Terça-feira, 10 de Março de 2009
A minha nostalgia de um carro preto

(crónica escrita para o Público de sexta-feira passada)

 

Vendi o meu carro porque já não precisava dele como antes e porque me atrapalhava a vida de muitas maneiras. Grande demais para ruas tão pequenas, dava trabalho a pôr e tirar da garagem. Quase todos os meus dias acabavam num cúmulo de nervos e frustração pelos carros mal estacionados que impedem de circular em certos bairros da cidade e decidi acabar com este filme diário. Por outro lado gosto de andar de Metro e de certa forma gosto da liberdade de não estar particularmente ligada a bens materiais. Vendi-o a um amigo e achei que nunca mais ia pensar no assunto. E não pensei até ao dia em que estando no Norte, muito longe deste drama do trânsito de Lisboa, recebi um sms que dizia: mãe, vi o nosso carro hoje e fez-me impressão.
 
Estava noutra latitude e noutra onda mas a mensagem era demasiado profunda e incisiva. Naquele instante percebi o que queria dizer e também me fez impressão já não ser nosso.
Não pelo carro em si, não por ser melhor ou pior, mas pelas histórias de vida que este carro guarda. Pelas viagens mais ou menos longas, pelas memórias das férias dos últimos quatro anos, pelas conversas profundas e diárias entre a casa e a escola, pelo leva e traz constante de amigos e amigos dos amigos, pelas músicas ouvidas e repetidas, pelas pessoas que o guiaram ou andaram ao meu lado, pela certeza de que um carro, o nosso carro, afinal é uma espécie de criatura tão ou mais importante que um cão.
 
Aquela breve mensagem transportou-me imediatamente a momentos vividos no carro nestes últimos anos e dei comigo a rever conversas, a recordar pessoas, a ficar eu própria cheia de nostalgias. Na altura não podia dar asas a esta sucessão de memórias e arrumei o assunto com um sms igualmente breve: percebo-te. Julguei que o assunto estava arrumado até que eu própria vi o carro estacionado noutra rua, noutra ponta da cidade, e tive uma espécie de recaída.
 
O carro estava parado numa rua íngreme perto da Sé, numa esquina de prédios bonitos de pedra antiga e cantarias típicas da zona. Vê-lo ali estacionado, tão sossegado, fez-me passar devagar e parar. Não ao lado, para não me expor demasiado nem me sentir ridícula, mas na esquina de baixo. Por um lado senti-me como se me tivesse cruzado com um amor antigo e, por outro, como se estivesse a devassar uma nova intimidade. Tudo com aquela secreta certeza de estar a ver sem ser vista, que faz com que o coração fique mais acelerado.
 
Tentei não ser patética e olhar para o carro como um simples carro. Um objecto prático e pouco mais. Não fui capaz. Ainda tenho o eco das conversas, ainda vejo olhos, caras e risos no retrovisor, ainda me lembro dos milhares de quilómetros feitos por estradas portuguesas, espanholas e marroquinas debaixo de um calor abrasador, ao volante horas a fio até o sol se pôr no espelho e o mundo lá atrás ficar todo laranja e púrpura como se o céu inteiro se tivesse incendiado.
 
Este carro foi mais fiel que um cão e serviu a família e os amigos como nenhum outro. Enorme e potente, tinha sempre lugar para todos. E todos éramos sempre muitos. Seja quando se tratava de levar e trazer do surf nas manhãs geladas de inverno, seja quando a missão era apenas recolher os da escola, no fim das aulas, para os distribuir pelas ruas da cidade ou quando partíamos de férias para a casa da falésia.
 
Algumas das conversas mais profundas e transformadoras dos últimos anos foram tidas ao volante do carro e muitos dos silêncios mais íntimos e mais sagrados também. Houve lágrimas e risos, houve perguntas com e sem respostas, houve histórias assombrosas, episódios inéditos e coisas da vida de todos os dias que ficaram plasmadas nos forros deste carro. E também houve perplexidades fundas, gestos que não se esquecem, mãos que ficaram dadas, boleias inesperadas, trocas de olhares e outras cumplicidades que se guardam para sempre.
 
Olhei para o carro parado e acabei por me aproximar dele o suficiente para ver que agora tem duas cadeirinhas de bebé atrás e uma nova missão, por assim dizer.
Sei que um carro é apenas um carro e que há mil outros iguais, todos feitos em série, sem qualquer margem para excessos de personalidade. Embora reconheça tudo isto, sei que este carro tinha uma atitude diferente. É uma coisa que não se explica e se calhar nem se entende mas que eu sei, porque sinto.
 
Este carro foi muito mais do que o canto preferido da sala de minha casa. Foi essa indizível mistura de criatura fiel e protectora que nos transporta pela vida, que atravessa connosco o melhor e o pior, que acolhe os nossos estados de alma e amortece a dor de tantas perdas. Sei que alguns perceberão aquilo de que falo, enquanto outros acharão excessiva e até bizarra a nostalgia. Não me importa o que pensam uns e outros. Tenho saudades do carro e faz-me impressão vê-lo. Percebo o meu filho.

 

publicado por Laurinda Alves às 01:21
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Sexta-feira, 6 de Março de 2009
Coisas da vida e dos cemitérios
Estou entre Lamego e a Guarda, sem tempo para deixar aqui uma imagem inspiradora para este texto que escrevi para o Público na semana passada e gostava de republicar aqui. Tenho pena que fiquem só as palavras porque gosto das janelas que se abrem com as fotografias. Talvez logo consiga encontrar uma imagem bonita na net para ilustrar o tema.
 
 
Estamos sempre a aprender!
 
Entre as notícias dramáticas de acidentes, mais os despedimentos, mais a radiografia diariamente revista e ampliada da crise, houve uma pequena reportagem na televisão que me prendeu a atenção. Trata-se de uma iniciativa inédita entre nós: grupos de coveiros em cursos de formação para aprenderem novos gestos, outras maneiras e uma atitude mais adequada às funções dos funcionários cemiteriais.
 
Comecei por tropeçar na terminologia profissional por me soar demasiado pomposa mas foi um tropeço estúpido porque é evidente que os coveiros fazem muito mais trabalhos num cemitério do que abrir e fechar covas. E é natural que não queiram ser reduzidos à sua expressão mínima. Assim sendo e reconhecendo a minha estupidez inicial, dei comigo a seguir atentamente os passos dos funcionários e a ouvi-los falar com gosto sobre aquilo que fazem.
 
- Estamos sempre a aprender! – declarou um dos mais velhos, com um sorriso que aparentemente nada tinha a ver com o facto de estar a dar uma entrevista para a televisão uma vez que continuava a fazer o que estava a fazer com extrema atenção. E o que estava a fazer era a ajudar os colegas a carregar um caixão e a erguê-lo ligeiramente acima da linha dos ombros para, depois, o voltarem a colocar no chão num gesto repetido até o ângulo ficar perfeito.
 
As manobras dos coveiros parecem-nos sempre maquinais e porventura desprovidas de sentimentos mas a avaliar pelo que disse cada um dos entrevistados, há emoção para além da solenidade grave e triste do momento dos enterros. Percebe-se que assim seja e não custa acreditar que os homens a quem cabe dar aos outros a última morada neste mundo se comovam apesar das rotinas da sua profissão.
 
Esta certeza fez-me lembrar outros tempos, quando o jornal Independente começou e o MEC só tinha ideias originais e sempre torrenciais. Um dia pediu-me para escrever duas páginas de jornal sobre a morte e os coveiros (que me perdoem os funcionários cemiteriais mas na altura ainda eram coveiros) e lá fui eu para o cemitério dos Prazeres. Lembro-me que tinha uns amigos gregos em minha casa, de férias, que me perguntaram com humor porque é que tínhamos um “Cementery of Pleasures”. Era uma provocação clara mas dei comigo a caminho do cemitério a interiorizar pela primeira vez esta história do Cemitério dos Prazeres.
 
Enfim, abreviando o flashback, fiz algumas entrevistas aos funcionários e aquilo que mais me impressionou foi a naturalidade com que um deles me contou um detalhezinho da sua profissão.
 
- Sabe o melhor que me pode acontecer?
- Não.
- É as senhoras virem a enterrar vestidas de collants.
O meu silêncio deve ter sido de tal forma gritante que o homem apressou-se a esclarecer:
- É que passados os anos de vir desenterrar, basta pegar nos collants e dar um nó que os ossos estão lá todos. Só aí já está metade do trabalho feito.
 
Senti um arrepio. Não só nunca tinha pensado duas vezes sobre a questão de existir um cemitério dos prazeres como nunca me tinha ocorrido visualizar a árdua recolha dos ossos. Nesse momento realizei a dificuldade acrescentada de um profissional que não se limita a fazer o trabalho asséptico de abrir e fechar covas mas também é obrigado a arregaçar as mangas e a pôr as mãos na terra para procurar os ossos em falta quando se trata de os retirar da campa.
 
O diálogo ficou gravado para sempre e nunca mais me esqueci da questão dos collants. Não faço ideia se são muito usados nestas ocasiões mas percebo o alcance da coisa.
Voltando à realidade desta semana e às declarações dos funcionários cemiteriais, tocou-me o zelo profissional destes homens e o escrúpulo com que aprendem as novas técnicas, digamos assim.
 
- Há sempre novidades e é bom aprender!
 
E aprendem técnicas de limpeza e reciclagem, mas também como deve ser a conduta de um profissional do ponto de vista técnico e comportamental. Paulo Carreira, da Associação Portuguesa do Sector Funerário, declarou que é preciso diversificar a profissão dos antigos coveiros e fazê-los participar na gestão de todo o cemitério até do ponto de vista estético e paisagístico, porque é urgente mudar a imagem dos cemitérios.
 
Os antigos coveiros concordam e nós também. É bom saber que existe esta nova classe de funcionários cemiteriais e que estes homens investem na sua profissão, actualizando métodos e conhecimentos. A única estatística infalível é a da morte e, por isso, estes são os raros profissionais que escapam à crise. Assim sendo, importa perceber que gostam do que fazem e até apostam em fazê-lo melhor. Boas notícias, portanto.
 

 

 

publicado por Laurinda Alves às 09:41
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Sábado, 24 de Janeiro de 2009
Crónicas do Público de ontem

 
Os dois cegos
 
Se fosse cinema, as imagens da multidão a entrar e a sair do Metro seriam filmadas com a luz certa, no tempo certo. O desfile incessante de gente que sobe e desce escadas a correr, que se acotovela nas plataformas para chegar às portas, que olha sem ver, que ouve uma música que é só sua, que passa distraída sem se deter com nada nem ninguém porque tudo ali é feito de pressa, é incrivelmente cinematográfico.
 
Há uma urgência subterrânea que empurra e puxa as pessoas, que abre e fecha portas, que faz avançar os comboios na escuridão dos túneis onde o ronco metálico é mais ou menos acelerado conforme a proximidade das estações. O Metro tem um cheiro próprio e um embalo vertiginoso que arrasta as imagens das luzes reflectidas nos vidros. Luzes encarnadas, néons verdes e azuis de fora, mais o branco-gelo sempre aceso no interior, que risca ao comprido as janelas onde se vê o negativo das caras e dos ombros dos que vão sentados. Tudo isto faz outro filme dentro deste filme de multidões.
 
Quando o Metro pára do lado de cá é possível olhar com tempo para o lado de lá onde outros esperam, lêem ou conversam. Há gente de todas as cores, tamanhos e feitios nesta espécie de laboratório social que são os transportes públicos. Velhos e novos, magros e gordos, desportistas e pessoas visivelmente doentes, capacitados e incapacitados, homens, mulheres e crianças, todos partilham o mesmo espaço no mesmo tempo, sem se darem conta que existe nesta cumplicidade dos que se acompanham ao longo de uma ou duas ruas da cidade, uma possibilidade de verdade.
 
Por vezes a abstracção é tal que muitos parecem caminhar sós, como se não pertencessem à caravana. Alheios e fechados, tornam-se transparentes, seres visíveis-invisíveis, que se sentam ao nosso lado e encostam o ombro no ombro sem chegar a reparar. Estes são os que engrossam a turba que se desloca em massa, corre apressada e vive num ritmo impossível de abrandar. Há outros que caminham mais devagar, que param e olham, mesmo quando não conseguem ver. Como os dois cegos que descem as escadas apoiados um no outro e chegam à plataforma do Metro abraçados pelos ombros, sentindo não só o calor da presença do amigo como a proximidade de quem passa.
 
Pelo facto de não verem são obrigados a estar mais atentos a tudo e todos à sua volta. Aos passos dos mais apressados, aos barulhos dos comboios, aos sinais de alarme que indicam quando é que as portas abrem e fecham, enfim a mil e um detalhes que tantas vezes nos escapam por serem tão evidentes que se tornam mais que óbvios.
 
Os cegos param e recolhem maquinalmente as bengalas para junto do corpo mas não desfazem o abraço. Há qualquer coisa que os faz rir e as cabeças ligeiramente inclinadas uma sobre a outra dão um ar de segredo ao que se calhar não tem segredo nenhum e é puro entendimento. Enquanto o Metro está parado deste lado, olhamos para os cegos que se destacam do formigueiro subterrâneo pela atitude mas também pelo tempo demorado, quase suspenso, que criam à sua volta. E só porque estão parados quando todos os outros correm, e porque permanecem abraçados quando os outros se empurram e afastam, nós próprios ficamos menos cegos.
 
 
E um homem chamado Fernando
 
Agora que escrevo sobre os que vêm sem ver, lembro-me de um homem sobre quem sei muito pouco ou quase nada mas vejo todos os dias entrar com passos contados, em ângulos mentalmente medidos, por uma casa que essa sim conheço como as minhas mãos. Este homem chama-se Fernando e é fisioterapeuta. Os seus olhos quase não vêm e por isso aprendeu a ver de outras maneiras. Ouve o que as pessoas dizem mas também o que calam, fica atento aos barulhos do mundo e ao som das vozes à sua volta e decifra tudo num silêncio misterioso, fascinante.
 
Há anos que ouvia falar dele, da sua maneira de ser e fazer as coisas. O meu pai foi operado duas vezes e saiu do hospital directamente para as mãos deste homem. Ao fim do dia as histórias multiplicavam-se e os pormenores sobre os gestos e as palavras de um especialista que sendo quase cego via mais e melhor que muitos outros, ocupavam alguns serões de família.
 
- O que mais me impressiona é a precisão com que faz tudo e a maneira aparentemente fácil como procura e encontra tudo nas prateleiras.
As prateleiras do gabinete do Fernando têm muitas coisas arrumadas, todas postas por ordem, numa ordem que é a sua e conhece de cor. Daí os gestos sem hesitação e a assurance com que estende o braço e tira agora um líquido, depois um creme de massagem e mais tarde uma toalha. Mas não é apenas a amplitude de gestos e a visão certeira que marcam os que se entregam aos cuidados do Fernando. Muito mais importante que esta visão cósmica, por assim dizer, é a atenção que presta aos seus pacientes e a maneira como vê as conquistas de cada um.
 
De trato doce mas incrivelmente firme e exigente, Fernando não poupa elogios mas também não dispensa críticas quando elas são precisas. Há quem desista por não ser capaz de corresponder aos requisitos da sua ciência e experiência, mas a esmagadora maioria permanece até ao fim e recupera até o que julgava irrecuperável. Fernando tem uma fasquia alta e sabe que só assim é possível evoluir. A sua própria história é uma sucessão de superações e é na possibilidade de nos transcendermos em cada momento que ele acredita e fundamenta toda a sua acção.
 
Passados alguns anos sobre a recuperação da segunda operação, eis que o Fernando volta a estar muito presente, desta vez em casa por não haver alternativas. A prescrição médica foi muito clara: três meses sem sair à rua. A minha mãe nem pensou duas vezes quando se tratou de procurar um fisioterapeuta que viesse a casa. Perguntou ao Fernando e ele disse que sim. Sem hesitar e sem precisar sequer de ver onde ia.
 
No primeiro dia apresentou-se em casa à hora marcada, decorou o caminho e o número de passos entre cada ponto de referência que só ele conhece e, desde então, avança pela casa dentro como se visse todas as coisas e cada esquina. Estuda a geometria exacta dos lugares e cartografa todos os caminhos por onde passa com uma naturalidade espantosa. Comove senti-lo chegar pontualmente à hora marcada, quando já anoitece lá fora, vê-lo pousar a sua pasta à entrada e encaminhar-se para o quarto ao fundo.
 
Vejo-o sem ser vista e observo os seus movimentos. Percebo as contas que faz e a naturalidade com que interioriza esta matemática diária. Depois sento-me e vejo como faz tudo.
- Sabes o que mais me enternece nele? pergunta a minha mãe baixinho, quando ele desaparece pelo corredor para ir buscar qualquer coisa à pasta.
- Não. A mim tudo me comove nele.
- É a maneira terna como junta sempre uma palavra de estímulo ao nosso esforço.
Percebo o que quer dizer. Enquanto outros dizem apenas: puxe; estique; segure; faça e desfaça, o Fernando diz: puxe que eu ajudo; estique que consegue; segure que é capaz; faça e desfaça que eu estou aqui e não a largo.
 
Parece simples demais? Talvez, mas é muito eficaz e tem efeitos terapêuticos inimagináveis até porque esta ternura está permanentemente trespassada de exigência e é nesta mistura indizível de dor e estímulo que tudo volta devagarinho ao seu lugar.
Não sei muito mais sobre este homem que se chama Fernando e é fisioterapeuta. Nunca lhe vi os olhos porque usa sempre óculos escuros mas ele também nunca viu os meus e julgo que nem um nem outro precisamos disso porque o essencial transparece.
publicado por Laurinda Alves às 17:36
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Sábado, 3 de Janeiro de 2009
Crónicas do Público à sexta

Como é habitual, deixo aqui hoje as crónicas que escrevi ontem no jornal Público.

 

 

Número 100
 
Dou-me conta que hoje escrevo a centésima crónica para o Público desde que a XIS acabou aos sábados e inaugurámos este formato às sextas. Acho graça a números redondos e acho extraordinário que tenham passado 100 semanas. Quase dois anos e eu da achar que foram apenas alguns meses. Ou talvez uma data de semanas, mas nunca dois anos.
Olho para este tempo com surpresa porque percebo, aqui e agora, ao segundo dia de um ano novinho em folha, que foi um dos tempos mais transformadores da minha vida. O que era já não é; o que parecia ser afinal não foi; o que eu esperava não aconteceu; o que eu sonhava apareceu quando menos contava. Enfim como alguém disse, ‘não tive nada do que queria mas acho que tive tudo o que precisava’. Seja.
 
Presente de Natal
 
Dia de voluntariado nos Cuidados Paliativos, dia de estar à cabeceira de pessoas doentes e suas famílias. No mesmo corredor, que é largo e muito comprido, cada quarto é um mundo. Há histórias incríveis de coragem mas também exemplos inconcebíveis de cancros e outras doenças que não matam mas doem.
Vou de um quarto para o outro e ouço o que contam mas também o que calam. O silêncio ali é muitas vezes a palavra mais certa. Há momentos e sentimentos que não se traduzem de maneira nenhuma. São para ser vividos e só.
No fim do dia desço pelo elevador do costume e caminho distraída até ao parque de estacionamento. Esqueço-me de pagar e volto atrás. Acontece-me com frequência mas já me habituei a esta espécie de abstracção em que fico depois de ter estado na Unidade. Tudo ali é muito denso, muito complexo, muito triste e muito alegre. Muito verdadeiro, portanto. Este cúmulo de emoções faz-me olhar sem ver e, muitas vezes, faz-me esquecer onde estou e para onde vou.
Volto maquinalmente à máquina das moedas para pagar o parque e ela devolve-me a nota de dez por não ter troco para quatro. Vencida pelo automatismo, olho à volta sem coragem para voltar a subir quatro andares para me trocarem o dinheiro. Sei que preciso de tempo para secar as lágrimas do dia e não me apetece nada que me vejam.
Eis que o elevador baixa e sai alguém que eu conhecia mas não me lembrava por ter estado com ela apenas uma vez num encontro mais ou menos alargado, e avança para a máquina com o sorriso de quem já passou pelo mesmo. Tira quatro euros de um porta-moedas divertido de borracha verde-alface e, sem hesitações, oferece-me o parque desse dia. Obrigada Margarida.
 
A queda de um anjo
 
Era um dia feliz e nada nem ninguém se atreveria a provar o contrário. Poucos chegam aos cinquenta anos de casados e celebram o dia com a família inteira e de boa saúde. Era o caso.
A manhã foi passada em arranjos de festa, sempre atenta aos detalhes, a antecipar a hora da tarde em que seria rezada uma missa com todos, para todos. Escolheu uma celebração pública porque é uma mulher que vive para os outros, de coração aberto ao mundo e braços abertos aos que vivem à sua volta. Podia ter tido uma celebração mais íntima e mais exclusiva mas preferiu assim. Fomos todos pela estrada com ela, por ela. E pelo pai, claro.
Chegámos antes da hora, com tempo para acertar os últimos detalhes, quem lê o quê, quais as intenções para dizer em alto e quais que se guardam para ler depois de descer do altar.
Lá fora chovia e o dia escurecia. As ruas molhadas e vazias pareciam mais tristes mas acho que ninguém reparou. As árvores, tocadas pelo vento, pareciam fazer vénias sucessivas e esse movimento animou o momento.
Entrámos na Igreja antes da hora, quando já estava quase cheia, e avançámos pelo corredor de pedra gasta que conduz ao altar. As pessoas foram deixando os guarda-chuvas pousados ao lado dos bancos e a água escorria pela laje antiga. A meio caminho escorregou, caiu desamparada e já não foi capaz de se levantar.
A queda parecia banal mas a fractura foi brutal. Ficámos abraçados, debruçados sobre ela até chegar a ambulância para a levar para o hospital. O chão estava frio e de repente o ar ficou gelado. Dizem que a queda dum anjo provoca sempre um arrepio. Acredito.   
  
 
O bombeiro voluntário
 
Na ambulância vinha um bombeiro voluntário muito novo mas muito graduado. Li o nome inscrito na placa que trazia ao peito: Rui Pereira. Não fiz perguntas enquanto ele não concluiu todos os preceitos. Respondi ao que ele perguntava, perguntando-me a mim própria como é que um rapaz tão novo podia ser tão seguro.
Quando a ambulância voltou à estrada, numa marcha lenta e cuidadosa dada a gravidade da situação, deixei-me ir de olhos fechados por breves momentos. Revia o filme da queda e o absurdo da coisa e interrogava-me sobre o sentido de certas coisas da vida.
Sem respostas para nada naquela hora, voltei a abrir os olhos para verificar se estava tudo bem, se os ombros iam bem tapados e não sentia frio nem calor. Íamos de mãos dadas sem trocar palavras, apenas um ou outro sorriso meio-triste de quem sabe porque sente que não há nada a fazer para além de aceitar o que acabara de acontecer. Não se trata de resignação mas de aceitação, que é uma coisa muito diferente.
A meio do caminho perguntei ao bombeiro quantos anos tinha e há quantos anos fazia este serviço nas ambulâncias de emergência. Tem 24, é bombeiro há 10 e daí a graduação avançada. Fiquei calada. Ele olhou para mim e explicou que era filho e irmão de dois bombeiros voluntários. Falámos disto de ser voluntário e do compromisso radical que representa num mundo que desabaria se não fosse o trabalho dos voluntários.
- O meu pai é um dos bombeiros mais reconhecidos do país.
Falava com indisfarçável orgulho e comoveu-me o sentimento mas também a herança de um homem que dedicou toda a sua vida a salvar as vidas dos outros e a resgatar bens e pessoas. Filho de António Costa Pereira, o bombeiro que nos representa nos encontros internacionais de bombeiros, contou episódios da sua vida e falou com um entusiasmo contagiante. Apetecia ficar a ouvi-lo e foi o que fizemos pois a marcha era lenta e a viagem longa.
- Já estive duas vezes cercado pelo fogo. Uma vez eram tantas as chamas e o fumo que parecia impossível sair dali vivo. Estava com um colega, agarrámo-nos um ao outro e fomos a correr pelo meio do fogo mas nunca pensámos escapar.
A imagem dos dois abraçados a correr pela vida ou para a morte impressionou-me. Esse abraço salvou-os pela força que representou para cada um. Atravessaram as chamas e sobreviveram apesar da extensão das queimaduras. Quando se viram a salvo, ainda abraçados, choraram no ombro um do outro. Só depois se largaram e caíram por terra.
Houve uma outra vez em que Rui Pereira esteve entre a vida e a morte mas confessa que nada o fará desistir de ser bombeiro.
Pergunto-lhe se recebem algum dinheiro pelo trabalho que fazem e responde que não, só no Verão, na época de incêndios, é que ganham um euro e setenta à hora para apagar fogos. Um euro e setenta para caminharem pelas chamas, arriscando a sua própria vida para salvar as nossas, é obra.
Calo-me outra vez e fecho os olhos para tentar imaginar como será isso de estar cercado pelo fogo, intoxicados pelo fumo, sem ver saídas e enfrentando a morte em cada instante. Penso nestes bombeiros que perderam a vida, de quem agora sei os nomes, e penso nos que arriscam a vida inteira sem saber se algum dia ficarão presos nas chamas. 
Ainda bem que existem homens corajosos como Rui e António Costa Pereira. Merecem ser louvados e condecorados e nunca nada será demais para reconhecer o trabalho deles e de tantos como eles.   
publicado por Laurinda Alves às 21:37
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Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008
O tempo, esse supremo luxo moderno

Pediram-me que escrevesse sobre luxos modernos para a edição especial da revista Pública que saiu no domingo passado. Depois de pensar no desafio decidi escrever sobre o tempo que é, para mim, o maior de todos os luxos. Deixo aqui a sucessão de pequenos textos que sairam na revista há dois dias. São histórias verdadeiras.

 

 

O TEMPO E OUTROS LUXOS QUE O DINHEIRO NÃO COMPRA
 
- Penso em ti uma vez por dia: de manhã à noite!
Ri com os olhos, inclina a cabeça ligeiramente para o lado, abre os braços e estica-os muito para a abraçar com mais força. Diz-lhe esta e outras coisas sem hesitar. Tem ar de rapaz e gestos de homem feliz.
- Há anos que eu tinha saudades tuas!
Ela ouve-o e ri com ele. Deixa-se abraçar e levar. Caminham devagar e de vez em quando param na rua para se abraçar. Voltam a andar e mais adiante tornam a parar. Ele segura-a pelos ombros e levanta-lhe o cabelo com as mãos para lhe dar um beijo no pescoço. E mais um abraço demorado.
Vão pelo passeio, alheios a quem se cruza com eles. O tempo ficou lá atrás, parado, suspenso, num compasso impossível de medir. Nunca saberão ao certo que horas eram naquela tarde mas talvez fixem a data porque há dias importantes que apetece reviver. Desaparecem na esquina ao fundo e não os voltamos a ver.
                
                                                           
                                                                      *
 
- Que horas são?
- Passa das duas da tarde.
- Onde é que estou?
- No hospital.
- Desde quando?
- Há quase um mês.
O silêncio pesa no quarto. Ele fecha os olhos devagar e faz um esforço mas não consegue lembrar-se dos dias. Um mês inteiro?
- Quando chegou dizia coisas incompreensíveis, delirava. Deu-me a mão e perguntou o meu nome. Falava uma língua estranha.
- Não me lembro de nada. Não me lembro do tempo. Como se chama?
- Olívia. Em que país nasceu?
- Na Grécia, em Ia.
- O seu navio ficou em mau estado mas não afundou. Salvaram-nos a tempo, a si e ao barco. Há quantos meses estava no mar?
- Não sei, não me lembro. Deixe-me ver as suas mãos.
A enfermeira estendeu a mão direita e ele segurou-a com solenidade. Olhou para as linhas em silêncio, alisando a pele com cerimónia e devoção.
- Ensinaram-me a ler as mãos na Índia mas agora estou cansado demais, não consigo distinguir as linhas mais fundas. Os meus olhos estão pesados.
Calou-se e ficou de olhar fixo no vazio branco da parede em frente. Ela retirou a mão, compôs a manga junto ao pulso e olhou através da janela. Ficou à espera que ele dissesse alguma coisa mas ele adormeceu outra vez. Quando acordou tinham passado mais dois dias. Ela permanecia à cabeceira e ele voltou a perguntar pelas horas. E pelos meses.
O hospital foi o tempo sem tempo que lhes mudou a vida para sempre. Nas linhas da mão da enfermeira Olívia afinal estava escrito que iam casar e ter três filhos. Casaram, os três filhos nasceram na Grécia, mais tarde vieram todos de barco para Portugal e muitos anos depois ela morreu com o marido velhinho à cabeceira. Sessenta anos foi o tempo que durou o casamento. A enfermeira Olívia morreu e um mês depois morreu o marido. Dizem que foi por amor.
 
(nota: esta história é a mesma que eu comecei por contar aqui há umas semanas)  
                                                                     
                                                                  *
 
Filho de pai e mãe médicos, quando era criança usava a casinha das bonecas do colégio para dar consultas e explicar aos amigos porque é que o chi-chi é amarelo. Também sabia dar injecções e falar sobre doenças. Os colegas da aula ouviam-no com atenção e decoravam as palavras que usava com grande eloquência. Achavam sinceramente que se calhar ele também era médico. Isto, apesar de ainda nem ter seis anos. Nestas idades acreditamos sinceramente em muitas coisas e até no Pai Natal.
Um dia perguntaram-lhe o que queria ser quando fosse grande e ele respondeu muito alto e muito depressa:
- Cientista genético, para clonar a minha avó!
A avó sorriu quando lhe contaram a ambição deste neto. Tem outros, que ainda não descobriram o que querem ser quando forem grandes, mas tal como o primo-médico também sabem que o tempo que passam juntos é o melhor tempo do mundo.
 
                                                                  
                                                                    *
 
- Nasci numa ilha, num país periférico, e queria muito ter uma experiência metropolitana. Precisava de conhecer a metrópole, de a viver e sentir, para ter bom material para a minha escrita. Queria ser escritor e ter uma personalidade e uma vivência adequadas. Para mim todos os grandes escritores tinham personalidades de escritor. Pensava em Somerset Maugham ou em Aldous Huxley e achava que nunca na minha vida ia conseguir ter uma personalidade como a deles. E histórias para contar como eles tinham.
O escritor fala dos seus 16 anos, de um tempo de ambição e dúvida, de certezas e perplexidades, de medos e sonhos sem fronteiras. Agora tem 76 e a vida que viveu e tudo o que escreveu fala por si. Tanto, que ele poupa nas palavras ditas. É escasso na retórica e, por isso, pouco discursivo. Prefere ler do que falar. E escrever, claro.
Talvez V.S. Naipaul seja como Nabokov quando dizia “fui sempre um orador desgraçado. O meu vocabulário habita nas profundezas do meu espírito e precisa do papel para se soltar e ascender à zona física. A eloquência espontânea sempre me pareceu um milagre”. Talvez. Não sei, não lhe perguntei. Limitei-me a ouvi-lo falar, ou melhor a ouvi-lo ler o que contava sobre a sua adolescência e os anos que antecederam a sua grande viagem para a Metrópole. De Trinidad para Londres.
Na metrópole V.S. Naipaul descobriu pessoas e histórias e cartografou a alma humana. As vidas dos estranhos interessaram-lhe tanto que passou a sua própria vida a biografá-los. Afinal não era como aqueles grandes escritores de grandes romances e tremendas ficções que admirava na juventude. Era diferente, tinha fascínio por outras coisas e desenhou uma geografia própria. Demorou décadas a apurar o estilo e a emendar a mão mas valeu a pena a demanda por essa complexa substância metropolitana. Ganhar prémios e muito dinheiro foi importante para ele? Foi. Ou talvez não, não tem bem a certeza. A memória sim, é importante para ele. E as vidas dos outros e as camadas de tempo sobre o tempo.
         
                                                               
                                                                    *
 
- Chegámos a Moçambique em vésperas de Natal, as noites são muito quentes e os dias ardentes. No chão das ruas há uma poeira bíblica e dos poucos metros de asfalto que sobram nas estradas desprendem-se ondas de calor que fazem mexer o horizonte ao longe. O ar perdeu a transparência e sente-se um sufoco permanente. Vivemos de madrugada e depois recolhemo-nos e esperamos pelo entardecer. Os dias são compridos e muito preenchidos porque falta quase tudo neste lugar. Quando estamos em casa ligamos a ventoinha preguiçosa de pás enormes que demora a arrancar e roda muito devagar, fazendo ranger a madeira do tecto. Parece um interminável lamento, um queixume antigo, mas já estamos habituados. Aqui em Matacuane, na Beira, a nossa casa fica mesmo em frente da Igreja Paroquial e está colada a uma das ruas mais movimentadas da cidade. Somos vizinhos do “corredor” que é realmente um corredor estreito por onde se estendem incontáveis bares onde os moçambicanos acabam os seus dias. E as suas noites. Nós adormecemos embalados pelo som dos carros e camiões que passam por baixo da nossa janela e, sem querer, acabamos por tomar parte nas conversas dos homens e mulheres que se juntam nos bares até ser madrugada. Viemos em missão e vamos ficar um ou dois anos, depende. Temos tempo. No domingo passado uma senhora na missa veio ter connosco e fez-nos uma pergunta maravilhosamente simples:
- Ainda têm sonhos de lá ou já sonham com as coisas de cá?

 

P.S.: A fotografia do mar neste enquadramento simbólico do tempo é da Mariana Sabido. 

 

publicado por Laurinda Alves às 08:55
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