo-se pequeno é fabulosa porque mantém intacta a pureza inaugural dos maiores compositores de sempre.
 
Ouvir Beethoven ou Haydn ou Mozart tal como eles queriam ser ouvidos, sem efeitos nem extravagâncias para além das que os próprios autores escreveram, é maravilhoso mesmo para quem, como eu, é razoavelmente leiga em matéria de cultura musical.Gosto dessa pureza e gosto de ser levada nesse caminho dos Mestres da composição pela mão dos Mestres da interpretação.
 
Não é possível descrever os sentimentos que se sentem ao ouvir um pianista como Brendel tocar a Última Sonata que Schubert escreveu antes de morrer e é a sua despedida à vida. É uma peça intensa que atravessa todos os registos da interpretação lírica e nos faz ir da tristeza à euforia, do êxtase à dor e convoca sucessivos estados de alma.
 
Na sala do Palau de La Musica em Barcelona sentia-se o perfume das senhoras e essa mistura indizível de gente que escolhe o fato adequado à cerimónia e usa acessórios simples ou requintados mas demoradamente pensados para não brilharem nem fazerem ruído. Estas pessoas sabem que nada nem ninguém pode brilhar mais ou tocar mais alto do que o próprio Brendel e também esta contenção cerimoniosa e grave encanta e comove naquela imensa sala de vidros e porcelanas, madeiras e veludos, onde a música se espalha e se ouve como se todos estivéssemos sentados à volta de Brendel, no canto da sua casa.
 
Brendel tocou a alma e o coração de todos os presentes. No fim do recital Alfred Brendel voltou ao palco para três encores sublimes. E mais uma vez sussurrou partes das músicas enquanto as suas mãos percorriam as teclas e o seu piano tocava as nossas fibras mais sensíveis.
 
Brendel desperta sempre emoções profundas mas aquela era a última vez que o víamos num palco de Barcelona e a grande despedida ficou marcada por ovações intermináveis e lágrimas contidas ou derramadas dos que choravam o adeus mas, também, a infinita gratidão perante um homem de 77 anos que se retira no auge da sua carreira porque ainda quer fazer muitas outras coisas antes de morrer.
 
publicado por Laurinda Alves às 19:54
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